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Esta reportagem foi publicada originalmente com o título “Professor da USP aparece em diário de Fauci pedindo ajuda contra ‘terrível’ Bolsonaro”. O título foi alterado para deixar mais claro que a afirmação consta de uma anotação feita por Anthony Fauci e é contestada por Jorge Kalil. O professor afirma que não chamou Bolsonaro de “terrível” nem fez comentários sobre sua personalidade, caráter ou comportamento. A matéria também foi atualizada para incorporar sua manifestação.
Corrigido em 07/08/2026 às 22:17
Uma anotação feita pelo médico americano Anthony Fauci durante a pandemia da Covid-19, de 30 de março de 2021, diz que o imunologista professor da USP Jorge Kalil teria pedido socorro contra as ações do então presidente da República Jair Bolsonaro. "Ele me pediu, por favor, que os ajudasse e permanecesse ao lado deles, já que Bolsonaro é terrível", escreveu Fauci.
O registro integra o diário mantido pelo ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, divulgado recentemente pelo senador republicano Rand Paul.
Quatro dias depois de ser procurado pela Gazeta do Povo, Kalil respondeu na sexta-feira (7) e afirmou que estava no exterior, razão pela qual não respondeu antes. Ele negou ter dito que Bolsonaro era “terrível” ou feito qualquer comentário sobre a personalidade, o caráter ou o comportamento do então presidente. Segundo o professor, a frase registrada no diário seria uma “anotação ou interpretação pessoal” de Fauci e não pode ser atribuída a ele. Os dois mantinham contato porque Kalil auxiliava o então ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, em tratativas internacionais para a obtenção de vacinas contra a Covid-19.
Fauci escreveu naquele dia que havia participado de uma reunião por videoconferência com o recém-empossado ministro da Saúde Marcelo Queiroga. Segundo ele, os brasileiros precisavam da ajuda dos Estados Unidos diante do “terrível problema” enfrentado pelo país e queriam principalmente vacinas americanas.
Fauci também afirmou que ofereceu cooperação em pesquisas e estratégias, mas explicou que o governo dos Estados Unidos só pretendia doar doses excedentes depois de vacinar sua própria população. No mesmo trecho, Fauci descreveu Bolsonaro como “muito parecido com Trump” e disse que sua abordagem estava prejudicando o Brasil.
Em seguida, o imunologista americano relatou que, depois da reunião com Queiroga, recebeu uma mensagem de Kalil. De acordo com sua anotação, o brasileiro teria pedido que ele os ajudasse, porque Bolsonaro era “terrível”, e defendesse a comunidade científica brasileira. O documento, porém, contém apenas o resumo escrito por Fauci, com vários erros de digitação. A mensagem original de Kalil não foi divulgada, e não há prova de pedido de interferência política ou científica no Brasil, de alguma medida concreta ou de que Fauci tenha atendido ao apelo.
A comunicação ocorreu no auge da crise sanitária brasileira. O país havia ultrapassado a marca de 300 mil mortes por Covid-19 seis dias antes, em meio ao colapso dos sistemas de saúde de vários estados.
Professor titular de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Laboratório de Imunologia do InCor, Kalil já dirigiu o Instituto Butantan. Durante a pandemia, integrou um conselho do governo dos Estados Unidos encarregado de acompanhar a segurança dos testes de vacinas contra a Covid-19, posição que ajuda a explicar seu acesso direto a Fauci.
Naquele período, Kalil também coordenava um projeto brasileiro de vacina nasal contra o coronavírus, ainda na fase de estudos pré-clínicos e dependente de recursos para avançar aos testes em seres humanos. O diário não diz se o pedido estava relacionado especificamente ao projeto nem esclarece se Kalil participou da reunião com Queiroga ou apenas soube dela posteriormente.
A Gazeta do Povo entrou em contato com Kalil por volta das 16h da segunda-feira (3) para pedir mais informações sobre a conversa. Kalil respondeu na sexta-feira.
