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Entrelinhas

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Entrevista

“É a mesma turma”: refugiado venezuelano aponta paralelos entre Brasil e a ditadura chavista

(Foto: Reprodução/ Youtube)

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Para quem viu seu país ser destruído por uma ditadura, determinadas notícias não chegam apenas como acontecimentos políticos: elas despertam lembranças, medos e a sensação de assistir a uma história que já se conhece — e cujo desfecho se gostaria de evitar.

Foi assim que Gabriel Orozco, pastor e missionário venezuelano refugiado no Brasil, reagiu ao resultado das eleições brasileiras. Logo após a divulgação do resultado, ele gravou um vídeo emocionado, visivelmente triste, no qual expressou sua apreensão diante da possibilidade de os brasileiros enfrentarem um caminho semelhante ao que levou a Venezuela à ruína. “Não é possível que vamos viver tudo isso de novo”, lamentou.

A preocupação de Orozco não vem apenas de sua leitura política. Ele fala como alguém que acompanhou de perto a ascensão do chavismo, a deterioração das instituições, a perseguição aos opositores e a crise humanitária que levou milhões de venezuelanos a deixar o país. Nesta entrevista à coluna Entrelinhas e ao programa Sem Rodeios, ele traça paralelos entre a experiência venezuelana e o cenário brasileiro, explica como Hugo Chávez chegou ao poder pelas urnas e depois desmontou os mecanismos de controle democrático, e fala sobre o futuro da Venezuela, a influência internacional e a importância da preservação dos valores cristãos e ocidentais.

Entrelinhas: Logo após o resultado das eleições brasileiras, o senhor publicou um vídeo bastante emocionado, demonstrando tristeza e preocupação com a possibilidade de o Brasil viver algo semelhante ao que aconteceu na Venezuela. O que provocou aquela reação? Quais são as principais semelhanças que o senhor identifica entre os dois países?

Gabriel Orozco: Para todos aqueles que amamos a democracia e a liberdade, estão sendo dias muito sombrios e complicados. O que aconteceu aqui no Brasil, o que está acontecendo nos Estados Unidos e em outros lugares nos preocupa, porque a cultura ocidental e a cultura cristã estão sendo fortemente atacadas.

Eu falo para minha esposa e meus filhos que parece que estamos vivendo a história pela segunda vez. Os paralelismos são muito parecidos. Não podemos esquecer como Chávez falava de Lula na Venezuela, na década de 2000, e como despertou no povo venezuelano aquela admiração. Temos que entender que é a mesma turma. Eles são amigos e têm o mesmo planejamento para o continente.

Estamos enfrentando uma luta em toda a América Latina. Vemos o que acontece na Argentina, na Colômbia e em outros países. Para quem ama a liberdade, ver que o Brasil não conseguiu se libertar desse sistema é muito triste. Eu tinha muita esperança de que os brasileiros conseguissem abrir os olhos e colocar uma barreira contra o sistema socialista que destruiu meu país.

Eu esperava que o brasileiro dissesse: esse sistema que acabou com os venezuelanos não vai acabar também com o Brasil. Mas, infelizmente, muitos votaram em favor desse projeto. Agora é o momento de trabalhar para que a história não se repita.

Entrelinhas: Uma das maiores preocupações dos brasileiros hoje é o avanço da perseguição política e a concentração de poder. Na Venezuela, os opositores do chavismo sofreram prisões, censura e processos arbitrários. O senhor vê semelhanças entre o discurso de criminalização da direita no Brasil e aquele que antecedeu o aprofundamento da ditadura venezuelana? Aonde esse processo pode levar?

Gabriel Orozco: Primeiro, precisamos entender o contexto da Venezuela. Em 1992, Hugo Chávez tentou instalar uma ditadura militar por meio de um golpe de Estado. Ele utilizou o Exército, tanques e aviões, mas não conseguiu e acabou preso.

Quando saiu da prisão, percebeu que já não conseguiria instalar uma ditadura pelo caminho tradicional. Então começou a construir uma ditadura constitucional. E isso é muito mais perigoso, porque todo mundo sabe que uma ditadura militar é ruim. Mas uma ditadura constitucional conta com parte da população e com apoio popular.

Em 1998, Chávez chegou ao poder com muito apoio, especialmente dos mais pobres. Ele passou a ser visto como o pai dos pobres. Chegou ao governo utilizando os mecanismos constitucionais e democráticos, mas, uma vez no poder, começou a desmontar as instituições para não sair de lá pela via democrática.

