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Com a chegada de Flávio Bolsonaro à frente do presidente Lula no primeiro turno do pleito presidencial e com a eleição de um número recorde de representantes da direita para o Senado, a Câmara dos Deputados e os governos estaduais, em especial do campo bolsonarista, proliferaram análises de todos os tipos para tentar decifrar o resultado das urnas.
Embora ainda falte o segundo turno para sacramentar a vitória de Flávio na disputa pelo Planalto e Lula ainda possa virar o jogo, mesmo que isso pareça improvável no momento, o recado dado pelos eleitores em 4 de outubro foi tão contundente que, independentemente da apuração final, já gerou explicações em profusão sobre o que aconteceu e o seu significado para o futuro do país.
Alguns analistas procuraram explicar o que teria motivado a onda azul que varreu o Brasil. Outros buscaram identificar quem seriam os grandes vencedores e perdedores da disputa. Um terceiro grupo preferiu destacar o que teria sido mais importante na eleição. Cada um contribuiu, ao seu modo, para uma melhor compreensão do fenômeno. Mas, muitas vezes, o que acabou prevalecendo, em meio ao volume de informação sobre o tema que inundou os meios de comunicação e as redes sociais, foi uma visão fragmentada da questão.
Para muitos analistas, um dos principais fatores que levaram à arrancada final de Flávio e à avalanche de votos na direita foi a interferência indevida do STF e do TSE no processo eleitoral, em benefício da candidatura de Lula. O episódio mais emblemático foi, provavelmente, a tentativa de alteração das regras do debate da Globo, que acabou levando ao seu cancelamento por ingerência judicial, algo inédito no país.
Isso teria assustado os eleitores mais moderados e reforçado a percepção de que tanto o STF quanto o TSE atuaram para favorecer Lula, que havia decidido não comparecer ao debate, levando-os a apoiar Flávio, visto como mal menor, apesar de ele ter seus próprios problemas. Também teria fortalecido a percepção, para quem ainda tinha alguma dúvida sobre isso, de que o ativismo do Judiciário passou dos limites e de que é preciso recolocar o STF no seu quadrado, em linha com o que reza a Constituição.
Cabos eleitorais
Entre os que atribuem aos abusos do STF papel fundamental na ascensão de Flávio, outra razão apontada para explicar o resultado das urnas foi o circo armado pelos ministros Flávio Dino, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes na sessão do STF destinada a autorizar (ou não) a investigação contra Xandão, pelas suspeitas de envolvimento no escândalo do Banco Master e de tráfico de influência em favor do banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo tal visão, Dino, Gilmar e Moraes teriam se tornado os grandes “cabos eleitorais” de Flávio e da direita, alvo principal das arbitrariedades cometidas pela Corte nos últimos anos.
Falou-se muito também que as condenações draconianas dos envolvidos no quebra-quebra do 8 de janeiro a penas de até 17 anos de prisão e os julgamentos enviesados do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados mais próximos, à revelia dos ritos processuais e do que preveem os códigos legais, teriam dado uma contribuição significativa para a votação de Flávio e dos candidatos ligados a Bolsonaro. O mesmo se pode dizer em relação à censura e à perseguição de influenciadores bolsonaristas e de críticos do STF promovidas por Moraes, no âmbito do famigerado inquérito das fake news, e seus parceiros na Corte.
Outra corrente, porém, procurou atribuir as vitórias de Flávio e da direita no primeiro turno ao próprio Lula. Não só por ter atuado em conluio com o STF desde antes do atual mandato, apoiando suas medidas arbitrárias e sendo beneficiado por elas, mas também pelo escândalo do Master, pelas fraudes do INSS, nas quais seu filho Lulinha é alvo de investigações da Polícia Federal, por seu governo pífio e pelo antipetismo crescente na sociedade. Virou meme a tentativa de repetir suas promessas recorrentes, do tipo “vou acabar com a fome nesse país”, como se fosse da oposição e não como se o PT não estivesse no poder há quase vinte anos.
