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José Fucs

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Retórica

Com o PT no poder há quase 20 anos, Lula faz campanha como se fosse oposição

Campanha Lula
Lula fala como se ele e o PT não tivessem culpa no cartório pela atual situação do país. (Foto: Isaac Fontana - EFE )

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Com a campanha eleitoral ganhando tração, nem parece que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT são governo. Tampouco parece que ele está buscando seu quarto mandato e que seu partido governou o país em 18 dos últimos 24 anos.

Se um alienígena desembarcasse no Brasil hoje e acompanhasse a campanha petista, sua impressão provavelmente seria a de que Lula é um candidato da oposição tentando apear seus adversários do poder – e não o atual ocupante do Palácio do Planalto.

Talvez por não ter nada ou quase nada a mostrarem termos de realizações em seu terceiro mandato, apesar da gastança sem lastro que realizou, e por causa dos altos índices de rejeição pessoal e de reprovação do governo apontados pelas pesquisas, o presidente vem se colocando muitas vezes na campanha como se fosse um outsider.

Cobra o “sistema” como se não estivesse à frente dele, em parceria com a ala majoritária do Supremo Tribunal Federal (STF), integrada por ministros como Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes, e com o apoio nada discreto dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta.

Com os juros na estratosfera, a dívida pública crescendo em ritmo acelerado, a quebradeira recorde de empresas, o endividamento da população e a escalada nos preços dos alimentos, em meio ao escândalo do Banco Master e às fraudes bilionárias do INSS, Lula fala como se ele e o PT não tivessem culpa no cartório pela atual situação do país. Isso para não falar do avanço da criminalidade e das filas gigantescas do SUS, que marcaram de forma negativa sua gestão.

Passando recibo de que ele e o PT fizeram muito pouco em quase duas décadas de governo, Lula continua a prometer uma “transformação inédita”, terceirizando a responsabilidade pela falta de resultados às “elites”, aos “golpistas”, aos “vendilhões da pátria” e até ao Banco Central, “esquecendo-se” de que o atual presidente da instituição, Gabriel Galípolo, foi indicado por ele mesmo para o cargo.

“A minha quarta Presidência é para mudar muita coisa nesse país”, afirmou Lula na convenção do PT que oficializou sua candidatura, repetindo a retórica que mantém desde que disputou pela primeira vez a Presidência, em 1989, e dando o tom que vem marcando seu discurso na campanha pela reeleição.

Candidato estreante

A tática de se esquivar do papel de governante e de agir como um candidato estreante da oposição, que projeta para o futuro as mudanças que ele e o PT não conseguiram entregar até agora, fica evidente nas declarações que tem dado nas últimas semanas em entrevistas e em atos eleitorais.

“Eu estou predestinado a transformar o Brasil num país de classe média alta. Sabe aquilo que você fala dos europeus, de que eles atingiram o Estado de bem-estar social? Por que a gente não pode alcançar? Por que nosso povo é pior do que eles?”, afirmou Lula na semana passada, em entrevista à Rádio Progresso, do Ceará, como se a população devesse acreditar que, desta vez, ele conseguirá, enfim, fazer o que o PT não conseguiu realizar em quase vinte anos no poder.

Lula também prometeu que, se for reeleito, irá acabar “definitivamente” com a fome, uma promessa que ele vem fazendo desde sempre, mas que continua a tratar como uma meta a ser alcançada lá na frente. “O compromisso sagrado desse governo é garantir que todo brasileiro e toda brasileira tome café, almoce e jante todos os dias”, declarou na convenção do PT.

Ele prometeu, ainda, que vai levar água encanada para os cerca de 30 milhões de brasileiros que não dispõem do serviço. “Não é possível que em pleno século 21 a gente ainda tenha pessoas sem água potável. Isso é incapacidade de quem governou este país por muito tempo”, disse o presidente durante visita a obras hídricas no Ceará, ignorando o fato de que ele e seu grupo político é que ocuparam o poder na maior parte do século 21.

“É uma vergonha o país ter milhões de pessoas sem água potável e sem esgoto tratado. Não vamos descansar até garantir que a água chegue de verdade na torneira das famílias”, afirmou, como se não tivesse feito de tudo, felizmente sem sucesso, para revogar o novo marco do saneamento básico, que ampliou o espaço da iniciativa privada no setor, para suprir a carência de recursos públicos para investimentos na área.

Na mesma linha, prometeu transformar o SUS num sistema exemplar, como se a consolidação e o financiamento do sistema não tivessem estado sob comando direto de governos petistas nos últimos vinte anos. “Eu sei como o pobre é tratado. Na saúde, ainda prevalece o poder do dinheiro. Nós vamos garantir atendimento igualitário e digno para quem depende do SUS nesse país”, declarou.

O expediente se repetiu na área de segurança pública, na qual Lula e o PT costumam “passar pano” para bandido, defender o desencarceramento e tratar o tema como uma “questão social”. Diante do crescimento da criminalidade no país desde o início de seu primeiro mandato, em 2003, ele prometeu que, se for reeleito, vai enfrentar o problema para valer, insistindo na ideia de que o que importa é atacar o “andar de cima” do crime organizado, em vez de ir atrás de quem sai pelas ruas de revólver em punho roubando celular, assaltando casas e matando a sangue frio suas vítimas.

“É fácil matar o bandido numa favela. Agora, o cara que manda está no apartamento de cobertura, está morando no condomínio, e nós precisamos acabar com eles para poder acabar com os debaixo. Nós vamos trabalhar duro”, afirmou o presidente em discurso realizado em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, no lançamento oficial de sua campanha, em meados de agosto. 

“Forças ocultas”

Após o PT ficar quase duas décadas no poder sem conseguir progressos palpáveis nessas questões, Lula promete agora resolvê-las, se conseguir o aval dos eleitores para ficar mais quatro anos no Planalto. Mas, ainda que se acredite que as soluções que ele propõe para o país estão no caminho certo, o que já é algo contestado por boa parte da população, é difícil imaginar que, de repente, ele conseguirá entregar o que promete depois de tanto tempo sem apresentar resultados consistentes.

Seu discurso de oposição contra as “forças ocultas” que o impedem de levar adiante suas propostas de “transformação” pode até mobilizar a tropa de choque petista e enganar os incautos, cada vez menos numerosos.

Mas, no fundo, só reforça a percepção de que Lula e o PT fracassaram tremendamente na tentativa de implementar sua agenda socializante no país, o que não deixa de ser uma boa notícia para quem acredita na livre iniciativa, na meritocracia, nas boas práticas de gestão pública e no controle da criminalidade.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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