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“Deus inconstitucional”

Instituto criticado por promotora nega vínculo com fé evangélica

A promotora Elayne Christina da Silva Rodrigues, que afirmou ser inconstitucional citar Deus em evento dos conselhos tutelares em Duque de Caxias. (Foto: Bruno Mirandella / OAB-RJ)

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Um instrutor e a presidente do Instituto João Gonçalves, responsável pela apresentação de uma coreografia em um evento que acabou em polêmica após uma promotora repreender uma fala sobre Deus, deram mais detalhes sobre o acontecido. A cerimônia aconteceu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no último dia 3.

Em um vídeo publicado neste sábado (11), responsáveis por uma apresentação coreográfica de crianças e adolescentes afirmaram que a apresentação foi bruscamente interrompida após a repreensão da promotora Elayne Christina da Silva Rodrigues, que afirmou ser “inconstitucional” uma citação a Deus no evento. Segundo eles, as crianças choraram com o cancelamento no meio da apresentação.

“Não sou evangélico”

O professor Hilbert Diaz, que fez a leitura das palavras com menções a Deus, a poesia “Abraço de Deus” asseverou que não é evangélico e que, ao mencionar Deus, não pretendeu realizar nenhuma vinculação a qualquer congregação cristã.

“Não sou pastor, não sou evangélico! (...) Foi um pensamento, falando de um Deus. Qual Deus? O seu Deus! O meu Deus eu sei qual é, qualquer um dos que estava lá sabia qual era o seu Deus”, declarou Hilbert no vídeo.

De acordo com sua versão, a intervenção do Ministério Público teria interrompido a apresentação de jazz que acontecia no momento da leitura do poema religioso. Diaz afirmou que era um momento de troca de figurino, no qual era necessária a pausa na dança, aproveitada por ele para a mensagem religiosa.

Choro das crianças

A presidente do Instituto João Gonçalves, Sulys Araújo, afirmou que sua filha e outras crianças choraram com a interrupção do número de dança. “Elas acharam que tinham feito alguma coisa errada”, disse Sulys.

As imagens do evento divulgadas até o momento não permitiriam afirmar que o fim da apresentação estava relacionado à interpretação da promotora Elayne, que na ocasião se disse “extremamenre ofendida” pela "oração evangélica" e se retirou do local.

Pessoas que têm familiaridade com o caso afirmaram, sob a condição de anonimato, que a versão de que o cancelamento da coreografia teria relação com a reprimenda da promotora seria verdadeira.

A promotora Elayne foi alvo de denúncia no Conselho Superior do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). A representação foi protocolada pela Associação dos Conselheiros e Ex-conselheiros Tutelares do Estado do Rio de Janeiro (Acterj) e solicita instauração de procedimento administrativo para apuração dos fatos e adoção de medidas administrativas.

Parlamentares se posicionaram sobre falas da promotora: “Perseguição”

O senador e pré-candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ingressou com uma representação no Ministério Público do Rio de Janeiro contra a promotora.

“Por que a fé incomoda tanto uma turminha que adora pregar diversidade?”, questionou o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (NOVO). “Não me lembro de ver o Ministério Público proibir falar de aborto em caderneta de gestantes, defesa de PCC e Comando Vermelho, e também não vi se manifestar sobre um contrato de 129 milhões. Mas sobre Deus, aí não dá”, continuou.

A deputada federal Bia Kicis (PL-DF) também se posicionou. De acordo com ela, a situação demonstra “perseguição a cristãos” e evidencia confusão a respeito do termo “Estado Laico”, já que a Constituição da República “não protege o silêncio sobre Deus, ao contrário, protege o direito de falar sobre Ele”, disse.

A deputada federal Clarissa Técio (PP-PE) também apontou em suas redes sociais que a Constituição, em seu preâmbulo, cita o termo “sob a proteção de Deus” e que o fato de uma oração ou referência a Deus ser considerado algo “inconstitucional” seria “claramente um ato de intolerância religiosa”.

O parlamentar Marco Feliciano (PL-SP) citou, inclusive, que os trabalhos na Câmara dos Deputados sempre iniciam “invocando a proteção de Deus” e que existe um crucifixo acima da mesa do presidente da Casa. “Tenho profundo respeito pelo MP e não generalizo a conduta atribuída a essa integrante”, disse Feliciano. “Tenho certeza que o MP do estado do Rio de Janeiro esclarecerá esses fatos e dirá se o entendimento dessa promotora representa, ou não, a posição oficial da instituição”, pontuou.

Outro lado

A reportagem da Gazeta do Povo contatou o MPRJ por e-mail e telefone para solicitar o posicionamento da instituição em relação às falas da promotora. No entanto, não recebeu resposta. Uma nova tentativa de contato foi feita neste sábado, sem sucesso.

A Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Amperj) divulgou na semana passada uma nota em que manifesta sua solidariedade à promotora Elayne Christina da Silva Rodrigues.

Elayne é descrita como uma “profissional séria, competente e respeitada, com reconhecida experiência na área da Infância e Juventude, tendo sempre pautado sua atuação pela defesa da ordem jurídica, dos direitos fundamentais e dos interesses sociais indisponíveis”.

A Amperj afirma que a promotora teve por objetivo afirmar valores constitucionais essenciais” e que o “Ministério Público, por expressa determinação constitucional”, tem como dever “zelar pelo efetivo respeito aos direitos assegurados na Constituição, especialmente quando se trata de crianças, adolescentes e demais grupos em situação de vulnerabilidade”.

De acordo com a Amperj, Elayne não pode ser vítima de “ataques indevidos ou interpretações distorcidas” e que a associação “adotará as providências cabíveis em defesa da colega e da instituição”.

Leia a poesia declamada pelo instrutor:

O Abraço de Deus

Há momentos em que a vida pesa, os caminhos parecem incertos e o coração se enche de dúvidas. É justamente nesses instantes que o abraço de Deus se faz presente. Nem sempre ele vem da forma que esperamos, mas chega por meio da paz que acalma a alma, da força para continuar, de uma palavra de esperança ou do carinho de alguém que Ele coloca em nosso caminho.

O abraço de Deus não prende, acolhe. Não condena, transforma. É um abraço que cura feridas invisíveis, renova a fé e nos lembra que nunca estamos sozinhos. Quando nos permitimos descansar em Sua presença, descobrimos que o maior refúgio é o Seu amor, um amor que permanece fiel em todos os tempos.

Que hoje você sinta esse abraço divino envolvendo sua vida e renovando sua esperança para seguir em frente.”

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