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O avanço das bets transformou o celular de milhares de brasileiros em uma armadilha. Saldos bancários zerados, casamentos destruídos, o patrimônio de famílias inteiras sendo dilapidado, impactos na saúde mental e tentativas de suicídios são alguns dos problemas relatados por jogadores que, sob anonimato, contaram suas histórias à Gazeta do Povo.
“Tive quatro tentativas de suicídio porque eu não conseguia sair do jogo. Eu dormia e acordava pensando em jogar. O mais doloroso para mim era saber que eu trabalhava o mês inteiro para no final do dia ver meu saldo zerado e minhas contas não pagas”, conta L.M, de 31 anos, que conheceu as bets entre 2020 e 2021.
No início, a busca por dopamina era a motivação, além da expectativa de uma renda extra para pagar alguns custos da faculdade que estava iniciando. Mas aos poucos, o valor mínimo empregado nos jogos deixou de trazer prazer. “Fui apostando mais porque a aposta mínima já não me satisfazia. Comecei a perceber que jogava para esquecer dos problemas e jogava também para comemorar se estava feliz”, lembra-se.
Para sustentar as apostas, quando já não tinha mais dinheiro, L.M passou a usar o cartão de crédito e as reservas financeiras de uma familiar próxima. “Eu cheguei a usar fotos dela para reconhecimento facial e emprestar dinheiro. Quando vi que já não tinha mais como tirar dessa pessoa, fui para agiotas. Eu já não era mais a pessoa que outras confiavam, porque tinha mentido tanto que ninguém mais acreditava em mim”, diz.
Segundo L.M, ela chegou ao “fundo do poço”. “Depois das quatro tentativas de suicídio, eu não tinha conseguido nem morrer. Aquilo me deixava ainda mais incapaz, mas eu não conseguia parar de jogar. Era tão destrutivo que eu jogava chorando. Depois me automutilava e me batia, porque eu não queria estar naquilo, eu não queria estar causando tanta dor e sofrimento para minha família e para mim”, conta.
As bets levaram o valor de um imóvel em três dias
As apostas, em seus mais diversos formatos, sempre estiveram presentes na vida de K.R.S. Começou com os bingos na juventude, depois se intensificou ao entrar no mercado financeiro, até a chegada das bets. No fim, antes de buscar ajuda para recuperação, K.R.S vendeu um imóvel e perdeu todo o dinheiro adquirido, em três dias.
“Um dos meus primeiros trabalhos foi no mercado financeiro. Ali conheci as ações e criptomoedas. Compra e venda de ativos para alguns também é considerado um jogo, e eu fazia isso de forma compulsiva. Precisei sair desse modelo de trabalho, mas a compulsão sempre me acompanhou. Chegou ao limite quando acabei vendendo um imóvel e perdendo em três dias o valor dele. Nesse momento, minha família e meu médico conseguiram me fazer ver que eu precisava de ajuda”, relata.
O dinheiro do imóvel foi mais uma entre tantas outras perdas que K.R.S já havia sofrido nos últimos anos. “Tudo o que eu acumulei ao longo do tempo, eu perdi no jogo. Isso me trouxe muitas crises de ansiedade e problemas no sono. Também acabei me separando, porque fica uma relação insuportável. A pessoa te vê jogando, perdendo praticamente todo o patrimônio que você construiu e não entende porque você continua naquela vida”, recorda-se.
Crises de ansiedade se tornaram recorrentes por causa das bets
Da mesma maneira o impacto financeiro dos jogos apareceu rapidamente para C.J.P.B, de 53 anos, após a facilidade de acesso às plataformas de bets no Brasil, em 2018. “As apostas online pareciam formas de entretenimento e os ganhos me atraiam a jogar cada vez mais. Até que passaram a comprometer o meu salário”, explica.
C.J.P.B. afirma que viu sua dignidade ruir quando, após menos de seis meses apostando, recorreu a agiotas para conseguir dinheiro emprestado. À medida que comprometia o próprio orçamento e acumulava dívidas com pessoas de má índole, passou a desenvolver crises de ansiedade. Hoje, faz tratamento psiquiátrico e psicológico contínuo no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
“Os bônus oferecidos pelas plataformas me estimulavam a jogar ainda mais. Eu ficava alucinado para recuperar o que havia perdido e quando ganhava, claro, queria continuar jogando também. Hoje sigo cheio de dívidas por causa das apostas”, lamenta C.J.P.B
Reencontrando a vida além das telas
Todos os participantes desta reportagem encontraram acolhimento na Jogadores Anônimos e viram nas salas disponibilizadas em todo o Brasil um ambiente seguro para se recuperarem. K.R.S, que buscou ajuda no fim do ano passado, está agora há 6 meses sem jogar. “Enquanto todos estavam indo viajar eu entrei em uma sala da Jogadores Anônimos. A irmandade salvou minha vida”, afirma.
L.M conta que está reestruturando suas finanças e se emociona ao lembrar da recepção que teve ao chegar na Jogadores Anônimos: “Me disseram que eu era a pessoa mais importante ali. Logo eu, que tinha destruído tudo. Eles seguraram minha mão e disseram: ‘juntos somos mais fortes’”.
Embora ainda lidando com as dívidas e também as questões de saúde que ficaram por conta da compulsão, C.J.P.B celebra um ano completo de abstinência, apoiado pela esposa e pelas reuniões diárias.
A instituição Jogadores Anônimos está presente em todo o mundo e, no Brasil, tem salas disponíveis para acolhimento em diversas regiões. O objetivo do grupo, que não tem qualquer vínculo político ou religioso, é de levar esperança ao jogador compulsivo. Como requisito para ingresso está o real desejo de parar de jogar e de viver uma vida além das telas. Mais informações sobre a irmandade podem ser obtidas em https://jogadoresanonimos.com.br/
O impacto econômico das bets no Brasil
Desde que a Copa do Mundo começou, em 11 de junho, a fintech Klavi tem acompanhado diariamente o crescimento das bets. Até o fechamento desta reportagem, foi constatado um aumento de 38% no número de pessoas que enviaram dinheiro para casas de apostas online, o que já somou o valor de R$ 852,7 milhões, no período. A leitura é feita com base em dados do Open Finance, sistema de integração de dados do Banco Central, e utilizando uma amostra representativa de 1,2 milhões de pessoas.
Outro dado, agora da Confederação Nacional do Comércio (CNC), divulgado em abril deste ano, mostra que a inadimplência motivada pelas bets, entre 2023 e 2026, retirou R$143 bilhões do comércio varejista. Esse valor equivale ao volume de vendas nos Natais de 2024 e 2025. Nesse período de três anos, o gasto mensal dos brasileiros com as plataformas disparou, ultrapassando os R$ 30 bilhões.



