Ponde deu à sua coluna o título Alien vs. Predador, mas poderia ter sido Satanás Laico vs. Qualquer Coisa.
Ponde deu à sua coluna o título Alien vs. Predador, mas poderia ter sido Satanás Laico vs. Qualquer Coisa.| Foto: Divulgação

Começaram com essa história de que o presidente é genocida porque seria responsável por 100% das mortes causadas pela pandemia. Isto é um desvario, pois a ideia de genocídio implica ação e intenção. Os hutus queriam exterminar os tutsis. Pegaram paus, pedras e facas para isso, mataram aos montes e cometeram genocídio. Os nazistas queriam exterminar os judeus: botaram em trens, despacharam para o Oriente e construíram câmaras de gás. Mataram aos montes e são genocidas. Os comunistas soviéticos queriam acabar com os camponeses ucranianos: destruíram suas plantações, pilharam os estoques e deixaram inanes. Mataram de fome.

Sabemos reconhecer genocídio quando vemos um e é sinal de loucura generalizada as pessoas chamarem um presidente trapalhão de genocida por causa de declaração e demora nas vacinas. Que essa gente responda: como foi que os judeus morreram na Alemanha? Hitler disse que eles tinham que morrer e então eles decidiram correr para as câmaras de gás? E quanto ao atraso na vacinação, alguém vai chamar o vagaroso Macron de genocida? O ágil Trump é o novo Oskar Schindler da História?

A atual histeria coletiva é constituída por um monte de ateu supersticioso. Gente que se acha muito esperta por não temer castigos divinos, mas que é supersticiosa quanto a agentes terrenos. Deus e diabo saíram do mapa, entraram formas humanas no lugar. Os histéricos olham para um sujeito como Bolsonaro – um tipo banal, que poderia ser encontrado em qualquer boteco do Brasil – e enxergam ali a encarnação de Satanás. De repente, ele tem o poder de causar 300 mil mortes. (300 mil mortes em março de 2021 deveria ser pouca coisa, já que o sacerdote prometeu 1 milhão até agosto de 2020).

E ele causa não por negligência e ignorância, senão por pura maldade. Fica a pergunta para o histérico: se Bolsonaro é a maldade em estado puro e mata as pessoas ao chamar a Covid de gripezinha sabendo que não é, por que ele próprio andou tanto sem máscara? É um genocida suicida? Ou será que ele talvez, quem sabe, acreditasse mesmo no que dizia? Acordem: o mundo não é um lugar regido por entidades humanas oniscientes.

De resto, notemos que essa visão de genocídio não vale para o Partido Comunista Chinês, aquele que não só tem genocídios bem palpáveis no seu passado e presente, como ainda estava ocupado em prender por fake news o médico Li Wenliang quando ele tentou informar sobre o novo vírus em Wuhan. Quantas vidas poderiam ter sido salvas se o mundo soubesse cedo do vírus?

Essa histeria tem lado político. É pró Partido Comunista Chinês e contra qualquer coisa que não lhe baixe a cabeça.

Se Bolsonaro é Satanás...

Dos poucos parágrafos acima, infere-se a mais recente coluna de Pondé aqui nesta Gazeta. Intitulou-se “Alien vs. Predador”, mas poderia ter se intitulado “Satanás Laico vs. Qualquer Coisa”. Se Bolsonaro é o Satanás e Lula se insere na categoria “Qualquer Coisa”, como Pondé poderia deixar de declarar voto em Lula num eventual segundo turno com Bolsonaro? Como poderia deixar de defender o impeachment?

A tentativa dele de defender sua escolha atirando nomes de conservadores é balela. Ainda tasca um: “Muitos subirão pelas paredes [com a opção conservadora (sic) por Lula]. Se isso acontecer com você é porque você é simplesmente ignorante acerca do assunto”. Diploma de doutorado em filosofia eu também tenho, e me especializei num autor nada desimportante para o conservadorismo. Portanto, uma eventual carteirada comigo não cola.

As descrições gerais dele de como seja o conservadorismo estão corretas. Até aí, ele poderia ser um pedante desagradável e chamar de ignorante quem discordasse dele. Ao traçar conclusões particulares para o caso brasileiro, não. Caberia baixar a bola e se confessar um brasileiro comum, que lê o noticiário como qualquer outro, sem saber de bastidores de Brasília nem nada do gênero. E que, pelo visto, tem memória curtíssima ou, numa hipótese menos generosa, pouca capacidade de raciocinar em cima de fatos passados.