A primeira coisa que fez foi tomar o controle do Judiciário. Em 2002, ampliou o número de integrantes do Tribunal Supremo de Justiça e colocou magistrados ligados ao seu partido. Assim começou a controlar o Poder Judiciário.

Em 2015, os venezuelanos conseguiram conquistar a maioria na Assembleia Nacional. Depois de mais de 15 anos, finalmente tínhamos um Poder Legislativo capaz de fazer um contrapeso ao governo. Mas Maduro começou a utilizar o Supremo Tribunal de Justiça para ocupar as funções do Congresso e declarou a Assembleia Nacional em desacato.

Tudo o que o Congresso fazia, todas as leis que aprovava, era declarado em desacato pelo Judiciário. E os juízes que tomavam essas decisões eram ligados ao partido do governo. Como pode haver imparcialidade quando os integrantes da mais alta corte pertencem ao partido que está governando?

Maduro começou a utilizar o Judiciário para anular o poder de um Congresso eleito pelo povo. Quando perdeu apoio popular, passou a usar as instituições que já controlava para impedir qualquer tipo de contrapeso.

Uma democracia precisa de mecanismos de controle para que o presidente não se transforme em ditador. Quando o presidente já não tem quem o controle, quando não existe independência entre os poderes, a democracia desaparece. Foi isso que aconteceu na Venezuela.

Chávez e Maduro chegaram ao poder pela via democrática, mas depois utilizaram o apoio popular para destruir os mecanismos de controle e concentrar todo o poder. Também utilizaram o Judiciário para perseguir os opositores. Maria Corina Machado, Juan Guaidó e Edmundo González são alguns exemplos. Tivemos milhares de presos políticos.

Esse foi o caminho venezuelano. Convido os brasileiros a fazerem suas próprias conclusões, mas foi assim que a ditadura nasceu em nosso país.

Entrelinhas: O senhor falou sobre a utilização do Judiciário para neutralizar o Legislativo. Na Venezuela, isso também aconteceu depois que a oposição conquistou a maioria parlamentar. Qual foi o resultado concreto desse processo para a democracia e para a população?

Gabriel Orozco: O resultado foi a destruição das instituições. Quando o governo já não conseguia controlar o Congresso pelo voto, passou a utilizar o Supremo Tribunal para anular suas decisões. Depois, também passou a controlar o organismo eleitoral.

Na eleição disputada por Edmundo González e Maduro, a oposição venceu e tinha as provas, as famosas atas eleitorais que percorreram o mundo. Apresentamos essas provas e mostramos que Maduro havia cometido fraude. Os Estados Unidos e a maioria dos países nos apoiaram. Mas o Tribunal Supremo de Justiça passou por cima do poder eleitoral e declarou Maduro presidente.

É assim que se destrói uma democracia: utilizando as próprias instituições para acabar com a independência dos poderes, retirar os mecanismos de controle e perseguir quem faz oposição.

Entrelinhas: O senhor também acompanha o que acontece atualmente na Venezuela. Depois da saída de Nicolás Maduro do poder e da ascensão de Delcy Rodríguez, houve uma mudança efetiva no governo? Como a população está vivendo? Existe perspectiva de eleições livres e de uma candidatura de Maria Corina Machado?

Gabriel Orozco: Precisamos entender que a Venezuela não era apenas uma ditadura política. Era também uma estrutura criminal.

Quando os venezuelanos saíam às ruas para protestar contra Maduro, grupos criminosos armados desciam de determinadas comunidades e atiravam contra o povo. Eram territórios onde a polícia não entrava e onde quem mandava eram facções criminosas.

Esses grupos saíam para defender a ditadura. Milhões de venezuelanos foram às ruas e milhares perderam a vida. Havia uma estrutura organizada de repressão, com conselhos comunais que funcionavam também como lugares de espionagem. Tínhamos a inteligência cubana atuando na Venezuela. Era uma estrutura criminal para reprimir a população.

Na parte de cima, tínhamos a ditadura. Na parte de baixo, grupos criminosos impediam as pessoas de se manifestar. É uma narcoditadura. Na Venezuela temos tráfico de pessoas, de gasolina, de diamantes e de muitas outras coisas.

Quando Maduro saiu, a estrutura criminal continuou. Por isso, a qualidade de vida dos venezuelanos ainda não melhorou e a perseguição não terminou.

