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Conta-se que alguém certa vez maliciosamente questionou Freud sobre seu vício em charutos, indagando se o hábito compulsivo possuía algum significado oculto, como a fixação oral. O fundador da psicanálise teria dado uma resposta bem pouco freudiana:
— Ora, meu caro, às vezes um charuto é apenas um charuto.
Apesar da velha anedota, há ocasiões em que um charuto é bem mais do que um charuto. Lembro-me de um amigo que, há muitos anos, trabalhou para o PT e abandonou o partido depois de contemplar um salão forrado com as sobras de charutos cubanos consumidos pelos companheiros após uma noite de festa. A depender do contexto, o charuto pode simbolizar não apenas o poder, mas toda a maldade e a degradação humana a ele associadas.
Uma foto que circulou nas redes mostra Paulo Gonet, o chefe do Ministério Público do Brasil, saboreando um charuto em Londres, ao lado do banqueiro Daniel Vorcaro, aquele que viria a ser o personagem central da maior fraude bancária do país. Na fatídica sessão do STF da última terça-feira, Gonet negou possuir qualquer vínculo íntimo com Vorcaro, tendo apenas mantido um contato “brevíssimo e banal” com o fraudador. Mentiu diante do país inteiro.
Sabemos agora que as despesas de Gonet e de seu filho naquela viagem a Londres foram bancadas por Vorcaro. Quando Vorcaro foi preso pela segunda vez, por uma decisão corajosa do ministro André Mendonça, Gonet pediu um tempo para pensar, o que mais uma vez dá razão aos que o apelidaram de “prevaricador-geral da República”.
Considerados esses fatos, se tivesse o mínimo de vergonha na cara, Gonet deveria se declarar impedido de tomar qualquer decisão sobre o caso Master
Nos últimos dias, diante das revelações sobre o envolvimento de altas autoridades da República com Daniel Vorcaro, os porta-vozes do Regime PT-STF têm repetido a famosa frase de Groucho Marx: “Você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”
Neste fim de semana, o Brasil inteiro viu as imagens de Alexandre de Moraes e Viviane Barci desembarcando do luxuoso e exclusivo avião de Vorcaro, mas o casal Master exige que as pessoas neguem a evidência dos próprios sentidos. É uma característica universal dos ditadores de todos os tempos, essa de contrariar a realidade que está saltando à frente de todos.
Em sua patética “defesa” enviada ao plenário do STF, Moraes já havia negado a evidência dos sentidos, ao afirmar que os seus diálogos com Vorcaro eram meras “ilações” feitas por “golpistas do 8 de janeiro”. Ele quer nos fazer acreditar que Vorcaro conversava com um amigo imaginário, e não com um ministro plenipotenciário.
Todas as evidências apontam para uma realidade simples: Vorcaro comprou a cadeira do mais poderoso ministro da Suprema Corte para não responder por seus crimes; ofereceu-lhe contrato milionário, avião de luxo, cartão de crédito para a família e prioridade total. Da mesma forma, bancou viagens e regalias para altos membros do regime.
O que foi visto não pode ser desvisto. O que aconteceu não pode desacontecer. A permanência de Moraes e Gonet em seus cargos é um escárnio para todo brasileiro decente.
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



