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Danilo de Almeida Martins

Danilo de Almeida Martins

Sacrifício

A Ifigênia da Odisseia de Christopher Nolan e as Ifigênias de hoje

Imagem criada por inteligência artificial a partir da pintura "O Sacrifício de Ifigênia" (1632), de François Perrier. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Entre os vários momentos marcantes do controverso filme de Nolan, quando Odisseu viaja ao Hades, ele é orientado pelo rei Agamenon a ter cuidado ao retornar para sua casa, pois o monarca havia sido traído por sua esposa, Clitemnestra, ao voltar de Troia.

Embora, à primeira vista, a emboscada da própria esposa soe como algo perverso, a traição foi motivada por um acontecimento que deixou profundas marcas em Clitemnestra.

Segundo o mito, a deusa da caça, Ártemis, irou-se contra Agamenon quando ele matou um cervo em um bosque sagrado e gabou-se de sua habilidade.

A deusa, então, fez cessar os ventos, e o rei Agamenon não conseguia partir para a Guerra de Troia. Então, um adivinhador disse ao rei que, para os ventos voltarem, Ártemis exigia o sacrifício de Ifigênia, filha mais velha de Agamenon e Clitemnestra.

Mentindo que Ifigênia iria se casar com Aquiles, Agamenon enganou mãe e filha para, ao fim, entregá-la em sacrifício. Isso destruiu o coração de Clitemnestra, que ficou durante 10 anos remoendo e planejando a morte do marido quando ele voltasse.

Vitorioso, Agamenon voltou à sua casa. Foi recebido carinhosamente pela esposa, que, durante o banho, lançou uma rede de tecido sobre ele e o golpeou com um machado.

Embora, na tragédia de Eurípides, Ifigênia não tenha morrido (pois havia sido poupada pela deusa), Nolan preferiu seguir as tragédias gregas mais antigas, de Sófocles e, principalmente, de Ésquilo, nas quais Ifigênia é uma vítima indefesa e amedrontada que foi realmente morta ao ser entregue em sacrifício à deusa Ártemis.

Em razão disso, Ifigênia é um símbolo de sacrifício feminino. Inocente e pura, Agamenon anuiu à ideia de que ela deveria morrer.

Hoje temos aproximadamente 37 milhões de Ifigênias mortas a cada ano

Sob este aspecto, em que meninas puras e inocentes são mortas por decisões alheias, segundo dados da Worldmeter, hoje temos aproximadamente 37 milhões de Ifigênias mortas a cada ano. Com efeito, se são 73 milhões de abortos anuais, metade deles é de meninas.

Entretanto, o que diferencia essas Ifigênias daquela da Odisseia é que, nesta, há um sacrifício; naquelas outras, não.

A origem etimológica da palavra sacrifício vem de sacrum facere, expressão latina que significa "fazer sagrado". Ifigênia foi morta para aplacar a ira de uma deusa, com a finalidade de possibilitar a realização de algo para a glória da Hélade (Grécia). A seu turno, as Ifigênias de hoje são mortas para satisfazer um egoístico desejo individual de pessoas que simplesmente não querem se comprometer.

Embora, logicamente, não seja algo que justifique dar fim à vida de ninguém, a diferença da intenção do algoz é absurda. Em um caso, vê-se o intento de salvar e ajudar a coletividade; noutro, prevalece o mero egocentrismo abortista.

O que muda entre as Ifigênias, então, é a culpa de seus carrascos. Um se deixa levar por uma equivocada interpretação de que um ser transcendente desejaria a morte de uma de suas puras e inocentes súditas para conceder um benefício àquele povo; no outro, um individualismo sem precedentes provoca a morte de milhares de inocentes, baseado unicamente no simples desejo de permanecer na irresponsabilidade.

Se o evento morte é comum a ambas as situações, a intenção do assassino é que é mensurada de forma diferente: em um, decorre de um engano; no outro, é puro dolo.

Por fim, além da culpabilidade diversa, outro fator diferencia a morte das Ifigênias de ontem e de hoje. Enquanto Agamenon ficou profundamente triste e agonizou com sua decisão, os carrascos de hoje comemoram e fazem passeatas pelo "direito" de matar.

Só não divulgam que aquele sentimento que consumiu Clitemnestra durante dez anos também irá dominar o coração daquelas que se deixaram levar pela mentira de que abortar um filho seria um ato virtuoso.

A sorte é que, diferentemente da implacável e severa Ártemis, nosso Deus é misericordioso e perdoa aqueles e aquelas que se deixaram enganar.

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