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Por algum motivo sazonal ou meteorológico, sempre que se aproxima uma eleição, a cantora Anitta vai para as manchetes. É um fenômeno bem mais previsível que o El Niño. E diz muito sobre o que é a sociedade brasileira hoje.
A premissa de que pessoas famosas têm lições de vida a dar ao público é tão furada quanto persistente. Como a notoriedade amplifica necessariamente tudo que é dito por aquela pessoa, de alguma forma ficou convencionado que ela exercerá aquela indiscutível influência dizendo aos mortais o que eles devem fazer ou pensar. A celebridade ou subcelebridade que não dá conselhos políticos hoje é quase um extraterrestre.
Infelizmente, não é só um problema de carreirismo ou lacração. Esse tipo de demagogia hoje é parte de uma estrutura já bastante avançada de poderio artificial. Conseguiram transformar causas humanitárias (reais) em cosmética a serviço do mais moderno fisiologismo estatal. Em outras palavras: é a desfiguração da ideia de representação democrática.
Atualmente, não só no Brasil, existe uma forma de estigmatização e cerceamento dos que não repetem as cartilhas “progressistas” — que, por sua vez, são a base da imposição dos políticos a serviço desse sistema artificial. É uma rede de autoproteção fisiológica, fantasiada de resistência democrática contra o inimigo imaginário. O inimigo real é o povo.
A decadência da imprensa no mundo todo — capturada por esse tipo de agenda falsamente virtuosa — abalou a chamada opinião pública. O senso comum passou a precisar da oxigenação trazida pelas redes sociais e similares, como antídoto contra a transformação do jornalismo em propaganda casuística. A estrutura da comunicação total trouxe uma parte importante do universo da grande mídia para a tentação do controle da opinião pública.
Isso não é uma especulação. É um fato verificável nos últimos anos — e confessado por players das big techs, com a exposição dos esquemas de “rebaixamento de histórias” (censura) para impor determinadas versões à coletividade. De teoria conspiratória, o controle da opinião pública virou uma possibilidade real — e, em certa medida, em plena execução.
Se você tem algum poder ou forma de influência, esse sistema de artificialização da representação política te convida a participar da corrente
Repetindo os cânones que servirão para estigmatizar, perseguir e marginalizar o “inimigo” (as pessoas comuns), você ganha seu lugar no clube de vantagens. É uma megaestrutura de elitização, protegida pela fachada de proteção à democracia e combate ao ódio.
Velhos caciques do populismo “esquerdista” jamais estariam de volta à cena por obra e graça de suas miragens “socialistas”. Eles são material reciclado por essa moderna rede de poderes artificiais — o autoritarismo de boa aparência. Anitta chegou a dizer que não tinha obrigação de “se posicionar” politicamente, que seu negócio era música, etc. A patrulha não recuou e exigiu seu repúdio a Jair Bolsonaro.
Foi assim que a cantora virou cabo eleitoral do PT — depois da bela declaração sobre o direito à independência e à discrição. Ela diz que desautoriza o uso de seu nome em propaganda política, mas faz a propaganda por si mesma. É tudo legítimo, não há ilegalidade nisso. E agora Anitta diz que não espera que seu público vote no candidato dela.
Sejam quais forem as intenções mais profundas da cantora, há um sistema bem robusto premiando de forma palpável — com oportunidades e pertencimento — quem, nos últimos anos, tratou o PT como a solução democrática brasileira contra o “fascismo”. Há uma série de razões no mercado para esse tipo de adesão. Menos ideologia.

Guilherme Fiuza é jornalista, escritor e roteirista, autor dos livros “Meu nome não é Johnny”, “3.000 dias no bunker” (ambos adaptados para o cinema), “Bussunda - A vida do casseta”, “O Império do Oprimido” e “O passado promete”, entre outros. Autor das peças “Eu e ela” e “O controle”, e coautor da série de TV “O Brado Retumbante”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