Queiroga havia tomado posse no Ministério da Saúde poucos dias antes da conversa com Fauci, em substituição ao general Eduardo Pazuello, tornando-se o quarto titular da pasta desde o início da pandemia. Ao assumir, estabeleceu como uma de suas prioridades acelerar a vacinação e chegou a anunciar a meta de aplicar 1 milhão de doses por dia. Não há nenhum indício no diário de que Queiroga conhecesse ou endossasse a mensagem enviada por Kalil.
Confira a anotação completa de Fauci em seu diário, de acordo com o documento divulgado por Rand Paul:
Tive uma reunião por Zoom com o ministro da Saúde do Brasil, dr. Marcelo Queiroga. Eles precisam da ajuda dos Estados Unidos porque estão enfrentando um problema terrível, e o presidente Bolsonaro se parece muito com Trump e está prejudicando o país com sua abordagem. Ofereci ajuda por meio da colaboração em pesquisas e da discussão de estratégias. Eles realmente querem vacinas de nós, mas a política dos Estados Unidos é esperar até que todo o nosso país esteja vacinado antes de doarmos as doses excedentes. Infelizmente, isso foi tudo o que pude oferecer a eles. Eles receberão muitas vacinas da Pfizer, da AstraZeneca e da Johnson & Johnson no fim de maio e no início de junho.
Depois da reunião por Zoom, recebi uma mensagem de um dos cientistas deles, o dr. Jorge Kalil. Ele me pediu, por favor, que os ajudasse e permanecesse ao lado deles, já que Bolsonaro é terrível, e disse que a comunidade científica brasileira e o povo brasileiro têm grande consideração por mim e que precisam que eu os defenda.
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Confira o esclarecimento de Kalil na íntegra:
Em março de 2021, a situação da COVID no Brasil era dramática: 3 mil mortes por dia. Havia vacinas no mundo, mas o Brasil não as tinha.
Eu já conhecia o Dr. Queiroga quando ele assumiu o Ministério da Saúde (até então, era Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, e eu havia feito vários webinars para explicar aos cardiologistas brasileiros questões relativas à COVID).O Ministro pediu que eu o ajudasse nas questões internacionais, pelos contatos que eu tinha. Falamos com o Diretor-Geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, e com o Diretor do Instituto Nacional de Saúde americano, responsável pelo combate à COVID, Dr. Fauci.
Com a OMS, pedimos as vacinas prometidas no Programa COVAX e que não haviam sido entregues. Com o Dr. Fauci, solicitamos ajuda com a obtenção de vacinas, pois os EUA haviam comprado doses em excesso.
Informamos ao Dr. Fauci que, apesar de o Presidente Bolsonaro, publicamente, manifestar-se contra as vacinas, ele havia pedido ao Ministro que conseguisse uma forma de vacinar os brasileiros. O Dr. Fauci explicou que, por determinação do Governo americano, as vacinas não poderiam sair dos EUA enquanto todos os norte-americanos não fossem vacinados.
Terminada a reunião, o Ministro Queiroga pediu que, tendo em vista as tratativas que eu vinha mantendo com o Dr. Fauci em favor dos interesses do país, diante do elevado número de mortes, eu tentasse novamente estabelecer contato em comunicação privada.
Escrevi a ele, insistindo na necessidade das vacinas, apesar de o Presidente Bolsonaro ser contra a vacinação em manifestações públicas.
É importante esclarecer, de forma absolutamente inequívoca, que eu jamais fiz qualquer consideração sobre a personalidade, o caráter ou o comportamento do então Presidente Jair Bolsonaro ao Dr. Fauci ou a qualquer outra pessoa.
Eventual registro, anotação ou interpretação pessoal constante de documentos ou registros do Dr. Fauci não constitui declaração feita por mim e não pode ser atribuída à minha autoria.
Em toda a minha trajetória acadêmica, como professor, médico e cientista, sempre atuei pautado pelo interesse público e pela busca de soluções para o país, independentemente de governos, posições políticas ou orientações ideológicas. Minha trajetória profissional e acadêmica é pública e permite verificar essa postura ao longo de décadas.



