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Meio ambiente

Ibama silencia sobre paca servida por Janja a Lula; ativistas criticam

Em vídeo nas redes sociais publicado no domingo de Páscoa, Janja aparece cozinhando carne de paca, roedor silvestre que tem caça proibida no país.
Em vídeo nas redes sociais publicado no domingo de Páscoa, Janja aparece cozinhando carne de paca, roedor silvestre que tem caça proibida no país. (Foto: Reprodução/Instagram @janjalula)

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Ativistas dos direitos dos animais pediram esta semana atenção do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em relação ao almoço de Páscoa do presidente Lula (PT) e da primeira-dama Rosângela Lula da Silva — Janja. Durante a comemoração no último domingo (5), o casal gravou vídeo cozinhando paca, animal silvestre com caça proibida no Brasil, e a postagem nas redes sociais gerou denúncias ao Ibama. Até a manhã desta sexta-feira (10), no entanto, o instituto não se manifestou.

“Ela falou carne de caça. Eu escutei e já vi esse vídeo mil vezes para ter certeza”, disse a ativista Luisa Mell em postagem nas redes sociais. “Qual o objetivo dessa porcaria, Janja?”, questiona a influenciadora, conhecida por sua atuação na defesa animal no Brasil. Segundo ela, o vídeo da primeira-dama demonstrou “irresponsabilidade inacreditável”.

A ativista criticou também o fato de Janja ter afirmado nos comentários da publicação que a carne consumida teria vindo de produtor legalizado. “A criação de animal silvestre em cativeiro é terrível”, disse, ao comentar que o Ibama, inclusive, lutaria contra esses locais, pois o animal silvestre não se adapta ao cativeiro.

Luisa afirmou ainda que a paca tem apenas um filhote por gestação, o que torna o consumo legalizado da espécie “elitista” e “para pouquíssimos”. Ao final de sua crítica nas redes sociais, a ativista com 4,1 milhões de seguidores pediu para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente mostrar o certificado do criadouro legalizado que teria fornecido a carne. Na postagem realizada pela primeira-dama não foi especificado o local de origem do animal.

Além de gerar críticas, o vídeo gravado por Lula e Janja motivou denúncias como a relizada pelo defensor animal Rodrigo Maroni. “Denunciei o presidente Lula e a primeira-dama no Ministério Público Federal, na Procuradoria-Geral da República e no Ibama”, escreveu em sua conta no Instagram.  “Agora, a responsabilidade também é das instituições”, continuou.

A Gazeta do Povo entrou em contato com o Ibama e com o Ministério do Meio Ambiente, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.

Ativistas lembraram caso da capivara Filó, de 2023

Diante do aparente silêncio do Ibama em relação ao consumo de paca pelo presidente Lula e a primeira-dama Janja, ativistas lembraram da agilidade do Ibama no caso da capivara Filó, que teve grande repercussão no Brasil, em abril de 2023.

Na época, o influenciador Agenor Tupinambá foi denunciado por publicar vídeos com sua capivara de estimação, no Amazonas. Em depoimentos sobre o fato, o rapaz afirmou que Filó havia sido “adotada” após a mãe do animal ter sido caçada por indígenas. A capivara teria, então, passado a habitar a região da moradia do estudante.

No entanto, o Ibama recebeu denúncia de que Agenor estaria explorando o animal para enriquecimento e realizando supostos maus-tratos à Filó. O estudante foi multado em mais de R$ 17 mil e obrigado a entregar o animal silvestre ao instituto, que determinou retirada de todos os vídeos e publicações feitos com o animal. Após batalha judicial, Agenor obteve guarda provisória da capivara.

Site do Ibama apresenta multa recente de R$ 60 mil a pescador

Nas redes sociais e no site do Ibama também não há manifestação a respeito do almoço do presidente e da primeira-dama. No entanto, notícia publicada pelo instituto na quarta-feira (8) cita o caso de um influenciador de Santa Catarina multado em R$ 60 mil por pesca ilegal de peixe em perigo de extinção.

Segundo a publicação, o influenciador divulgou em suas redes sociais vídeo exibindo animais pescados ilegalmente e anunciando um curso sobre “como capturar burriquetes”.

A infração ambiental foi registrada pelo Ibama com fundamento no Artigo 24 do Decreto 6.514/2008 por capturar espécies da fauna silvestre ameaçadas de extinção sem permissão da autoridade competente.

PL pede apuração do caso e aplicação de sanções

O tema chegou ao Congresso Nacional, onde o líder do Partido Liberal (PL) na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), acionou o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para apurar os fatos e questionar o Ibama.

No requerimento, o deputado federal pergunta quais providências foram tomadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente em relação à verificação da origem do animal consumido por Janja e Lula. Ele também solicita apuração de eventual infração e aplicação de sanções em caso de irregularidade.

“A presente iniciativa não possui caráter acusatório prévio, mas visa assegurar a observância do princípio da legalidade e da isonomia, garantindo que a legislação ambiental seja aplicada de forma uniforme e impessoal”, apontou Sóstenes, no documento.

O que a lei diz sobre consumo de animais silvestres como paca

Lei de Proteção à Fauna estabelece que animais silvestres são propriedade do Estado e têm sua caça, captura e comercialização proibidas.

Lei de Crimes Ambientais também trata do tema, e aponta no artigo 29 que a caça e utilização de espécies silvestres “sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente” configura crime com pena de detenção de seis meses a um ano, e multa.

Ainda segundo a legislação, a pena também é válida para quem vende, expõe à venda, exporta ou adquire animais silvestres em criadouros não autorizados ou sem a devida permissão.

Como ocorre a fiscalização no Brasil

No Brasil, os criadouros de animais silvestres são fiscalizados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e por órgãos ambientais estaduais. Para serem legalizados, os comércios precisam ter licença ambiental, registro no Ibama, controle sanitário, responsável técnico e registros da origem legal dos animais.

Com isso, há poucos criadores legalizados no Brasil, o que aumenta o valor da carne de paca. O preço médio praticado varia entre R$ 80 e R$ 150 por quilo, e a carne costuma ser encontrada em restaurantes de luxo que servem pratos que podem custar até R$ 400.

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