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No último pronunciamento que fez, Jair Bolsonaro tentou pintar o Brasil como um exemplo mundial no esforço de imunização. Ao som de panelaços, disse que éramos o 5° no mundo na aplicação. O cálculo do presidente leva em conta os números absolutos, o que dá uma vantagem ao Brasil, já que poucos países tem mais habitantes do que o nosso. Houve a omissão da posição no ranking dos números proporcionais. Na lista de doses por 100 habitantes, ocupamos a vexatória 45° posição, segundo informações colhidas e compiladas pelo pesquisador Thomas Conti com base no site Our World In Data e nos microdados de vacinação do SUS. Não, não temos do que nos ufanar, apesar da retórica triunfalista que tenta ser cravada no seio do covidário que nos tornamos.

Por certo, a vacinação de 100% da população brasileira em um trimestre seria tão inexequível quanto esperar honestidade intelectual dos próceres governistas ou de seus vassalos de aluguel. É inegável, entretanto, que se outras providências tivessem sido tomadas, a situação seria um pouco melhor. A começar pela forma como se lidou com o estabelecimento de convênios na obtenção de imunizantes. Ao invés de garantir esses produtos com antecedência buscando múltiplas fontes, preferimos questionar cláusulas contratuais que são aceitas no mundo inteiro e apostar tudo nos resultados da AstraZeneca.

A população já poderia ter começado a ser vacinada, mesmo que de forma incipiente, ainda em dezembro. Bastava que o contrato com a Pfizer fosse celebrado a tempo, coisa que só veio a acontecer em março, quando, por força da classe política e da opinião pública, o presidente e seu Ministério da Saúde foram dobrados. O atraso gerou o custo de ficarmos no fim da fila de oferta, com o montante de doses chegando apenas no segundo semestre. A omissão nos privou de uma vacina altamente eficiente no momento em que enfrentamos o pico da pandemia e uma onda de mortandade sem igual.

Hoje, a imunização no Brasil depende quase que integralmente dos lotes da Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan com a empresa chinesa Sinovac. É a outrora demonizada, espezinhada e difamada, “vachina do Doria”, como diziam os bolsonaristas até esses dias. A vacina “xing ling”, como escreveu certa feita em seu Twitter o assessor internacional Filipe Martins, que tratou de apagar o post quando constatou que poderia pegar mal.

Até final de março, das 18,4 milhões de doses aplicadas, 14,7 milhões eram da Coronavac, o que representa 80% do total. Sem ela, afundaríamos no alastramento da doença sem oferecer proteção nem mesmo aos grupos de risco, o que aumentaria a tragédia sanitária. Ou seja, pela vontade manifesta de Bolsonaro, que chegou a dizer em rádio que a Coronavac não seria comprada nem com aprovação da Anvisa, o cenário seria ainda pior. Não teríamos o imunizante no qual se fiam nossos atuais indicadores, nem as demais, cujo processo de compra se arrastou a ponto de quase ficarmos sem elas em 2021.

A vacinação se impôs pela realidade. De tal forma que mesmo o presidente passou a trata-la com o mínimo de pudor. Até o Zé Gotinha foi redesenhado para se adaptar à estética oficialesca. Eduardo Bolsonaro chegou a publicar uma foto do personagem segurando uma vacina como se fosse uma escopeta. Apesar de tudo, o governo se esforça para se apropriar dos méritos da imunização. Mas será em vão. Bolsonaro não conseguirá esconder o rabo de jacaré.

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