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“[...] Descobrir aquilo que do passado é digno de ser preservado e o que deve ser rejeitado, e quais condições, ao nosso alcance, que podem ser estipuladas para promover a sociedade que desejamos.” (T.S. Eliot)
Antes de mais nada, o caro leitor pode se acalmar, pois o título é uma provocação. Mas não sem algum sentido. Estive num podcast conversando com amigos sobre o mais recente filme de Christopher Nolan – sobre o qual já tratei recentemente – e, num determinado momento, essa questão veio à tona: não propriamente se o filme é um clássico, mas, primeiro, se, com o passar dos anos, se tornaria um clássico; ou, segundo, se o diretor quis, deliberadamente, criar um clássico – pela magnitude do projeto – e falhou.
Fui o único que tentou ponderar a negativa de meus três amigos, dizendo que não era possível prever, pois, se o filme foi realizado para dialogar com a sensibilidade dos tempos atuais, não sabemos exatamente como ele será recebido daqui a alguns anos, dentro de um contexto que pode não estar, nesse momento, muito claro a nós.
Explico: o roteiro do filme me parece ter sido escrito não só para defender a visão de mundo do próprio Nolan – que ele, inclusive, aplica em outros de seus filmes, conforme falei no artigo citado –, mas para ser aceito pela perspectiva antiguerra do Ocidente atual, que não mais tem apreço pelo herói que retorna triunfante de uma longa jornada militar. Há guerras ocorrendo no mundo atual que, de fato, podem escalar, em algum momento, para conflitos mais generalizados. O mundo está em alerta. E, apesar de nós, brasileiros, não termos um trauma de guerra para chamar de nosso, aos americanos e europeus isso não falta.
Antes de sabermos se “A Odisseia” é um clássico ou não, precisamos definir o que é uma obra clássica e como reconhecê-la
Não estou dizendo que concordo com isso. Só estou apontando para um fato. As tradições estão sub judice; o orgulho nacional está em xeque; o apreço pela defesa de uma identidade nacional ou de um território é visto como xenofobia – ou fascismo. Os tempos são propícios ao sentimentalismo tóxico e ao ressentimento das ideologias. E Hollywood, o leitor sabe, é suscetível a tudo isso.
Mas nossa discussão foi além quando perguntei aos meus amigos: “o que é um clássico?” Ou seja, antes de sabermos se A Odisseia é um clássico ou não, precisamos definir o que é uma obra clássica e como reconhecê-la.
A palavra “clássico” não nasceu no campo da estética, mas na organização social da Roma antiga. Derivada do latim classicus, termo oriundo de classis (“classe”), designava os cidadãos pertencentes à mais alta categoria nos censos da República Romana; isto é, aqueles cujos bens os situavam na primeira categoria para fins militares e tributários. A transposição desse vocabulário para a literatura ocorreu no século 2.º d.C., quando o gramático romano Aulo Gélio empregou a expressão scriptor classicus para distinguir os escritores de “primeira classe” daqueles que chamou de scriptores proletarius. A metáfora era eloquente: assim como havia cidadãos de primeira classe, haveria também autores cuja excelência os colocava acima dos demais.
Ao longo dos séculos, o significado do termo foi sendo ampliado. Durante o Renascimento, passou a designar os grandes autores da Antiguidade greco-romana, tomados como modelos de perfeição literária e artística. A partir dos séculos 17 e 18, contudo, a palavra deixou de se restringir aos antigos e passou a qualificar qualquer obra considerada exemplar em sua tradição. Desde então, o conceito preservou um traço fundamental de sua origem etimológica: “clássico” é aquilo que ocupa uma posição de excelência e se converte em referência permanente para as gerações posteriores.
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Diante disso, gosto muito das reflexões do poeta e crítico literário T.S. Eliot sobre o tema, desenvolvidas brilhantemente em seu ensaio “O que é um clássico”, de 1944. Eliot trata do clássico literário, mas suas definições são perfeitamente aplicáveis para outros, digamos, produtos artísticos.
