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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Crônica de domingo

De carbono e ferro são feitas as mães

Mãe é força silenciosa: espera, protege, sofre e ama sem medida — até quando o mundo inteiro deixa de entender. (Foto: Acervo pessoal/Paulo Briguet)

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Mãe não entende se você não come tudo o que está no prato.
Mãe não aceita desculpas do tipo: “Se os outros podem, por que eu não posso?”. Mãe responde: “Os outros não são meus filhos”.

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Mãe adora ouvir o barulho da fechadura quando o filho chega.
Mãe tem cheiro de banho, tem cheiro de bolo, tem cheiro de casa limpa.
Mãe fica assustada quando vê o caso daquela modelo que morreu de anorexia: “Eu já falei para você comer tudo!”.

Mãe fica assustada quando lê notícia de assalto. Mãe fica assustada quando lê notícia de acidente.
Mãe fica assustada quando lê notícia de briga. Mãe fica assustada quando lê notícia. Mãe fica assustada.

Mãe não está nem aí para o que os outros pensam.
Mãe foge com o filho para o Egito, montada em burrico.
Mãe tem sonho. Mãe tem pressentimento.

Mãe tem sexto sentido — e sétimo, oitavo, nono. Mãe não faz sentido (para quem não é mãe).
Mãe chora ao pé da cruz. Mãe chora em rebelião. Mãe chora se o filho é Messias ou bandido.
Mãe acredita.

Mãe não pode ser testemunha no tribunal. Mãe é café com leite.
Café com leite, pão com manteiga, biscoito, bolacha de água e sal, banana cozida.
E ainda faz você levar um pedaço de bolo para casa.

Mãe só tem uma, mas é tudo igual.

Mãe espera nove meses. Mãe espera o telefone tocar. Mãe espera a campainha tocar. Mãe espera o barulhinho da porta do filho voltando.
Mãe espera o resultado do vestibular. Mãe espera o carteiro. Mãe espera o telefonema. Mãe espera e-mail. Mãe espera os dois risquinhos azuis no WhatsApp.
Mãe espera. Mãe sempre espera.

Mãe ama. Assim, verbo intransitivo, como queria Mário de Andrade.
Porque, se é mãe, já se sabe o que ela ama.

A culpa é da mãe, dizem os freudianos.
Às favas com os freudianos! Sem mãe, nada feito.

Uma amiga costuma dizer: “Pai é palhaço, mãe é de aço!”.
A frase é interessante, porque o aço é uma liga de ferro e carbono.
Ferro é o símbolo da força; carbono é o elemento presente em todos os organismos vivos.
A mãe constitui a liga entre a fragilidade e a força do indivíduo.

Não há algo mais vulnerável e mais sólido que a maternidade. Mãe é de aço.

Só fica difícil fazer um poema em homenagem a ela.
Sabe por quê? Mãe só rima com mãe.

Em memória de Aracy Briguet (1940–2011).

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