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Adriano Gianturco

Adriano Gianturco

Destrinchando os resultados

O que dizem os números da eleição

Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro (PL) se manifesta depois de resultados do primeiro turno. (Foto: Antonio Lacerda/EFE)

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O Brasil acordou nesta segunda-feira com um resultado que as pesquisas não previam. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente de Lula (PT), com cerca de 47,03% dos votos válidos contra 45,16%, diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. O presidente admitiu que contava com a vitória já no primeiro turno, e chamou o desfecho de “inesperado”.

Os números absolutos explicam. Flávio recebeu cerca de 5 milhões de votos a mais que Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022, enquanto Lula perdeu cerca de 3 milhões a 4 milhões de votos. Na leitura por classe econômica, Flávio venceu em todos os estratos, exceto na classe E, onde Lula foi o único vencedor, e o presidente chegou a encostar no adversário na classe A. Lula governa para os miseráveis e para os milionários.

Romeu Zema acabou com menos de 1%. Pesou contra ele o voto útil, já no primeiro turno. E assim ele perdeu uma vaga fácil no Senado. Para onde irão os votos dele, de Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, que juntos somam cerca de 8%? Pesquisas mostram que vão principalmente para Flávio, mais ou menos nessa proporção: 48% dos votos de Zema, 43% dos de Renan (contra 22% para Lula) e 41% dos de Cury (contra 35% para Lula). Renan não apoiará ninguém, pois está pensando no longo prazo.

No segundo turno se aplica o “teorema do eleitor mediano”: vence a disputa majoritária quem conquista o votante mediano, do meio do espectro

No Senado, o PL teve desempenho expressivo: 19 nomes do partido aparecem entre os eleitos, como Michelle Bolsonaro e Bia Kicis (DF), Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni (SC) e Carlos Portinho e Carlos Jordy (RJ). Talvez agora a direita terá a força para um impeachment de juiz do STF.

A direita unida vence. As dobradinhas mostraram isso no Distrito, no Rio Grande do Sul (Ubiratan Sanderson e Marcel van Hattem), no Maranhão, no Rio de Janeiro (com Carlos Portinho e Carlos Jordy), no Mato Grosso do Sul, em Rondônia, em Santa Catarina (Carol de Toni e Carlos Bolsonaro), no Paraná (Filipe Barros e Deltan Dallagnol), em Goiás e no Mato Grosso.

O país, como sempre, está dividido. Flávio venceu em todos os estados do Centro-Oeste, do Sul e do Sudeste; perdeu todos os do Nordeste; e levou quatro estados do Norte, contra três para Lula. O destaque, aqui, é o Tocantins, estado que em 2022 votou majoritariamente no PT para presidente, mas agora deu mais votos a Flávio. A fronteira do agronegócio está se expandindo, gerando riqueza, menos dependência do assistencialismo e mudança de valores. O chamado “Matopi”(Mato Grosso, Tocantins e Piauí) aos poucos vai mudar o voto, e talvez isso se consolide já em 2030.

A abstenção foi grande: 21,4%, a maior desde 1998. No segundo turno, a tendência histórica é de alta; a queda em 2022 (de 20,95% para 20,59%) foi uma exceção. Como a ausência se concentra entre os menos escolarizados, grupo em que Lula tem melhor desempenho, ela é vista como seu principal obstáculo.

Tirando Datafolha e Quaest, que subestimaram Flavio (para a surpresa de zero pessoas), as pesquisas ficaram na margem de erro. O Instituto Veritas acertou.

O PT teve um desempenho mediano. Lula foi mal, mas o partido segurou as vagas no Senado e aumentou a bancada na Câmara. Deve perder um governador, e viu o fracasso de vários quadros históricos do partido, como José Dirceu, Gleisi Hoffmann, Rui Falcão, Jorge Viana, Fernando Haddad e Paulo Pimenta. Com Lula se aposentando, e sem sucessores, o PT está em sérias dificuldades.

A campanha recomeça hoje. Historicamente, nunca houve uma virada. No segundo turno se aplica o “teorema do eleitor mediano”: vence a disputa majoritária quem conquista o votante mediano, do meio do espectro. Nesse sentido, Flávio se mostrou mais conciliador e mais moderado que o pai; Lula, ao contrário, apostou na radicalização, se mostrou mais agressivo e com menos paciência.

Agora, só falta ouvir a voz do povo. Paulo Gonet já recuou sobre a questão da suposta interferência americana nas eleições, diminuindo as chances de “tapetão”.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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