Eu não me decepcionei vendo Jair Bolsonaro questionar se o petróleo é nosso. Para tanto, eu precisaria estar convicto de seu comprometimento com uma ampla política de desestatização. Muito pelo contrário, ele dá reiteradas provas de que continua sendo o mesmo dirigista inveterado dos anos 90. Aquele que votava com a esquerda contra a agenda de abertura econômica e que chegou a pedir o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso por privatizar a Vale do Rio Doce. A verdade é que o presidente fica muito mais à vontade repetindo as taras nacionalistas do ditador Getúlio Vargas do que falando em responsabilidade fiscal, reformas e outras palavrinhas que fazem a cabeça de traders e habitues da Faria Lima.

Na semana passada, em sua já tradicional live de quinta-feira, Bolsonaro antecipou a intervenção que faria na Petrobras. Insatisfeito com a alta no preço dos combustíveis anunciou isenção tributária de impostos federais sobre o diesel e o gás de cozinha e criticou a gestão da estatal dizendo que alguma coisa aconteceria com ela nos próximos dias.

Começava ali a fritura pública de Roberto Castello Branco, cujo mandato como presidente da empresa vai até dia 20 de março. Não demorou para que Bolsonaro anunciasse quem indicaria para o seu lugar: o general da reserva Joaquim Silva e Luna. Depois de militarizar a articulação política, o Ministério da Saúde e a Anvisa, chegou a vez de fazer o mesmo com a maior companhia brasileira. O presidente vai terceirizando nacos do Estado para que seus companheiros de farda administrem. É o que o jornalista Carlos Andreazza cunhou como pazuellização do Brasil.

A reação dos investidores foi imediata. O valor da Petrobras derreteu em R$ 102 bilhões desde a última sexta-feira. Valor infinitamente superior aos prejuízos acumulados com a corrupção no período petista. Só na segunda-feira (22) as ações da empresa desvalorizaram em 21,51%, o que representou o segundo maior tombo de sua história. Na Bolsa de Nova York, a queda da empresa era de 20,25%.  O efeito da decisão de Bolsonaro também contaminou outras estatais que estão na Bolsa de Valores. As ações do Banco do Brasil baixaram 11,65%, e as da Eletrobras abriram o pregão com menos 9%.

Essa foi a intervenção mais violenta feita pelo presidente na petrolífera, mas não a única. É bom lembrar que ainda em 2019, no início de seu mandato, Bolsonaro obrigou a direção da Petrobras a cancelar um aumento no diesel. A ação gerou uma perda de R$ 32 bilhões para a companhia.

Mas mesmo as perdas acumuladas não se comparam com o dano intangível na imagem da Petrobras e na credibilidade do governo brasileiro. Quem aplicará seus recursos em país cujo governante, ao sabor dos ventos, destitui diretores de empresas controladas pela União e que tem participação de acionistas privados?

Nas últimas semanas, o temor do Palácio do Planalto foi com a possibilidade de uma nova greve dos caminhoneiros. Com o desemprego elevado e as contas públicas em colapso, uma paralização da categoria, como já aconteceu no passado recente (e que contou com o apoio e a militância de Bolsonaro), poderia prejudicar ainda mais os números cambaleantes da economia brasileira.

A preocupação do presidente não é com contas públicas, com a diminuição do Estado ou com austeridade fiscal, e sim com sua viabilidade política na disputa presidencial de 2022. O cenário pandêmico e recessivo faz com seu ímpeto populista se torne ainda mais evidente. Por isso colocou a Petrobras sob rédea curta e corre desesperado pela aprovação de uma nova rodada do auxílio emergencial.

O governo que Bolsonaro faz não é aquele prometido na campanha de 2018, quando tentava garantir votos da classe média se mostrando um candidato de confiança para os mercados com a venda de uma ilusão liberalizante alicerçada na figura de Paulo Guedes. Quem comanda o país é o deputado de baixo clero e terraplanista econômico que acredita em empresas públicas estratégicas para o país. O bolsonarsimo se untou de petróleo para disputar a reeleição.

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