Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Luiz Philippe de Orleans e Bragança

Luiz Philippe de Orleans e Bragança

Desesperança

Por que fugimos?

A debandada recorde de brasileiros reflete a desesperança com um país sufocado por impostos, insegurança e um governo obcecado por arrecadar. (Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Muitos brasileiros estão em busca de um refúgio fora do Brasil. Estima-se que cerca de cinco milhões de pessoas estejam morando no exterior, e a debandada atingiu níveis de 300 a 400 mil por ano — números alarmantes diante dos índices populacionais.

As causas variam muito: falta de segurança, saúde, educação, qualidade de vida, perspectivas de carreira etc. Essas questões são recorrentes em todas as gerações e não são exclusivas do Brasil. Exclusivo, entretanto, é o aumento observado nos últimos três anos. A debandada foi recorde, e hoje há um número de brasileiros fora do país jamais visto em nossa história.

O que resultou nesse aumento brutal da imigração pode ser reduzido a uma só questão: desesperança com o Brasil sob o comando do atual governo. Mas o que, de fato, causa tanta animosidade? O apadrinhamento do crime organizado e a sensação de viver em constante temor pela própria vida são, com certeza, dois fatores importantes.

É notório o apoio que o atual governo recebeu de organizações criminosas, bem como a atuação de juízes que parecem favorecer medidas que dificultam o trabalho policial. Ademais, as políticas de desarmamento evidenciam a intenção de fragilizar ainda mais a população indefesa.

O crime em si não é homogêneo. Sim, apesar dos altos índices de criminalidade em todo o país — com cidades completamente tomadas pelo crime organizado —, existem também municípios e regiões em que o problema da segurança não difere do de nenhum país desenvolvido. Ou seja, há bolhas seguras onde impera a paz. Portanto, se o brasileiro realmente considera a segurança um problema, ainda há alternativas neste vasto país.

Então, qual é a causa? Se a segurança não chega a ser um argumento capaz de afugentar quem pensa e produz, uma segunda razão pode ser os altos impostos. Para muitos, essa é uma causa invisível, o que dificulta o combate.

Praticamente 70% dos emigrantes do Brasil deixam o país por questões econômicas, demonstrando que a questão migratória está intrinsecamente vinculada à alta tributação no país.

E o que o atual governo tem a ver com isso? Tudo. Desde que tomou posse, em janeiro de 2023, insiste em criar novos impostos, aumentar alíquotas e ampliar a arrecadação. Esse foi seu tema central, acima de qualquer outro — mais central do que impor censura, pautas ambientais, criar novos programas sociais e, por incrível que pareça, mais prioritário do que perseguir politicamente os opositores.

Sim, a questão tributária foi mais importante do que evitar que a oposição obtivesse espaço na política. E por quê? Porque, todos os meses, desde que o governo assumiu, houve aprovação pela Câmara e pelo Senado de pautas tributárias de interesse do Executivo.

A lista completa está aqui. Incorporamos todos os projetos mencionados nas interações anteriores, com base em informações de janeiro de 2023 a outubro de 2025. Ela inclui apenas os projetos que envolvem explicitamente a criação de novos tributos (como IBS, CBS e IS), o aumento de alíquotas ou mecanismos para elevar a arrecadação federal, com foco em votações em plenário na Câmara dos Deputados e no Senado.

A lista é organizada por ordem cronológica de tramitação inicial, com o número do projeto, uma breve descrição e as datas das principais votações em plenário (aprovação de texto-base, turnos ou emendas relevantes). O ponto central é a reforma tributária e as medidas compensatórias recentes.

VEJA TAMBÉM:

1. PL 4173/2023

Descrição breve: Dispõe sobre a tributação de rendas auferidas por pessoas físicas residentes no país em aplicações financeiras, entidades controladas (offshores) e trusts no exterior, além de fundos de investimento exclusivos para alta renda. Institui alíquotas de IR de 15% a 20% sobre rendimentos, com fim de isenções para elevar a arrecadação federal em cerca de R$ 40 bilhões em 10 anos. Sancionado como Lei 14.754/2023.
• Câmara dos Deputados: 25/10/2023 (texto-base aprovado por 407-4 em votação nominal).
• Senado Federal: 29/11/2023 (aprovado integralmente, sem alterações significativas).

2. PEC 45/2019

Descrição breve: Proposta de Emenda à Constituição que altera o Sistema Tributário Nacional, criando o arcabouço para novos impostos sobre consumo (IBS e CBS, substituindo ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI), com potencial aumento de arrecadação via simplificação e padronização. Prevê transição até 2033. Promulgada como Emenda Constitucional 132/2023 em 20/12/2023.
• Câmara dos Deputados: 06/07/2023 (primeiro turno, aprovação por 382-118).
• Câmara dos Deputados: 07/07/2023 (segundo turno, aprovação por 375-113).
• Senado Federal: 08/11/2023 (primeiro turno, aprovação por 53-24).
• Senado Federal: 09/11/2023 (segundo turno, aprovação por 46-27).
• Câmara dos Deputados: 15/12/2023 (aprovação final das emendas do Senado por 371-121).

3. PL 914/2024

Descrição breve: Institui o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), com incentivos à indústria automotiva (R$ 19,3 bilhões em créditos fiscais até 2028), mas inclui emenda para taxar em 20% o Imposto de Importação sobre remessas internacionais até US$ 50 (fim da isenção via Remessa Conforme), elevando a arrecadação federal em cerca de R$ 2,7 bilhões anuais; alíquota de 60% para valores entre US$ 50 e US$ 3 mil, com ICMS de 17%. Sancionado como Lei 14.902/2024 em 28/06/2024.
• Câmara dos Deputados: 28/05/2024 (texto-base aprovado simbolicamente, incluindo a taxação).
• Senado Federal: 05/06/2024 (texto-base aprovado; destaque para reinclusão da taxação aprovado por 49-0, com abstenções).
• Câmara dos Deputados: 11/06/2024 (emendas do Senado aprovadas por 380-26 em votação nominal).

