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Francisco Razzo

Francisco Razzo

Francisco Razzo é professor de filosofia, autor dos livros "Contra o Aborto" e "A Imaginação Totalitária", ambos pela editora Record. Mestre em Filosofia pela PUC-SP e Graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento-SP.

Religião

O que Rodrigo Toniol não entende sobre Fulton Sheen, a Igreja e a evangelização

Fulton Sheen: trabalho inovador na televisão.
Fulton Sheen realizou um trabalho inovador de evangelização pela televisão. (Foto: Cortesia/Archbishop Fulton J. Sheen Foundation)

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Em fevereiro de 1953, Fulton Sheen subiu ao palco para receber o Emmy de personalidade da televisão americana e agradeceu aos seus quatro roteiristas: Mateus, Marcos, Lucas e João. O bispo tinha 30 milhões de espectadores por semana, um quadro-negro e um ferraiolo, a longa capa violeta dos bispos. Quando o quadro enchia, um contrarregra o apagava longe da câmera, e Sheen atribuía o serviço ao anjo da guarda.

Rodrigo Toniol, antropólogo da religião e colunista da Folha, escreveu sobre a beatificação de Sheen. A tese é que ela reconhece que “a santidade também pode vir com o uso de novas tecnologias” e que Leão XIV “parece definitivamente reconhecer que a internet virou, para a Igreja Católica, sua principal terra de missão”. O que ele entende por missão fica claro no vídeo em que divulga a coluna: uma “estratégia mais ampla da Igreja Católica”, a “tentativa de atrair esses jovens”, a necessidade de “agir pra converter essas massas”. No vocabulário de Toniol, a conversão se mede em massa e se faz por estratégia. Sheen tinha respondido mais de 70 anos antes, no agradecimento que o próprio Toniol cita. Se os roteiristas eram os evangelistas, o roteiro vinha dos Evangelhos, e a câmera só o transmitia. Sim, a Igreja é missionária, e a missão tem roteiro.

O que importa está no que a coluna deixa de fora. Francisco aprovou o milagre atribuído à intercessão de Sheen em julho de 2019; a beatificação ficou marcada para dezembro. Semanas antes da data, a cerimônia foi suspensa a pedido de bispos americanos, que queriam revisar se Sheen, quando bispo de Rochester no fim dos anos 1960, havia designado padres acusados de abuso para novas funções. A causa ficou parada até fevereiro deste ano. A Igreja que, para Toniol, precisa disputar Hollywood engavetou por seis anos o seu primeiro astro da televisão americana. A coluna não menciona a pausa.

Rodrigo Toniol escreveu sobre uma beatificação sem as palavras milagre, virtude, oração, fé ou Deus. Fulton Sheen entra na primeira frase como “o vencedor de um Emmy”

Também não menciona o milagre, que é, junto com a virtude de quem morreu, o que uma beatificação examina. Em 2010, em Illinois, um menino nasceu sem batimento cardíaco. Ficou 61 minutos assim, enquanto a equipe médica trabalhava e a mãe repetia mentalmente o nome de Sheen. O coração voltou a bater. Os peritos do Vaticano não encontraram explicação natural.

Contei. Na coluna da Folha sobre a beatificação de um bispo, as palavras “milagre”, “virtude”, “oração”, “fé” e “Deus” não aparecem nenhuma vez, enquanto “Igreja” aparece seis. O que ela faz, ou o papa por ela, vem em verbos de cálculo: mostrar que está atenta, disputar Hollywood, valer-se da circulação dos missionários digitais sem abrir mão de discipliná-los. As palavras religiosas que sobram vêm presas a um meio: a santidade “com o uso de novas tecnologias”, rádio e televisão “como instrumentos de pregação”, a internet “como meio de evangelização”. Os santos entram como complemento. Sheen entra na primeira frase, como “o vencedor de um Emmy”.

O Sheen que sobra dessa gramática é um apresentador de batina. O que existiu fez doutorado em Filosofia em Louvain, escreveu livros antes de ver uma câmera e passou os anos de maior audiência dirigindo a Sociedade para a Propagação da Fé, que sustentava missões na África e na Ásia. Deu às missões mais de US$ 10 milhões do que ganhou com livros, rádio e televisão.

A Igreja tem doutrina sobre o cinema desde 1936, quando Pio XI publicou a encíclica Vigilanti cura. Em 1957, Pio XII a estendeu ao rádio e à televisão na Miranda prorsus, que declara contrário à doutrina cristã reservar essas técnicas a fins políticos e de propaganda ou tratá-las como mero negócio. No Jubileu dos Missionários Digitais, em 2025, que Toniol arrola como “prova de estratégia”, Leão XIV pediu aos influenciadores que olhassem além do número de seguidores.

O método de Toniol cabe em duas expressões dele. O fato pitoresco, “no fundo”, diz respeito a uma estratégia; a notícia “esconde” movimentos tectônicos. É o modo de ler do anticlericalismo de sempre, que via na batina um figurino e no púlpito um palanque: o gesto religioso é fachada, e o sentido verdadeiro está no cálculo por trás dele. A leitura tem a vantagem de nunca se surpreender. Se a Igreja beatifica seu astro da televisão, é estratégia; se o engaveta por seis anos, também é.

Escrevo coluna toda semana e conheço a tentação de achar que tudo o que se publica é cálculo de audiência, porque boa parte do que eu publico é. Sheen tinha 30 milhões de espectadores e deu o crédito a quatro homens mortos havia 19 séculos. Eu tenho bem menos leitores e não costumo agradecer a ninguém.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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