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As novas mensagens de Anthony Fauci, divulgadas nesta segunda-feira (10) pelos senadores republicanos Ron Johnson e Rand Paul, devem servir, na avaliação do deputado federal Osmar Terra (PL-RS), como ponto de partida para uma revisão das decisões tomadas durante a pandemia de Covid-19. Médico com mais de 50 anos de profissão, ex-secretário de Saúde do Rio Grande do Sul, ex-ministro e um dos principais críticos da condução da pandemia no Brasil, Terra afirma que os documentos divulgados agora recolocam em discussão dúvidas que, durante a crise sanitária, teriam sido afastadas do debate público. As mensagens de janeiro de 2021 mostram Fauci discutindo internamente possíveis incertezas relacionadas à vacinação de gestantes, inclusive uma hipótese teórica envolvendo aborto espontâneo após uma resposta imunológica intensa à segunda dose. Os documentos também registram que não havia sido identificado naquele momento um sinal de segurança entre mais de 10 mil gestantes vacinadas.
Para Terra, a questão não se resume ao conteúdo específico das mensagens, mas à forma como as autoridades sanitárias lidaram com as incertezas durante a pandemia. Ele lembra que sua experiência não se limita à atividade parlamentar: foi secretário estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, presidiu duas vezes o Conselho Nacional de Secretários de Saúde e participou da coordenação do enfrentamento à pandemia de H1N1, em 2009. “Eu já tenho uma idade mais avançada, né? Eu nunca tinha visto acontecer uma situação dessa no mundo”, afirma Terra. Na avaliação do deputado, Fauci assumiu uma posição de autoridade que ultrapassou os limites da própria função e passou a influenciar a maneira como governos e populações inteiras enxergavam a crise. “Eu vi, assim, muito surpreso, muito escandalizado, inclusive, o que esse senhor aí, chamado António Fauci, fez com o mundo”, opina.
Terra considera que a comunicação das autoridades contribuiu para produzir um ambiente de medo que, segundo ele, foi muito além do necessário para alertar a população sobre os riscos da doença. “Ele impôs um pânico no mundo que eu nunca tinha visto na minha vida”, afirma. O deputado diz ter observado consequências psicológicas desse ambiente e critica o que considera uma transformação da divergência científica em uma questão moral. “Assustar as pessoas, ao ponto das pessoas começarem a ter problemas mentais, de tão apavoradas que estavam”, comenta. No Brasil, acrescenta, posições que contrariavam o discurso predominante eram rapidamente classificadas como negacionismo. “Tudo que não combinava com o que ele falava era negacionismo, era o genocídio”, critica.
Vacinação de gestantes
É nesse contexto que o deputado interpreta as novas mensagens envolvendo a vacinação de gestantes. O conteúdo divulgado pelos senadores americanos mostra Fauci discutindo uma possibilidade teórica relacionada ao aborto espontâneo no primeiro trimestre, mas também registra que, naquele momento, não havia sido identificado um sinal de segurança entre milhares de gestantes vacinadas. Para Terra, justamente por haver incertezas, elas deveriam ter sido objeto de uma discussão pública mais ampla. “Eu acho que agora pelo menos vamos poder discutir de verdade. Nunca se discutiu cientificamente a pandemia”, avalia.
A crítica de Terra se estende ao desenvolvimento e à utilização das vacinas contra a Covid. O deputado questiona a velocidade com que as vacinas foram desenvolvidas e afirma que houve uma passagem rápida demais entre os testes e a vacinação em massa. “Eles simplesmente testaram na população direto”, aponta. Osmar Terra também usa como argumento o surgimento das doses sucessivas ao longo da pandemia. “Começou com duas doses, depois vieram três doses, quatro doses, cinco doses, seis doses. Eu nunca tinha visto isso”, observa.
Discussão sobre imunidade natural
Outro ponto central da avaliação de Terra é a chamada imunidade natural, adquirida depois da infecção pelo vírus. Segundo ele, esse componente foi deliberadamente relegado a segundo plano durante a pandemia, enquanto a vacinação passou a ser apresentada como a principal resposta para o controle da doença. “Eles nunca falaram imunidade natural, era uma palavra proibida”, destaca. Terra sustenta que as epidemias seguem um ciclo próprio e que a imunidade adquirida pela população precisa fazer parte da análise. “Porque só acaba uma pandemia com imunidade. Quando as pessoas todas fazem imunidade, ficam imunes. E é assim que acaba”, pontua. Ele afirma que já defendia essa interpretação durante a CPI da Covid, em 2021, e que se sentia tratado como alguém que estava cometendo uma espécie de "heresia científica". “Na época, eu pensava que não é possível que essas pessoas não entendam como é que funciona a imunidade humana”, comenta.
