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“Faça-se, cumpra-se, seja eternamente louvada e glorificada a justíssima e amabilíssima vontade de Deus sobre todas as coisas.” (São Josemaría Escrivá)
Um dos piores males do nosso tempo é o que eu chamo de politização geral da vida. Aquela crença, profundamente demoníaca, de que todas as coisas devem ser reduzidas a um conflito entre opressores e oprimidos. Não é por acaso que a palavra “diabo” significa literalmente “aquele que divide”. E o futebol, é claro, não poderia ficar de fora desse processo diabólico.
Na contramão da tendência da época, venho aqui expor as razões pelas quais eu torci para a Espanha nesta final de Copa do Mundo. O primeiro fator que me levou a desejar e festejar a vitória da Fúria nada tem a ver com política, ideologia ou reparação histórica. Trata-se de um motivo essencialmente pessoal e intransferível: a saudade que eu sinto de uma pessoa que nunca conheci.
Meu avô paterno, Antonio Fernandes Marin, nasceu em 1902 no povoado de Coy, município de Lorca, província de Múrcia, no sul da Espanha. Uma das coisas que sei sobre ele é que, nas Copas do Mundo, se transformava em um apaixonado torcedor da seleção de seu país natal.
O primeiro fator que me levou a desejar e festejar a vitória da Fúria nada tem a ver com política, ideologia ou reparação histórica
Quando Antonio morreu, meu pai tinha apenas 16 anos. Mas uma das lembranças mais nítidas que ele tinha de meu avô eram as suas emoções, ao lado do rádio, durante os jogos da Fúria na Copa de 1950. Naquele ano, a Fúria teve três vitórias na primeira fase, mas acabou em quarto lugar, tendo sido goleada pelo Brasil, por 6 a 1. O mesmo Brasil que depois perderia o título para o Uruguai na tragédia do Maracanazo.
Na final deste domingo, imaginei Paulo e Antonio, meus xarás, juntos, sofrendo e vibrando com a vitória da Espanha. Meu avô teve uma vida de altos e baixos; dizem que perdeu fazendas e um hotel da família na mesa de jogo. Em 1956, atropelou um ciclista, deixando-o paralítico. Mesmo sem ter sido culpado pelo acidente, nunca mais foi a mesma pessoa. Talvez por isso eu nunca tenha aprendido a dirigir. Talvez por isso eu tenha torcido por uma alegria que ele não pôde ter.
A outra razão que me levou a torcer para a Espanha tem a ver com Deus. Quando soube que o técnico da Fúria, Luis de la Fuente, é devoto de Nossa Senhora do Pilar, aí é que os argentinos deixaram de ter qualquer chance comigo, se é que alguma existiu.
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Nossa Senhora do Pilar é simplesmente a mais antiga devoção mariana. A tradição diz que a Virgem Maria apareceu ao apóstolo São Tiago (filho de Zebedeu e irmão de João), que viajara para a província romana da Hispânia para pregar o Evangelho.
A missão de Tiago enfrentava enorme resistência e rendia pouquíssimos frutos, o que levou o apóstolo ao desânimo. Nas margens do Rio Ebro, na antiga cidade de Caesar Augusta (atual Saragoça), enquanto Santiago orava com seus primeiros discípulos, a Virgem Maria apareceu milagrosamente sobre um pilar de jaspe. Essa é a primeira aparição registrada de Maria, ocorrida quando a mãe de Jesus ainda vivia em Jerusalém (tratando-se, pois, de uma bilocação).
Em entrevista, Luis de la Fuente afirmou que carrega a fita da Virgem do Pilar em seu pulso direito, mas esclarece que sua fé não tem qualquer traço de barganha ou superstição: “Não sou nada supersticioso. Se rezo hoje ou amanhã, é porque o faço há anos. Minha fé é algo pessoal e intransferível. Deus me dá muita segurança e muita força”.
Nossa Senhora do Pilar, Vô Antonio e aquele título roubado de 1978: a Argentina não tinha nenhuma chance comigo mesmo.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



