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De Lisboa, o vice-presidente do partido Chega, Pedro Frazão, acompanha a política brasileira com uma atenção que, segundo ele, não é apenas fruto da proximidade histórica entre os dois países. Para o dirigente português, o Brasil ocupa uma posição estratégica no novo tabuleiro geopolítico e suas escolhas terão consequências que ultrapassam as fronteiras da América do Sul.
“O Brasil tem um papel fundamental nessa geometria internacional”, afirma Frazão em entrevista à coluna Entrelinhas e ao programa Sem Rodeios. Na visão dele, Portugal e os demais países ocidentais deveriam trabalhar para aproximar Brasília de Lisboa e Washington. “É uma pena para nós, aqui em Portugal, que o Brasil, um país irmão de Portugal, um país irmão da nossa civilização ocidental, esteja hoje em dia mais próximo de Pequim e de Moscou do que de Lisboa e de Washington.”
Sanções europeias contra autoridades brasileiras
A proximidade com o Brasil também explica, segundo ele, o interesse do Chega pelos embates envolvendo o Supremo Tribunal Federal. O partido português já pediu que autoridades brasileiras sejam alvo de sanções em Portugal e que o tema seja levado à União Europeia.
O dirigente diz que o Chega foi o primeiro partido português a pedir sanções contra o ministro Gilmar Mendes. Também afirma que a legenda solicitou uma investigação sobre “as contas, os movimentos financeiros e os reais objetivos” das visitas do ministro a Portugal.
No Parlamento Europeu, os dois eurodeputados do Chega também defendem a adoção de medidas contra autoridades brasileiras. Questionado sobre uma nova carta de parlamentares europeus pedindo sanções contra Alexandre de Moraes, Frazão diz que pretende levar o assunto aos representantes do partido.
Para Frazão, o debate não deveria se limitar à aplicação ou não de sanções. O que considera fundamental é que a Europa passe a tratar com maior atenção as denúncias e controvérsias envolvendo instituições brasileiras.
“Mais do que propriamente a sanção em si, é muito importante a intervenção política pública”, diz. “Nós temos que, pelo menos, investigar. Quer dizer, investigar não é condenar, mas não investigar também não pode ser uma resposta”, avalia.
A disputa pelo modelo brasileiro
Quando o assunto é economia, Frazão também não esconde sua preferência por uma agenda de direita liberal e de endurecimento contra o crime. O dirigente faz uma avaliação positiva do período final do governo Jair Bolsonaro e afirma ter visto, naquela época, portugueses qualificados se mudarem para o Brasil em busca de oportunidades.
“Vários portugueses foram daqui trabalhar para o Brasil, médicos, enfermeiros, arquitetos, engenheiros civis, muitas pessoas qualificadas que foram trabalhar em altos quadros de empresas”, relata.
Na avaliação dele, a situação mudou com a desvalorização da moeda brasileira e o aumento do endividamento público.
Frazão é crítico ao governo Lula, como em relação à expansão de programas sociais e afirma que o Estado estaria criando uma relação de dependência com os mais pobres. “O atual presidente está a tentar comprar o voto dos mais desfavorecidos”, opina.
Para ele, políticas de transferência de renda acabam desestimulando o empreendedorismo e a busca por autonomia. “Eu acho que é um convite ao ócio, um convite à preguiça e um convite ao não-trabalho”, pontua.
Como contraponto, Frazão cita propostas que atribui a Flávio Bolsonaro, especialmente na área de segurança pública e redução da máquina estatal. Também menciona Javier Milei, na Argentina, e Nayib Bukele, em El Salvador, como referências de uma direita latino-americana que, segundo ele, combina liberalismo econômico e uma política de segurança mais dura.
Uma “bifurcação” para o Brasil
A disputa política brasileira, na visão de Frazão, é também uma disputa de valores. “Eu vejo o Brasil agora em frente de uma bifurcação para dois caminhos muito diferentes”, afirma.
O dirigente defende que o Brasil se aproxime novamente dos valores que, segundo ele, formam a base da civilização ocidental: “Brasília tem que se aproximar dos valores judaico-cristãos do Ocidente, da nossa civilização judaico-cristã e não o contrário.”
Católico, Frazão afirma que tem amigos e familiares no Brasil, especialmente em Pernambuco, e diz acompanhar de perto a política do país. Para ele, o que acontece em Brasília terá reflexos também na Europa: “Eu sei que a política brasileira vai impactar não só em toda a América do Sul, mas também na América do Norte e na Europa.”