A lembrança da CPI conduz Terra a uma comparação histórica que, segundo ele, traduz o que considera ter acontecido com os médicos que questionaram as decisões predominantes durante a pandemia. “Antigamente, se queimava na fogueira quem falava a verdade, os Galileus da vida, os Copérnicos, todos que falavam que a Terra girava em torno do Sol, foram ameaçados, foram levados na beira da fogueira”, lembra. Para o deputado, a ciência não deveria funcionar pela imposição de uma única interpretação, mas pelo confronto de hipóteses e pela análise dos dados.
Revisão sobre o lockdown
O lockdown é outro dos principais alvos da crítica de Terra. Ele considera que o confinamento de pessoas saudáveis não tinha precedente nas pandemias anteriores e afirma que os resultados da medida precisam ser revistos. “O lockdown não funcionou”, diz. O deputado questiona também a própria lógica do “fique em casa”, uma vez que boa parte da economia considerada essencial continuou funcionando durante o período de maiores restrições. “O fique em casa era uma farsa”, reforça. Para Terra, os efeitos econômicos e sociais das restrições também precisam entrar na avaliação da resposta à pandemia, e não apenas os indicadores de mortalidade por Covid.
Entre as consequências que considera mais graves, está o fechamento prolongado das escolas. Terra afirma que a interrupção das aulas presenciais por dois anos provocou um dano educacional que não poderia ser justificado cientificamente. “As escolas fechadas, dois anos, isso é um dano pra educação que não tem explicação, não tem como justificar isso no ponto de vista científico”, argumenta. O deputado chama atenção especialmente para os estudantes mais pobres, que tiveram menos condições de acompanhar o ensino remoto. “As crianças pobres ficaram dois anos a Deus dará”, critica. Na avaliação dele, uma revisão séria da pandemia precisa considerar também os danos provocados pelas próprias medidas adotadas para combater o vírus.
Ao falar sobre o Brasil, Terra afirma que a revisão não deve ficar restrita às ações de Fauci e das autoridades americanas. Para ele, o país também precisa examinar as decisões tomadas durante a crise, desde as restrições de circulação até o fechamento das escolas e as políticas de vacinação. “O que precisa é a verdade ser dita”, afirma. O deputado diz que a responsabilização não deve ter como único objetivo a punição individual, mas precisa produzir um diagnóstico dos erros cometidos para evitar que sejam repetidos em uma próxima emergência sanitária. “Eu acho que nós estamos devendo, a saúde pública brasileira está devendo uma explicação para o Brasil e para a população brasileira dos erros que foram cometidos na pandemia, até pra evitar erros futuros”, opina.
Debate entre profissionais
Terra defende, inclusive, que o próximo passo seja um debate público entre especialistas que estiveram em lados diferentes da discussão. Ele sugere reunir pessoas que defenderam as medidas adotadas durante a pandemia e aquelas que fizeram críticas a elas, para que apresentem seus argumentos diante da população. Para ele, o objetivo seria justamente romper com a lógica de silenciamento que, em sua avaliação, marcou o período. “Vamos deixar a população ter acesso à informação, e não massacrar, lacrar, pisar em cima de quem pensava diferente”, defende.
A avaliação de Terra é que a pandemia ainda não foi devidamente examinada no Brasil e que o país perdeu a oportunidade de fazer uma revisão imediata dos acertos e erros cometidos. Ele considera que os novos documentos envolvendo Fauci podem ajudar a reabrir uma discussão que, segundo sua interpretação, foi interrompida antes que todas as questões fossem respondidas. Depois de mais de cinco anos do início da pandemia, o deputado considera que ainda há material suficiente para uma revisão profunda. “Isso dá um livro, né? Dá um livro grande pra contar essa história”, conclui.

Mariana Braga é jornalista formada pela UFPR, com mestrado pela École Normale Supérieure de Lyon, na França. Trabalhou como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa do Paraná. Foi repórter, apresentadora, editora e chefe de reportagem em emissoras de televisão. Tem formação também em Artes Cênicas e Psicanálise. **Os textos da colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