O que os Estados Unidos começaram a fazer foi infiltrar essa estrutura por dentro, colocando pessoas de inteligência dentro dos organismos venezuelanos. A estratégia, segundo o que estamos acompanhando, é controlar essas estruturas sem provocar uma situação de anarquia.

Trump entende que não pode repetir na Venezuela o que aconteceu no Oriente Médio, onde a retirada de um governo acabou provocando um cenário de caos. Uma intervenção militar americana teria um custo político muito alto.

Agora estão acontecendo negociações e existe a perspectiva de mudanças nas estruturas de poder. A Venezuela também se tornou um centro de atuação de grupos armados, como o Exército de Libertação Nacional e as FARC, vindos da Colômbia.

O país foi utilizado durante 27 anos como centro de corrupção, narcotráfico e atividades criminosas. Muitos governos de esquerda têm medo de que essa estrutura seja desmontada, porque, quando isso acontecer, muita coisa que foi feita nesses anos poderá vir à tona.

Para que existam eleições livres, primeiro precisamos mudar o Tribunal Supremo de Justiça e o organismo eleitoral. Depois disso, poderemos avançar para as eleições presidenciais de 2027. Com o favor de Deus, teremos eleições livres e Maria Corina Machado poderá vencer, porque 80% dos venezuelanos rejeitam o socialismo.

Entrelinhas: O senhor mencionou a existência de uma estrutura de assistencialismo que ajudou a sustentar o chavismo durante anos. Como Chávez conseguiu conquistar o apoio da população mais pobre? E em que momento esse apoio começou a se desfazer?

Gabriel Orozco: Chávez criou uma geração que dependia do Estado. Muitos venezuelanos recebiam bolsas de alimentação e benefícios por cada filho. Se uma mulher tinha cinco, seis ou sete filhos, recebia uma bolsa mensal por criança. Assim, o Estado também estava criando novos eleitores.

A população foi aprendendo que, se votasse nos candidatos da esquerda, poderia receber uma geladeira, uma televisão ou até uma casa. Mas, muitas vezes, o documento de propriedade da casa nem sequer era entregue.

Com o passar dos anos, o dinheiro começou a acabar. Primeiro, já não entregavam uma casa ou uma geladeira. Entregavam uma sacola de comida com arroz, feijão e macarrão. Depois, quando o dinheiro acabou ainda mais, já não havia arroz nem macarrão. Só feijão.

Chegamos a um ponto em que o governo entregava caixas de alimentos que deveriam conter atum, mas o que havia dentro era papelão com cheiro de peixe.

Quando a população começou a passar fome, começou também a abrir os olhos.

O governo atacou a iniciativa privada e destruiu as empresas venezuelanas. Dizia aos pobres que os ricos eram seus inimigos, que eram oligarcas e que a culpa da pobreza era deles. Os empresários foram embora, o dinheiro saiu do país e os pobres ficaram sem emprego.

Sem empresas, não havia mais arrecadação para sustentar aquele sistema de benefícios. Quando o dinheiro acabou, a ditadura perdeu o apoio popular. E o que Maduro fez? Começou a perseguir, retirou a liberdade de expressão e passou a reprimir a população.

Eles têm duas fases. Primeiro, são os pais dos pobres, porque têm dinheiro para distribuir. Mas, quando o dinheiro acaba, passam de pais dos pobres a pais dos oprimidos. Começam a perseguir o povo para não sair do poder.

Na Venezuela, cerca de 90% da população passou a viver na pobreza. Setenta por cento dos venezuelanos não comiam carne. Esse é o resultado de um sistema que promete proteger os pobres, mas termina destruindo a vida deles.

Entrelinhas: O senhor também costuma falar sobre a importância dos valores cristãos e ocidentais. Em sua avaliação, existe uma relação entre o avanço do socialismo na América Latina e o enfraquecimento desses valores? Qual é o papel da Igreja nesse cenário?

Gabriel Orozco: Precisamos entender que o Ocidente é resultado do cristianismo. Nossa cultura é cristã, seja pela influência católica, seja pela protestante.

Hoje vemos, na Europa, a esquerda fazendo alianças com grupos que têm valores muito diferentes dos nossos. Na Espanha e na França, por exemplo, existe uma preocupação crescente com a preservação da identidade cultural.

Não tenho nada contra os muçulmanos, mas precisamos compreender que cada cultura tem seus valores e suas tradições. Por que nossos países ocidentais estão permitindo que sua própria cultura seja destruída?

Na América Latina também vemos a esquerda trabalhando contra nossos valores. Nas escolas e nas universidades, estão ensinando contra a Bíblia, contra o matrimônio tradicional e contra aquilo que construiu nossa sociedade.

