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O negativismo sistemático é uma forma sutil de falsear a realidade. A vida, como uma grande pintura, é feita de luzes e sombras. O jornalismo responsável não pode esconder os problemas, silenciar diante da corrupção nem abandonar sua função fiscalizadora. Mas também não deve apresentar a realidade como um imenso corredor sem portas e sem janelas.
A velha máxima segundo a qual notícia ruim é notícia boa contaminou parte da imprensa. O resultado está diante de nós: manchetes carregadas, análises sombrias e uma sucessão de conteúdos que parecem destinados a castigar diariamente o fígado do leitor. A denúncia, indispensável à democracia, transformou-se, em alguns ambientes, numa espécie de denuncismo profissional.
O problema não está na crítica. Está na obsessão seletiva pelo fracasso. Está na incapacidade de perceber tudo o que nasce, cresce e prospera longe dos gabinetes oficiais e dos corredores do poder. O Brasil real não é apenas o país das crises políticas, das decisões judiciais controversas e dos escândalos administrativos. É também a nação de milhões de pessoas que acordam cedo, enfrentam dificuldades, criam empregos, inovam e sustentam suas famílias. É preciso olhar para elas.
O empreendedorismo brasileiro não é uma construção teórica. É uma realidade concreta, frequentemente nascida da necessidade. Muitos dos nossos empresários começaram com pouco dinheiro, escasso apoio e enormes obstáculos. Não herdaram estruturas prontas. Construíram seu caminho degrau por degrau, acumulando experiência, enfrentando erros e transformando dificuldades em oportunidades.
O Brasil real é a nação de milhões de pessoas que acordam cedo, enfrentam dificuldades, criam empregos, inovam e sustentam suas famílias
Empreender exige coragem. Mas coragem não é ausência de medo. É a decisão de seguir adiante apesar dele. O verdadeiro empreendedor não ignora os riscos: procura conhecê-los, administrá-los e vencê-los. Cai, aprende e recomeça. Sabe que nenhum crescimento consistente acontece sem trabalho, disciplina, formação e perseverança.
Um bom exemplo desse Brasil inovador é a Akiyama, empresa nacional fundada em 2005 e especializada em identificação biométrica. Com tecnologia desenvolvida no país, tornou-se referência em um setor estratégico, oferecendo suporte técnico e manutenção em mais de 5 mil municípios, incluindo todas as capitais brasileiras.
A dimensão de sua atuação impressiona. Mais de 140 milhões de brasileiros foram cadastrados por meio de equipamentos e programas fornecidos pela empresa. Em um país continental, garantir identificação segura, confiabilidade dos dados e atendimento técnico em milhares de localidades é uma tarefa de enorme complexidade.
A trajetória da Akiyama revela uma verdade importante: empresas que olham para o futuro não podem viver prisioneiras do retrovisor. Precisam preservar os valores que as fizeram crescer, mas devem estar abertas à renovação. Tradição e inovação não são adversárias. Quando bem combinadas, tornam-se poderosas ferramentas de desenvolvimento.
Outro exemplo inspirador vem de Rondônia. Tony Cozendey nasceu numa família humilde em Alta Floresta do Oeste. Aos 15 anos, mudou-se para Buritis e começou a trabalhar como office boy em uma ótica. Fazia cobranças de bicicleta, percorrendo os bairros da cidade. Depois, aprendeu a ajustar e montar óculos. Aos poucos, passou a atender os clientes e tornou-se vendedor.
Cada tarefa foi uma escola. Tony não desprezou os trabalhos simples nem ficou esperando a oportunidade ideal. Transformou o serviço cotidiano em aprendizado. Observou o funcionamento do negócio, conheceu as necessidades dos consumidores e descobriu um mercado que poderia ser mais bem atendido.
Anos depois, passou a comandar sua própria rede, presente em 14 estados, com mais de 34 unidades e faturamento anual em torno de R$ 20 milhões. O Instituto Visão Solidária, conhecido como IVS, cresceu oferecendo óculos a preços acessíveis, especialmente em cidades das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
A história de Tony mostra que o crescimento profissional raramente ocorre por meio de saltos espetaculares. Ele é construído com pequenas conquistas: aprender uma tarefa, atender bem um cliente, conquistar confiança, assumir novos desafios e não se acomodar. Antes de dirigir uma empresa, é necessário aprender a dirigir a própria vida.
Precisamos formar jovens que não tenham medo do trabalho, da responsabilidade e do risco
O Brasil precisa valorizar essa cultura do esforço. Precisamos formar jovens que não tenham medo do trabalho, da responsabilidade e do risco. Jovens que compreendam que direitos e deveres caminham juntos e que a realização profissional não nasce apenas do desejo, mas da competência, da constância e do caráter.
A imprensa tem importante papel nessa tarefa. Deve denunciar os abusos, mas também revelar os bons exemplos. Deve fiscalizar o poder, sem ignorar a vida que pulsa fora dele. Deve mostrar o empresário que investe, o trabalhador que se aperfeiçoa, o professor que transforma uma escola, o jovem que abre um negócio e a comunidade que encontra soluções para seus problemas.
As sombras existem e precisam ser mostradas. Mas elas não conseguem apagar as luzes que brilham todos os dias na vida de milhões de brasileiros. Há um Brasil que trabalha, empreende, aprende e cresce. Um país que não aparece sempre nas manchetes, mas que merece ser conhecido.
Como sugeriu Guimarães Rosa, quando parece que nada acontece, pode haver um milagre que não estamos percebendo. Cabe ao bom jornalista abrir os olhos, sair às ruas e contar também os milagres cotidianos do trabalho, da perseverança e da esperança.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Carlos Alberto Di Franco é bacharel em Direito, especialista em Jornalismo Brasileiro e Comparado, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, diretor do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia do ISE, professor convidado na Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma), diretor da Di Franco Consultoria em Estratégia de Mídia e consultor de Empresas Informativas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