Afinal, eis como Pondé justifica Lula: “Por que Lula? Os governos Lula foram melhores até agora do que o de Bolsonaro está sendo. Provavelmente, ele teria gerido melhor a peste. […] Lula faz acordos melhor do que Bolsonaro. Tem uma tendência apaziguadora e é muito mais inteligente. Provavelmente aprendeu um tanto nesses anos e pode querer imitar Mandela: nada de vinganças”.

Obviamente, nem Russell Kirk, nem Thomas Sowell, nem Michael Oakeshott, têm a ver com isso. Aliás, se alguém tiver o contato de Sowell, poderia informá-lo que a autoridade do nome dele está sendo usado no Brasil para defender voto dos conservadores em Lula.

Como é bom não saber da Soberana 2

Você sabe o que é a Soberana 2? Eu não sabia até ontem, quando resolvi dar uma pesquisada para fazer este texto.

De acordo com toda a experiência passada, sabemos que o PT tratou o Brasil como capacho de Cuba e da Odebrecht. Se há um ditador com pedigree comunista querendo fazer uma obra, cá está o BNDES para dar (não emprestar, dar, pois não vai pagar) o dinheiro para o déspota. Assim, o dinheiro ia das mãos do Brasil para os tiranos de Cuba, Venezuela, Moçambique, Angola e outros, que pagam à Odebrecht por obras superfaturadas, e a empresa termina de triangular a grana, enviando-a para os petistas e seus aliados. Fica dinheiro na obra, nos bolsos de políticos petistas mais aliados, bem como nos bolsos de tiranos estrangeiros. É um dinheiro que poderia ser usado para lidar com a pandemia, seja com recursos para a saúde, seja com o auxílio emergencial. Mas ninguém vai chamar o PT de genocida, vai?

Pois bem, como a finalidade do Brasil era ser explorado por tiranos cheios de consciência social – tudo isso enquanto xingamos o imperialismo ianque e os portugueses  – e como a esquerda tinha o mito da excelente medicina cubana para alimentar, é muito factível que a esta altura estivéssemos tecendo loas à gloriosa Soberana 2, a vacina cubana que já está sendo enviada para a Venezuela e o Irã.

Alguém duvida de que estaríamos agora às voltas não só com a Sputnik e a Sinovac, mas também com a Soberana 2? Que, além de médicos-escravos, nosso erário compraria ainda vacinas de eficácia mais duvidosa que a russa e a chinesa?

Enquanto isso, memes e mais memes mostrariam que a casa grande surta quando a senzala faz vacina, burocratas falariam na “democratização do acesso” à medicina, mulheres negras seriam apresentadas como inventoras da vacina e dúvidas de sua eficácia seriam tachadas de racismo e ódio.

João Santana bolaria uma campanha Pátria Vacinadora, com vídeos mostrando brasileiros radiantes indo se vacinar – haja vacina ou não e, havendo, seja eficaz ou não. Com ajuda do BNDES, seria lançado o Meu Streaming, Minha Vida, em que um generoso “empréstimo” seria dado a serviços de streaming e a varejistas online de eletrodomésticos (tipo a Magalu) para deixar o povo em casa vendo filmes de Kléber Mendonça e Wagner Moura – que também seriam recompensados, porque a pandemia também afeta a classe artística. Com todo mundo preso em casa e a produtividade caindo, os preços tenderiam a disparar – e lá estaria algum economista da Unicamp para controlar preços e mantê-los artificialmente baixos até a próxima eleição.

Existem mil jeitos de pensar como a pandemia seria gerida por petistas. Não faço ideia de onde Pondé e tantos outros tiraram que os petistas – aqueles, que indicaram Dilma – saberiam gerir melhor a crise do que Bolsonaro. Não sei nem se a vacina imperialista da Astra Zeneca entraria na Fiocruz.

Uma coisa é certa: os petistas são ótimos em gerir imagem e em fazer propaganda. Deve ser só mais um sintoma daquela mentalidade detectada por Bret Weinstein: interessa mais a vida online, toda feita por aparências editáveis, do que a vida real. Tem gente que quer viver de enganação.

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