A imprensa e o Brasil
A preocupação com o que chega ao público europeu sobre o Brasil leva Frazão a outro de seus temas preferidos: a imprensa. O vice-presidente do Chega acusa os principais veículos portugueses de apresentarem um viés ideológico de esquerda — crítica que também direciona à cobertura feita por correspondentes portugueses no Brasil. “A imprensa nacional, a imprensa internacional, tem um grave viés, tem um grave enviesamento. E esse viés é de esquerda”, reforça.
O embate mais recente, segundo Frazão, ocorreu com a agência Lusa, estatal portuguesa de notícias. Ele se revoltou com uma notícia sobre o Hamas que, em sua interpretação, teria amenizado a caracterização do grupo como terrorista.
A reação provocou uma polêmica em Portugal e uma queixa da Comissão de Trabalhadores da Lusa contra o dirigente na Assembleia da República. Para Frazão, porém, episódios como esse fazem parte do preço a pagar por uma atuação política que, segundo ele, não evita o confronto.
“O Chega não tem medo de apontar as verdades e não tem medo de dizer aquilo que é preciso dizer”, destaca.
O crescimento do Chega
A disposição para confrontar adversários e instituições é, na avaliação de Frazão, parte da explicação para a rápida ascensão eleitoral do partido.
Fundado em 2019, o Chega saiu de um único deputado para 12 em 2022, 50 em 2024 e 60 em 2025, segundo o dirigente. O crescimento transformou a legenda de uma força política marginal em uma peça que os demais partidos precisam considerar nas decisões parlamentares.
Para Frazão, foi justamente o eleitorado que rompeu o chamado “cordão sanitário” imposto ao partido. “Precisando do nosso voto, o povo português, os eleitores, é que tiraram essas linhas vermelhas e obrigaram que todo o Parlamento correspondesse e respeitasse a nossa força eleitoral.”
Mas o dirigente não acredita que o caminho até o governo esteja livre. Se o Chega chegar à primeira colocação sem maioria, afirma, os demais partidos poderão formar uma “coligação negativa” para impedir a legenda de governar.
A comparação é feita com experiências de outros partidos de direita europeus, especialmente na França e na Itália.
“O sistema está com medo”
É nesse ponto que Frazão aproxima mais explicitamente a experiência portuguesa do cenário brasileiro. Ele diz que o Chega também enfrenta processos e acusações de racismo, xenofobia e discurso de ódio e interpreta parte dessas iniciativas como uma reação ao crescimento da legenda.
Segundo ele, há uma tentativa de utilizar tanto a imprensa quanto instituições judiciais para conter forças políticas que desafiam o sistema. “No fundo, o sistema está com medo”, resume.
Frazão diz que o mesmo fenômeno, na sua interpretação, pode ser observado no Brasil. “Nós vivemos tempos em que é precisa muita coragem para poder enfrentar o poder instalado, que está instalado há muitas décadas e que está a reagir fortemente contra os políticos como nós”, analisa.
Imigração: “O Chega não é contra”
Um dos assuntos que mais geram controvérsia em torno do Chega é a imigração. Frazão rejeita a ideia de que o partido seja contrário à entrada de estrangeiros em Portugal.
“O Chega não é contra a imigração. O Chega é a favor da imigração, da imigração regulada, da imigração de quem vem para trabalhar, da imigração de quem vem para respeitar os valores ocidentais e os valores europeus”, explica.
A preocupação central, segundo ele, é a segurança. Frazão cita inclusive um vizinho brasileiro que, segundo seu relato, teria defendido um maior controle migratório porque havia deixado o Brasil justamente para escapar da violência.
“Vocês têm que controlar a imigração, porque senão o que nós temos, nós fugimos da insegurança do Brasil para vir para aqui e agora isso está a vir para cá”, teria dito o vizinho.
Frazão relaciona o tema à presença que, de acordo com ele, organizações criminosas brasileiras passaram a ter em Portugal. “Se nós não controlamos a imigração, vai haver uma transferência daquilo que é a insegurança dos outros países”, avalia.

Mariana Braga é jornalista formada pela UFPR, com mestrado pela École Normale Supérieure de Lyon, na França. Trabalhou como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa do Paraná. Foi repórter, apresentadora, editora e chefe de reportagem em emissoras de televisão. Tem formação também em Artes Cênicas e Psicanálise. **Os textos da colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