4. PLP 68/2024

Descrição breve: Institui os novos impostos IBS (Imposto sobre Bens e Serviços, compartilhado), CBS (Contribuição Social sobre Bens e Serviços, federal) e IS (Imposto Seletivo sobre bens prejudiciais à saúde/ao meio ambiente, com alíquotas de até 2%), com regras de transição e arrecadação que elevam a base tributária federal sobre consumo; transição de 2026 a 2033. Sancionado como Lei Complementar 214/2025 em 17/01/2025.
• Câmara dos Deputados: 10/07/2024 (texto-base aprovado por 336-142 em turno único).
• Senado Federal: 12/12/2024 (texto-base aprovado por 49-19; emendas aprovadas em votações separadas).
• Câmara dos Deputados: 17/12/2024 (substitutivo do Senado aprovado por 324-123).

5. PLP 108/2024

Descrição breve: Cria o Comitê Gestor do IBS (CG-IBS) para gerir arrecadação, distribuição e fiscalização do novo imposto, com normas que facilitam o aumento da arrecadação federal via lançamento de ofício; inclui regras administrativas para transição. Aprovado e retornado à Câmara para análise de mudanças.
• Câmara dos Deputados: 13/08/2024 (texto-base aprovado por 303-142 em turno único).
• Câmara dos Deputados: 30/10/2024 (destaques e emendas aprovados, com votações como 403-0 para emenda aglutinativa).
• Senado Federal: 30/09/2025 (substitutivo aprovado por 51-10, com uma abstenção; texto retorna à Câmara).

6. PL 1087/2025

Descrição breve: Altera a legislação do Imposto de Renda para isentar rendas até R$ 5 mil/mês, mas institui tributação mínima de 10% para altas rendas e majoração na alíquota sobre lucros e dividendos acima de R$ 50 mil mensais (IRRF de 10%); visa elevar a arrecadação federal das faixas mais ricas para compensar as isenções. Tramitando no Senado.
• Câmara dos Deputados: 01/10/2025 (texto-base aprovado por 493-0 em votação nominal).

7. PDL 214/2025

Descrição breve: Projeto de Decreto Legislativo que susta decretos presidenciais (12.496 a 12.498/2025) que elevavam alíquotas do IOF em operações de crédito, cartões e remessas ao exterior (de 3,38% para 3,5%), visando arrecadação de R$ 20,5 bilhões em 2025; sua aprovação suspendeu o aumento. Relacionado a MP que eleva o IR sobre JCP de 15% para 18% como compensação.
• Câmara dos Deputados: 25/06/2025 (substitutivo aprovado simbolicamente por 314-126 em emendas).
• Senado Federal: 25/06/2025 (aprovado por 52-11, com uma abstenção).

Esses projetos representam os principais esforços para reformar o sistema tributário e compensar desonerações, com impactos diretos na arrecadação federal. Para detalhes nominais de votos ou tramitações após outubro de 2025, vale consultar os portais oficiais da Câmara e do Senado.

VEJA TAMBÉM:

Jabutis escondidos

As medidas votadas acima são apenas ilustrativas, pois existem muitas outras que incluem aumento de impostos e de arrecadação, mesmo por vias indiretas — os chamados “jabutis” embutidos em projetos de lei. O notável é que o governo venceu em todas, desde 2023 até agora.

Na semana passada, houve uma novidade: a MP 303, que criava impostos em áreas ainda não tributadas — uma medida que inviabilizaria ainda mais o Brasil para negócios, onerando capital e empreendedores, atendendo à sanha arrecadatória do governo com a intenção de comprar votos para a próxima eleição. Felizmente, essa MP foi rejeitada.

Desesperado, o governo chegou a ameaçar deputados de sua base, dizendo literalmente que, se não votassem favoravelmente, não receberiam mais as emendas parlamentares. Essa foi a gota d’água. Ficou claro que, se não fosse a compra sistemática de votos desde 2023, o Centrão não teria aderido ao governo. Mas o sentido da votação obedeceu, sobretudo, ao bom senso — que prevalece quando se chega a um ponto crítico. E chegamos a ele.

Tributação intolerável

A taxação que incide sobre a economia real é excessiva e pode gerar uma grande crise se não estancarmos essa sangria o quanto antes. E ninguém quer estar vinculado à criação de uma crise — já passamos desse momento. Nesta semana, Centrão e oposição se uniram para rejeitar e retirar de pauta esse projeto governamental, um dos raros momentos em que ambos estiveram juntos — situação realmente inédita, em que o Centrão não apoiou o governo, um padrão até agora constante.

Mas, enquanto oposição e Centrão comemoravam, o governo já informava que tudo o que foi rejeitado da MP 303 pode ser incluído em novos projetos, via Senado. Isso reforça a ideia inicial de que a questão tributária é vital para este governo. E, se a opinião pública, o Centrão e a oposição almejam alguma conquista, precisam olhar além das pequenas vitórias e fazer o mesmo: ver a questão tributária também como item central para seus partidos.

Quando o Congresso e a opinião pública se rendem a devaneios e se distraem com outros temas — algo que a mídia financiada pelo governo faz com maestria —, certamente contribuem para que cada vez mais brasileiros digam “adeus” ao Brasil.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.