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Muitos temiam (ou ainda temem) a “venezuelização” do Brasil. Pois eu já acho mais provável a sinicização, em que vamos nos transformando na China. Recentemente, no dia da famosa sessão do STF, aquela do dia 15, um cidadão se aproximou do prédio e ouviu uma voz robótica, vinda de uma câmera, alertando-o: “atenção, você está entrando em uma área restrita”. Cena de filme distópico.
Vários estados (Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, Pernambuco, Santa Catarina e São Paulo) e municípios (Campinas, Pelotas, Novo Hamburgo, Sapiranga, Esteio, Manhumirim, Salvador, Feira de Santana, Limeira e Lajeado) já instalaram câmeras chinesas de vigilância, com reconhecimento facial. Em Belo Horizonte, o projeto tem até nome: “Muralha BH”. Tudo das empresas chinesas Dahua, Hikvision e Huawei – esta última até doou mil câmeras à prefeitura de Manaus. Quanto altruísmo!
Ao contrário, países como Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Austrália, Taiwan, Índia e Lituânia estão proibindo câmeras chinesas desse tipo por questões de segurança nacional, devido às suspeitas de que elas possam enviar informações ao regime totalitário chinês.
A estrutura para o controle social ao estilo chinês está pronta, e está sendo ativada aos poucos
Não se trata de casos anedóticos. A China já é o principal parceiro comercial do Brasil e comprou ou tem participações em várias empresas brasileiras. No setor de energia, compraram sete empresas de transmissão (Ribeirão Preto Transmissora, Poços de Caldas Transmissora, Serra Paracatu, Itumbiara e Serra da Mesa, entre outras), a CPFL, a Cesp (hidrelétricas) e 11 parques eólicos. Na área petrolífera e no pré-sal, eles têm participação em 12 blocos do pré-sal, por CNPC, CNOOC e Sinopec (todas estatais chinesas), sócias da Petrobras. Na área de infraestrutura, compraram o terminal de contêineres do Porto de Paranaguá e detêm uma participação minoritária no Aeroporto do Galeão. No setor de agronegócio e mineração, compraram a Fiagril, o Projeto Salinas (ex-Votorantim) e 53,4% da Belagrícola. No setor de mídia, o Grupo Bandeirantes, a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) têm acordos com entidades de comunicação chinesas. Eles só buscam setores estratégicos.
Obviamente, tudo isso acontece graças a uma densa rede política. O Grupo Parlamentar Brasil-China (na Câmara dos Deputados) e a Frente Parlamentar Brasil-China (no Congresso Nacional) organizam eventos conjuntos com a Xinhua, o Cebrach e os Institutos de Cultura Confúcio, presente em pelo menos 12 estados brasileiros, incluindo unidades em universidades federais. Há também um Mecanismo de Intercâmbio Parlamentar Brasil-China. Vários deputados viajaram oficialmente à China em 2013 e em 2025. No mesmo ano, parlamentares, prefeitos e lideranças do União Brasil visitaram empresas chinesas em Hangzhou, buscando parcerias para segurança pública no Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Norte.
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Ano passado, escrevi uma coluna sobre “a normalização da China” e mostrei que o Brasil aderiu à política de “uma só China” (um ponto central para o Partido Comunista Chinês), reconhecendo assim o direito da China sobre Taiwan. Pela primeira vez houve exercícios militares de tropas chinesas em solo brasileiro. O Brasil subsidiou carros elétricos chineses e a BYD empresta, sem custo, veículos para a Presidência da República e para o STJ. Além disso, em 2021, Lula disse que “os países deveriam aprender” com o modelo chinês, e Gilmar Mendes disse que “nós todos somos admiradores do regime chinês, do Xi Jinping”.
A balança econômica se deslocou dos EUA para a China. A configuração política segue na mesma direção. O soft power chinês também está aumentando. Por enquanto, o público aplaude essas câmeras porque são usadas contra o crime. A plataforma gov.br já nos divide em perfis “ouro”, “prata” e “bronze”, similarmente ao sistema de “credito social” chinês. O Brasil já usa muito os cartões de crédito, falta só o Drex. A estrutura para o controle social ao estilo chinês está pronta, e está sendo ativada aos poucos.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Adriano Gianturco é professor, doutor em Ciência Política, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC e autor dos livros “Mentiram para nós sobre o Brasil”, “A Ciência da Política” e “O empreendedorismo de Israel Kirzner”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



