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“Foi ouvida em Ramá uma voz, uma lamentação, um pranto amargo: é Raquel que chora os seus filhos.”
(Jeremias 31, 15)
Um velho padre certa vez me contou uma história antiquíssima sobre o apóstolo Natanael, também conhecido como Bartolomeu, cuja festa comemoramos no último dia 24.
Todos se lembram do encontro entre Jesus e Natanael, relatado no Evangelho de São João. Num primeiro momento, Natanael se mostra cético e até sarcástico quanto à possibilidade de que o Messias tenha vindo de Nazaré, a cidade onde Jesus foi criado; homem dedicado aos estudos, Natanael sabia que o Messias viria de Belém.
— Acaso algo bom pode vir de Nazaré? — ironiza Natanael.
Seu companheiro Filipe apenas diz para ele vir e ver com os próprios olhos.
Jesus recebe Natanael com uma calorosa saudação:
— Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!
— Donde me conheces tu?
— Eu te vi quando estavas debaixo da figueira — fala Jesus.
Ao ouvir essa frase, Natanael sofre um impacto violento e responde:
— Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!
Sempre me pareceu surpreendente essa súbita mudança no estado de espírito de Natanael, o filho de Ptolomeu (Bar-Tolomeu).
Aquele velho padre que eu mencionei no início dizia haver uma razão secreta para tal transformação. Trinta anos antes daquele encontro, a mãe de Natanael escondera o seu filho recém-nascido sob as folhas de uma figueira, para evitar que o bebê fosse morto pelos soldados de Herodes, no episódio conhecido como o Massacre dos Inocentes.
Lembrei-me dessa história ao participar, na última quarta-feira, de uma reunião pública intitulada “Aborto aos nove meses: um crime contra a humanidade”, promovida pelas vereadoras Michele Thomazinho e Jessicão, da Frente Parlamentar Cristã, na Câmara Municipal de Londrina.
Naquela noite, ouvi estarrecido os relatos de estudiosas do tema sobre o avanço da cultura da morte em nosso país e no mundo. Relatos como as mortes de bebês até os nove meses de gestação e os abortos provocados pelo maligno método da assistolia — uma tortura que já ceifou milhares de vidas nos últimos anos, por ordem de nosso Herodes, ministro-ditador do Supremo Soviete.
Herodes ordenou a morte das crianças em Belém, mas o seu reinado não terminou; ao contrário, ganhou o mundo. De 2005 a 2019, 898 milhões de bebês tiveram suas vidas ceifadas dentro do ventre de suas mães, por obra dos Herodes modernos. É um crime bárbaro contra a humanidade, que um dia, se Deus quiser, terá o seu Nuremberg.
Durante a reunião da última quarta-feira, passou de mão em mão a réplica de um feto igual aos que hoje são vitimados pelo aborto. Naquele momento, pensei na criança que não deixei nascer há muitos anos, e que hoje teria a idade de Cristo.
Não usarei as folhas da figueira para esconder o meu pecado, mas para ajudar a proteger, com a força do perdão e da palavra, a vida de todos aqueles que não têm voz.
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