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Na avaliação de alguns analistas, a turma do chamado “centro democrático”, que apoiou Lula em 2022 “pela democracia”, acreditando ingenuamente na lorota de que ele realizaria um governo de coalizão, também teria engrossado a votação de Flávio, por ter se sentido traída pelo petista.
Afinal, tão logo ele subiu a rampa do Planalto, Lula abraçou as pretensões hegemônicas históricas do PT, deixando a turma de centro a ver navios, renegada a posições secundárias na administração. Governou movido pelo ódio e pelo sentimento de vingança contra os que apoiaram a sua prisão por corrupção e lavagem de dinheiro e contra os que contribuíram para o que ele e seus aliados chamam de “golpe” contra a ex-presidente Dilma Rousseff.
Voto útil
Todos esses fatores teriam estimulado o voto útil em Flávio e turbinado a votação dos candidatos da oposição ao lulopetismo e à ala de Xandão, Gilmar e Dino no STF, garantindo-lhes milhões de votos nas urnas. No fim das contas, os demais representantes da oposição que disputavam a eleição, como Ronaldo Caiado, Augusto Cury, Romeu Zema e Renan Santos, que somavam cerca de 11% das intenções de voto nas últimas pesquisas do primeiro turno, receberam um total de apenas 7,6% dos votos. É um dado que confirma a migração de eleitores para Flávio, ainda que de nariz tapado, e demonstra que sua votação foi muito além do bolsonarismo.
Entre os que se dedicaram a apontar os maiores vencedores e perdedores nas eleições, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi considerado como o maior ganhador disparado. Condenado a 27 anos e três meses de prisão, pena que cumpre em prisão domiciliar por problemas de saúde, mantido praticamente incomunicável e declarado inelegível pelo TSE até 2030, Bolsonaro, que muitos consideravam como morto politicamente, deu uma demonstração de força que muitos consideravam improvável.
Além de Flávio ter chegado ao segundo turno à frente de Lula, apesar de toda a artilharia disparada contra ele durante a campanha, ele conseguiu eleger sua mulher Michelle como senadora pelo Distrito Federal, seus filhos Carlos e Jair Renan como senador e deputado federal por Santa Catarina, respectivamente, e seu irmão mais novo Renato como deputado federal por São Paulo. De quebra, o PL, partido dos Bolsonaros, ainda elegeu cinco governadores (RS, PR, SC,RO e RR), além do aliado Tarcísio de Freitas (SP), 19 senadores e a maior bancada da Câmara, com 121 parlamentares.
Na lista de alguns analistas, mais até do que Lula e doque o PT, o maior perdedor seria Xandão, que conduziu as ações da alegada tentativa de golpe de Estado. Outros o colocam ao lado dos colegas Gilmar, Dino, Dias Toffoli e até de Cristiano Zanin, pelo apoio que deram aos seus abusos.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que viu seu candidato ao governo do Amapá, seu estado natal, ser derrotado em primeiro turno, e suas pretensões de se manter no posto em 2027 “subirem no telhado” com a força adquirida pelo PL nestas eleições, vem logo atrás. Por caber ao Senado a aprovação de indicações de novos ministros do Supremo, que serão quatro no próximo governo, e de pedidos de impeachment dos magistrados, não é pouca coisa.
Todos esses fatores têm base na realidade e refletem o desejo de mudança expresso nas urnas. Ajudam a entender como Flávio chegou na frente de Lula e o que teria levado à avalanche de votos na direita, especialmente em representantes do bolsonarismo, no primeiro turno. Provavelmente, no entanto, é a soma de tudo isso – e de outros fatores destacados pelos analistas que não foram mencionados aqui – que pode nos dar uma visão mais abrangente sobre o significado do fenômeno e do que ele pode representar para o futuro do Brasil. Para completar o quadro, agora falta só Flávio ficar na frente de Lula também no segundo turno e ser eleito para a Presidência, defenestrando o lulopetismo.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

É jornalista desde 1983. Foi repórter especial e colunista do Estadão, editor de Economia e repórter especial da revista Época, editor-chefe da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios e editor-executivo da revista Exame. Foi também repórter da Gazeta Mercantil e da Folha. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



