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Há uma modalidade esportiva que o PT domina com excelência: o salto ornamental da mentira. E não estou falando de fake news, categoria em que o partido já compete hors concours.
Em 2018, o partido se apresentava como quem ia refundar a democracia brasileira. O plano de governo daquele ano eleitoral falava em deflagrar um processo constituinte, revogar o teto de gastos e a reforma trabalhista, e vinha...
Pera! Calma! Torcedores, calma! Propunha... um processo constituinte? E ninguém acusou de ser golpista, antidemocrático e bibibi e bobobó? Que curioso...
Mas retomemos. Falava em nova constituinte, revogar o teto de gastos e a reforma trabalhista, e vinha dividido em cinco eixos. Eram promessas grandiosas, mesmo com Lula preso e Haddad aparentando a vitalidade anímica de uma granola.
Há uma modalidade esportiva que o PT domina com excelência: o salto ornamental da mentira
Oito anos depois, o programa de 2026 aumentou, tem 13 capítulos. Comparados aos anteriores, parece um cardápio que ganhou fotos novas, mas as porções encolheram no prato servido.
A reforma trabalhista, por exemplo, virou um paciente em tratamento prolongado que foi sendo paulatinamente esquecido. Em 2018, o partido queria revogá-la. Em 2022, o programa ainda previa essa revogação, mas o candidato acenava com “uma nova legislação”. A faca continuava no peito do seu eleitor, mas prometendo que doeria menos.
Mas no programa de 2026, sumiram as referências à revogação da reforma trabalhista. Restaram propostas de mudanças pontuais, como a da jornada de trabalho já aprovada nesta semana pelo Congresso. É claro que, na propaganda, o PT faz parecer que trocar a fechadura equivale a reformar a casa inteira.
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O teto de gastos é o que recebeu o maior dos saltos ornamentais. Em 2018, era “neoliberal”, “restritivo”, precisava acabar. Em 2026, apesar da retórica, o arcabouço fiscal está mantido no programa. O PT tomou juízo? Não, apenas encontrou maneiras de contornar as restrições fiscais de forma “criativa”. Quem aí se lembra das pedaladas fiscais da Dilma? Pois é... É como aqueles ricaços falidos que vendem os quadros da casa, somem com os pregos e pintam a parede para parecer que nada havia ali, mantendo a pose de prosperidade.
No campo, a pirueta é parecida. O plano de 2018 trazia a reforma agrária em letras garrafais, como se Alexandre de Moraes o tivesse digitado. Em 2026, ela desapareceu como compromisso destacado, substituída por platitudes sobre agricultura familiar. O partido que se criou insistindo em reforma agrária agora a trata como se ela nunca estivesse na lista de convidados da sua festa da democracia.
A soberania é outro caso curioso. Em 2018, ela abria o programa como primeiro eixo, sob o nome de “soberania nacional e popular”. Era a soberania que se veste de vermelho e parecia ter alergia aos símbolos nacionais. Em 2026, o tema ganhou outra função: virou instrumento de mobilização antiamericana, sobretudo contra adversários que buscaram nos Estados Unidos um respaldo político.
O salto ornamental da mentira só existe porque a plateia aplaude antes de conferir a queda
O petismo tentou vestir a camisa amarela da seleção para encenar patriotismo, mas a camisa não lhe caiu bem. Na campanha, não rendeu o esperado e o assunto sumiu da propaganda.
Sei que nada disso é novidade para quem acompanha a política de perto. Para esses, tampouco será surpreendente se Lula for reeleito graças a oportunismos como o da PEC da jornada de trabalho e às promessas ilusórias de sempre. Mas há algo mais incômodo aí se Lula vencer de novo: significa que o eleitor também se acostumou a dar seus saltos ornamentais.
Quem aí não fez – e continua fazendo – o cálculo eleitoral do menor dos males? Quem nunca desviou o olhar para não encarar que os demais candidatos também podem colocar a eleição acima de tudo e a conquista ou manutenção do poder acima de todos? A oposição, que tantas vezes se declarou contrária à escala 6x1, não aderiu à proposta porque estamos em período eleitoral?
O salto ornamental da mentira só existe porque a plateia aplaude antes de conferir a queda. E, de quatro em quatro anos, cabe a nós sermos os jurados. Nenhum merece nota máxima, mas alguns são piores do que os outros, sim. Que, nesta eleição, a memória das quedas pese mais do que as piruetas do presente.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Escorsim é formado em Direito e Filosofia. Atua como professor e escritor de filosofia e literatura. É coautor de várias obras, entre elas "A Formação do Imaginário", “Mapa da maturidade: do naufrágio ao resgate” e "Arrume seu Quarto: um Guia Para Entender Jordan Peterson". **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