Muitos jovens passaram a sentir vergonha de falar de Jesus e da família tradicional. Existe uma rejeição à nossa própria cultura. E, quando os jovens já não sabem quem são e de onde vieram, começam a perder suas referências.

Por isso, é tão importante o trabalho dentro de casa. Precisamos ensinar nossos filhos quem somos. Precisamos dizer a eles: você faz parte de uma cultura ocidental, de uma cultura cristã. Você precisa conhecer e amar seus valores.

O comunismo tem um inimigo, que é a Igreja e os valores ocidentais. Eles não conseguiram nos destruir pelas armas, então agora tentam fazer isso por meio do conhecimento e da ideologia.

Precisamos acordar e recuperar nossa identidade. O Brasil é resultado do Ocidente. Nós amamos a família, o trabalho, a liberdade e a liberdade de expressão. Precisamos preservar isso.

Entrelinhas: Durante a campanha brasileira, a esquerda também insistiu muito na narrativa de que uma aproximação com os Estados Unidos representaria uma ameaça de imperialismo americano. Ao mesmo tempo, o Brasil mantém relações econômicas cada vez mais próximas com a China. Como o senhor avalia essa comparação, a partir da experiência venezuelana?

Gabriel Orozco: Temos dois exemplos na Venezuela. Durante 30 ou 40 anos, os Estados Unidos tiveram participação na indústria petroleira venezuelana. Eu tinha tios que trabalhavam nessas empresas e viviam muito bem. Um deles trabalhava em uma empresa na qual os Estados Unidos investiam, a Chevron. Recebia em dólar, tinha condições de viajar, levava presentes nas férias e podia proporcionar uma boa vida à família.

Depois Chávez tirou os Estados Unidos e a China passou a ocupar esse espaço na indústria petroleira. Os chineses levaram seus próprios trabalhadores. Os venezuelanos praticamente não tinham acesso aos benefícios daqueles investimentos.

A China também passou a controlar setores como diamantes e eletricidade. Mas quem recebia os benefícios eram os grupos ligados ao governo. Os chineses estavam saqueando a Venezuela.

Chegamos ao absurdo de ter o país com as maiores reservas de petróleo do mundo e o venezuelano precisar racionar gasolina, tendo acesso a apenas 20 ou 30 litros por mês.

Então, se você pergunta a um venezuelano o que prefere, ele já conhece os dois modelos de capitalismo: o americano e o chinês. O capitalismo americano pagava em dólar, permitia que as pessoas tivessem comida na geladeira e viajassem com os filhos. Já com os chineses, os venezuelanos não tinham acesso aos benefícios da riqueza produzida no próprio país.

Precisamos entender que o melhor caminho para nossos países é proporcionar trabalho, investimentos e respeito à propriedade privada. Esse sistema socialista de distribuir a riqueza igualmente não funciona. Na Venezuela, a riqueza foi distribuída entre os chefes do regime. A família de Chávez ficou milionária, a família de Maduro ficou milionária e os chavistas ficaram milionários. Mas o povo não recebeu essa riqueza.

Por isso, falo com propriedade aos brasileiros: esse sistema não funciona. O caminho para garantir o progresso é o trabalho, o investimento privado e o respeito à propriedade privada.

Tomara que empresas americanas venham investir no Brasil. Isso significa mais dinheiro circulando, mais oportunidades e mais empregos para os brasileiros. Não podemos ficar cegos por uma ideologia. A China não vem aqui para enriquecer você. Ela vem para tirar sua riqueza e ficar ainda mais rica.

Entrelinhas: Depois de tudo o que viveu, que mensagem o senhor deixaria aos brasileiros que ainda não conseguem enxergar os riscos de um processo semelhante ao que aconteceu na Venezuela?

Gabriel Orozco: Eu diria que precisamos acordar. Precisamos amar a liberdade, defender nossa cultura e entender o que aconteceu com a Venezuela para que não aconteça com o Brasil.

O povo venezuelano demorou a perceber o que estava acontecendo. Muitos acreditaram nas promessas, acreditaram que o governo estava trabalhando pelos pobres e que tudo aquilo seria sustentável. Quando acordamos, já tínhamos perdido nossas instituições, nossas liberdades e nossas condições de viver dignamente.

Não podemos permitir que a história se repita. É preciso defender a democracia, a liberdade, a família e os valores que construíram nossa sociedade.

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