
Achei muito estranho – melhor dizendo, assustador – que Lula tenha dito, na sabatina da Globo, que “a mim não preocupa a dívida pública”. Agora, o jornal O Globo está mostrando que a situação é muito ruim. Metade da dívida paga juros atrelados à Selic, e o país paga mais de R$ 1 trilhão por ano em juros. É dinheiro posto fora. A dívida pública está em R$ 10,8 trilhões e, disso, R$ 5,7 trilhões são Letras Financeiras do Tesouro, com a taxa de juros lá em cima. Esses títulos, durante a pandemia, no governo Bolsonaro, representavam 34% do estoque total da dívida; agora, são 51,1%. É uma bomba-relógio para o próximo mandato presidencial.
A incrível história (falsa) de Roberta Luchsinger
Estou muito impressionado com a biografia de Roberta Luchsinger. A começar que esse Luchsinger dela não tem nada de suíço. Ela diz que o avô seria do Credit Suisse, mas é falso. Uma tia dela, sim, era casada com banqueiro; os dois morreram em acidentes aéreos – ela em 2009, ele em 2017 –, e Roberta tentou pegar a herança. A atitude dela é típica do que os franceses chamam de nouveau riche, “novo rico”. É aquela pessoa que precisa mostrar para os outros que ganhou dinheiro, e então compra bolsa de marca, sapato de marca, cinto de marca, roupa de marca, mala de marca, relógio de marca... aquela coisa ridícula que o rico de berço não faz, porque prefere a vida discreta. O dinheiro do rico atrai mais dinheiro; o dinheiro do “novo rico” é gasto mostrando para os outros que é rico.
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Agora, o Estadão mostra que a empresa de Florianópolis que ela representava como lobista tem contratos de R$ 81 milhões com órgãos do governo. Lembro de uma mensagem dela para Lulinha, dizendo que em 2024 eles ganhariam R$ 100 milhões. Não deu e não vai dar. Depois de Lula a chamar de “pilantra” e dizer que ela cometeu uma imbecilidade, acho que vão ficar com o pé atrás em relação a ela.
O abuso de autoridade contra os familiares de condenados do 8 de janeiro
Uma reportagem da Gazeta do Povo mostra a servidora pública Vanessa Rolim de Moura, de Ji-Paraná (RO), criando seis filhos sem o marido, porque ele fugiu para o exterior após ser condenado a 14 anos por causa do 8 de janeiro. Ele já tinha sido preso antes da condenação, estava com tornozeleira eletrônica e saiu do país; ninguém sabe onde ele está. Ele é caminhoneiro, e bloquearam todos os bens da família, inclusive os caminhões. Eu vi na foto quatro veículos. Ele começou com um, e chegou a quatro.
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Fui ler a lei antiga de abuso de autoridade. Sabem de quando é? De 9 de dezembro de 1965, ou seja, em pleno regime de 64; é a Lei 4.898/65. E é dura essa lei de abuso de autoridade: quem fizer prisão arbitrária, quem não der legítimo direito de ampla defesa, quem inventar um motivo para prender a pessoa vai em cana. Mas a lei que está em vigor agora é outra, a Lei 13.869/2019. A lei atual trata praticamente da mesma coisa: se a autoridade restringir o amplo direito de defesa de todas as formas (e há mil formas de fazer isso), se a autoridade prender fora da previsão legal, é responsabilizada. Isso tem sido abundante no Brasil, a começar por aquela perfídia de pôr as pessoas no ônibus, supostamente para irem à rodoviária, e depois prendê-las sem lhes explicar o motivo, sem descrever os seus direitos. E tudo o que foi feito depois, os julgamentos coletivos... É o que estamos vivendo aqui. Por isso gosto de ler a Constituição. Coitada, mas é a única coisa que ainda nos salva da lei das selvas.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



