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A seleção espanhola feminina anunciou que vai custear tratamentos de reprodução assistida, como congelamento de óvulos e fertilização in vitro (FIV), para atletas convocadas à seleção. Embora apresentada como um benefício, a medida favorece um ambiente profissional de pressão contra a maternidade, ainda que se forma indireta.
A decisão, porém, passou a ser debatida no campo da bioética. Para os especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a iniciativa pode transformar a opção reprodutiva em uma pressão profissional, reforçando a ideia de que a gravidez deve ser planejada em função da carreira. A medida já tem sido adotada por outros setores e pode aumentar a cobrança por parte das empresas nos casos em que a idade, aparência ou desempenho físico influenciam a trajetória da profissional. Além disso, o congelamento de óvulos e a FIV possuem limitações biológicas e baixa eficácia em mulheres mais velhas, segundo dados do CDC, agência pública de saúde dos EUA.
Para Deivid Lorenzo, mestre em Direito e doutor em Família na Sociedade Contemporânea, a medida corre o risco de deslocar o problema. "Em vez de perguntar de que maneira o mundo do trabalho consegue acolher a maternidade, a gente passa a pedir que a mulher adapte a sua vida, o seu corpo e o seu projeto familiar às condições e às exigências do trabalho", afirmou.
Segundo ele, o problema surge quando uma tecnologia criada para ampliar escolhas passa a gerar expectativas profissionais. “Quando a tecnologia vai crescendo para se transformar numa possibilidade de oferecer à condição feminina uma nova obrigação, com a mensagem subliminar de que, se você quer alcançar o máximo da sua carreira profissional, prorrogue, postergue a maternidade”, disse.
A Real Federação Espanhola de Futebol, contudo, sustenta que a medida amplia as opções reprodutivas das atletas. A diretora do futebol feminino da entidade, Reyes Bellver, afirmou, em uma matéria publicada pelo El País, que o objetivo é garantir que, durante a idade fértil, as jogadoras "estejam protegidas, tenham informações e possam atender às suas necessidades".
O tratamento será oferecido a jogadoras da seleção principal e do futsal, além de árbitras e funcionárias da federação. A parceria também inclui acesso a informações sobre reprodução assistida e tratamentos como congelamento de óvulos e fertilização in vitro.
“O grande problema é justamente que eles apresentam como se fosse um serviço, um benefício. E, no fundo, é uma pressão enorme sobre algo que é muito íntimo e muito individual da mulher, que é exatamente a decisão da maternidade e do momento em que ela deseja essa maternidade”, valia Lenise Garcia, doutora em microbiologia e professora de bioética.
Garcia avalia que a oferta do benefício pode influenciar decisões que deveriam permanecer exclusivamente na esfera pessoal. Para ela, uma atleta que deseje interromper temporariamente a carreira para engravidar poderá se deparar com o argumento de que já existe uma alternativa tecnológica para postergar a maternidade.
"A juventude é uma idade muito produtiva em qualquer campo. Então, na verdade, a gente já tem empresas que oferecem esse tipo de serviço para as funcionárias", acrescentou.
Empresas oferecem congelamento de óvulos como benefício corporativo
Uma matéria da Forbes apontou que, nos Estados Unidos, 15% das empresas com mais de 500 funcionários já oferecem cobertura para congelamento de óvulos em seus planos de saúde. No Brasil, companhias como Grupo Fleury, Mercado Livre, Microsoft e LinkedIn também possuem iniciativas semelhantes
Nesses casos, o congelamento de óvulos é apresentado como mais um benefício corporativo, como assistência odontológica, plano de saúde e programas de bem-estar. Diferentemente desses benefícios, porém, a prática envolve decisões relacionadas à fertilidade, à maternidade e ao planejamento familiar, temas que suscitam questionamentos éticos.
Um estudo publicado em 2023 no Journal of Applied Psychology analisou como trabalhadores percebem esse tipo de incentivo. Os pesquisadores concluíram que, em comparação com benefícios como licença parental e creches corporativas, a cobertura do congelamento de óvulos é frequentemente interpretada como um sinal de que a organização valoriza a priorização da carreira em detrimento da vida pessoal.
A bioeticista belga Heidi Mertes, por sua vez, avaliou programas de congelamento de óvulos patrocinados por empresas como Facebook e Apple, que passaram a oferecer o benefício em 2014. Em artigo publicado no Journal of Assisted Reproduction and Genetics, a pesquisadora concluiu que, para que esse tipo de política realmente amplie a autonomia das mulheres, é preciso que as funcionárias compreendam os benefícios, riscos e limitações do procedimento, não sofram qualquer pressão para aderir à oferta e tenham acesso simultâneo a políticas favoráveis à maternidade e à vida familiar.
Mertes ressalta, porém, que cumprir essas condições pode ser impossível na prática, transformando uma iniciativa apresentada como ampliação de escolhas em um potencial instrumento de influência sobre decisões reprodutivas.
Congelamento de óvulos não garante gravidez futura
Além das preocupações éticas, especialistas alertam para os limites biológicos da reprodução assistida. Embora o congelamento de óvulos preserve a fertilidade, ele não assegura que a mulher conseguirá engravidar anos depois.
Lenise Garcia afirma que a eficácia do procedimento muitas vezes é apresentada de forma excessivamente otimista. "Há também uma falsa ideia de que, no momento em que a mulher quiser, ela vai conseguir engravidar por ter óvulos congelados. Mas não é bem assim que funciona", destaca.
Dados compilados pela Fertlo a partir do relatório nacional de reprodução assistida elaborado pelo CDC (Centers for Disease Control and Prevention) dos Estados Unidos indicam que as taxas de nascimento por ciclo caem de 22,6% entre mulheres de 38 a 40 anos para 11% entre 41 e 42 anos, chegando a 4,5% após os 42 anos quando são utilizados óvulos próprios.
Os dados reforçam a falsa sensação do congelamento de óvulos como uma espécie de seguro reprodutivo. A técnica amplia as possibilidades de gravidez no futuro, mas não oferece garantias e tampouco elimina os riscos associados ao avanço da idade.



