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Após ajudar colegas na prisão

Psicólogo preso no 8/1 escreve livro em embalagens de suco relatando o que viveu

No livro “Cruzando a tempestade do 8 de janeiro”, o psicólogo João Giffoni reúne documentos, relatos do cárcere, cartas e reflexões sobre sofrimento e fé.
No livro “Cruzando a tempestade do 8 de janeiro”, o psicólogo João Giffoni reúne documentos, relatos do cárcere, cartas e reflexões sobre sofrimento e fé. (Foto: Arquivo pessoal/ João Giffoni)

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Preso nos atos do 8 de janeiro, o psicólogo João Giffoni, de Brasília, atendeu voluntariamente cerca de 300 pessoas na prisão e, enquanto ajudava os colegas, decidiu escrever um livro relatando sua experiência e apresentando dicas de como enfrentar situações de sofrimento.

Sem acesso a folhas sulfite ou cadernos, o livro foi escrito em restos de papel que encontrava no chão e em embalagens de suco que Giffoni conseguiu reunir nos sete meses em que permaneceu no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. A obra foi intitulada “Cruzando a Tempestade do 8 de janeiro” e teve o primeiro estoque esgotado na Amazon nas últimas semanas.

“Realmente me surpreendeu!”, comenta o autor, em entrevista à Gazeta do Povo. Segundo ele, o livro apresenta diversos documentos, cartas, relatos do cárcere e reflexões sobre sofrimento e fé que podem beneficiar qualquer leitor, independentemente de posições políticas. No entanto, como o brasiliense não era conhecido nacionalmente, não sabia como seria a aceitação do trabalho.

O livro foi escrito, principalmente, em embalagens de suco que Giffoni conseguiu na prisão.O livro foi escrito, principalmente, em embalagens de suco que o psicólogo João Giffoni conseguiu na prisão. (Foto: Arquivo pessoal/ João Giffoni)

“As pessoas estão lendo, me seguindo nas redes sociais e apoiando”, comemora, ao informar que o estoque na plataforma virtual já foi renovado, e que os livros estão disponíveis novamente para venda. O valor unitário é R$ 59.

Natural de Brasília, João Giffoni tem 28 anos, é especialista em neuropsicologia, e usou o conhecimento adquirido em seu trabalho para enfrentar os desafios na prisão. De acordo com ele, os fatos que viveu o lembraram da experiência do psiquiatra judeu Viktor Frankl, que foi vítima do regime nazista na Segunda Guerra Mundial e escreveu o livro “Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração”.

“Busquei seguir os passos de Frankl para também encontrar sentido naquela situação, sobreviver e não enlouquecer”, disse o brasileiro, ao explicar que, ao mesmo tempo em que vivenciava a realidade da prisão, começou a escrever “cartas”, como se estivesse contando tudo para um amigo. O resultado foi um relato detalhado sobre a manifestação do 8/1 e as dificuldades diárias no cárcere.

Depois que saiu da prisão — em 9 de agosto de 2023 —, Giffoni organizou todos os registros, transcreveu o conteúdo e preparou a obra com quatro temáticas principais. Na primeira, o psicólogo relata acontecimentos do dia 8 de janeiro de 2023 por meio de fotografias, documentos processuais, imagens de câmeras e capturas de vídeos daquela data.

Segundo Giffoni, ele agiu de forma pacífica durante toda a manifestação e foi conduzido por policiais sob a alegação de que seria retirado da área de confronto, por segurança. “Mas fomos levados a uma delegacia instalada no subsolo do Congresso Nacional, e presos”, afirma.

Giffoni passou sete meses na Papuda, foi liberado com tornozeleira eletrônica e condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à pena de 14 anos. Ele vive atualmente na Argentina.

Busquei seguir os passos de Frankl para também encontrar sentido naquela situação, sobreviver e não enlouquecer.

João Giffoni, psicólogo preso nos atos de 8 de janeiro de 2023

Livro descreve a atuação como psicólogo voluntário na prisão

Já a segunda parte da obra está concentrada no tempo de cárcere e em sua atuação como psicólogo e educador emocional voluntário naquele ambiente. De acordo com ele, mais de 300 pessoas receberam seu auxílio, entre participantes das manifestações — chamados de “patriotas” — e detentos condenados por outros crimes.

O livro cita ainda como era a cela, projetada com oito camas de concreto, mas ocupada por cerca de 20 pessoas, e informa que as luzes permaneciam acesas durante a noite com um grande refletor instalado em uma torre. “A gente brincava que a noite era mais clara que o dia”, conta o psicólogo, que passou a aplicar dinâmicas de educação emocional para melhorar a relação entre os presos e ajudá-los a lidar com aquelas dificuldades.

João Giffoni também lidava com as próprias tempestades

O autor também revela, na terceira parte do livro, suas reflexões e a maneira que usou para enfrentar aquela situação. De acordo com ele, mesmo que o leitor seja contrário às manifestações de 8/1, poderá encontrar ensinamentos que o ajudarão a lidar emocionalmente com quadros de doenças graves, desemprego, injustiças ou problemas familiares, por exemplo.

Já no encerramento do livro, Giffoni — que é cristão —, traz um olhar espiritual sobre sua experiência. Para isso, relata episódios de reconciliação, perdão, cura e transformação pessoal, como a de um preso comum que escreveu em carta como o contato com as pessoas do 8 de janeiro mudou sua visão de mundo.

Trecho da carta escrita por um "preso comum" do Complexo Penitenciário da Papuda.Trecho da carta escrita por um "preso comum" do Complexo Penitenciário da Papuda. (Foto: Arquivo pessoal/ João Giffoni)

“Por muito tempo da minha vida, deixei de acreditar nas pessoas e na humanidade”, escreveu o preso, ao afirmar que via o ser humano como “ruim, corrosivo” e que poderia, a qualquer momento, lhe fazer mal. “Porém, toda essa linha de percepção que estava presente em mim desmoronou logo que passei a conhecê-los”, continuou no relato, ao afirmar que ele estava ali colhendo as consequências de suas escolhas, mas aqueles homens, não. “São pessoas maravilhosas, gentis, difíceis de se encontrar”.

Giffoni não relata o motivo que levou esse homem à prisão, mas afirma que, assim como ele, outros também destacavam a educação, fé e união dos presos do 8/1. “Eles gostavam muito da forma como os classificados ‘patriotas’ os tratavam”, comenta o autor, que agora pretende retomar seu espaço profissional e ajudar pessoas por meio de seu relato de sofrimento, propósito e recomeços.

“Minha experiência pode ajudar outras pessoas a cruzarem as tempestades da própria vida”, finaliza.

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