Para Eliot, a base de tudo o que pode ser considerado um clássico em literatura é o poeta latino Virgílio. Ele diz que “qualquer que seja a definição a que cheguemos, ela não pode excluir Virgílio – poderíamos dizer, com toda a segurança, que ela deve ser uma das que expressamente o levarão em conta”. Reconhece que o termo é polissêmico, diz que não pretende substituir qualquer uma das reconhecidas definições, mas afirma que sua abordagem se pretende deliberadamente específica. Diz ele:
“[...] Desejo definir uma espécie de arte, e não me interessa que ela seja absolutamente e em cada aspecto melhor ou pior do que qualquer outra. Enumerarei certas qualidades que presumiria fosse o clássico capaz de manifestar. Mas não afirmo que, se uma literatura for uma grande literatura, deva ter algum autor, ou algum período, em que todas essas qualidades se manifestem.”
Um clássico é fruto do tempo. Só é possível reconhecê-lo com distanciamento temporal
E à frente trará o primeiro aspecto para que se considere uma obra clássica, dizendo que “é somente graças a uma compreensão tardia, e em perspectiva histórica, que um clássico pode ser reconhecido como tal”. Ou seja, “se houvesse uma palavra em que pudéssemos nos fixar, capaz de sugerir o máximo do que pretendo dizer com a expressão ʻum clássicoʼ, esta seria maturidade”. Um clássico é fruto do tempo. Só é possível reconhecê-lo com distanciamento temporal – e o leitor me permita um gracejo: quando o roteiro de Nolan coloca na boca de Odisseu que “a Era de Bronze chegou ao fim” é o tipo de erro grosseiro que Eliot não permite na avaliação de um clássico.
Para Eliot, “um clássico só pode aparecer quando uma civilização estiver madura, quando uma língua e uma literatura estiverem maduras; e deve constituir a obra de uma mente madura”. E esclarece:
“A maturidade de uma literatura é um reflexo da sociedade dentro da qual ela se manifesta: um autor individual – especialmente Shakespeare e Virgílio – pode fazer muito para desenvolver sua língua, mas não pode conduzir essa língua à maturidade a menos que a obra de seus antecessores a tenha preparado para seu retoque final. Por conseguinte, uma literatura amadurecida tem atrás de si uma história que não é apenas uma crônica, um acúmulo de manuscritos e textos dessa espécie, mas uma ordenada, embora inconsciente, evolução de uma língua capaz de realizar suas próprias potencialidades dentro de suas próprias limitações.”
Se temos diante de nós uma criação artística que carregue em si traços de maturidade, de completude e universalidade, podemos considerá-la um clássico
Ele ainda aponta que uma maturidade da mente deve ser acrescentada de uma maturidade de costumes, a fim de que assimile esse clássico e faça dele um modelo. Nesse sentido, “pode-se presumir que a maturidade da língua acompanhe a maturidade da mente e dos costumes. Podemos admitir que a língua tangencia a maturidade no momento em que os homens adquiram um sentido crítico do passado, uma confiança no presente e nenhuma dúvida quanto ao futuro”.
Através de um clássico todo o gênio de um povo “está latente, se não de todo revelado”; existe nele uma completude, e “dentro de suas limitações formais, o clássico deve expressar o máximo possível da gama total de sentimento que representa o caráter do povo que fala essa língua”. E a correspondência dessa completude pode se manifestar localmente, no país de origem, ou de modo universal. Ou seja, uma de suas características é a universalidade.
Portanto, se temos diante de nós uma criação artística que carregue em si traços de maturidade – não só de algo que resistiu ao tempo, mas que se estabeleceu como um padrão –, de completude e universalidade, podemos considerá-la um clássico. Isso serve para literatura, música, artes plásticas, cinema, teatro e demais expressões artísticas do espírito humano. Os tempos passarão, as culturas se transformarão, as sensibilidades se exaltarão e arrefecerão, mas os clássicos permanecerão como um norte civilizacional, oriundo das mais variadas culturas que os produziram – e não me restrinjo ao contexto ocidental –, a fim de exaltar aquilo que nos diferencia dos animais e de Deus, nossa humanidade.
Quanto ao filme de Nolan, deixemos que o tempo fale por si.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Paulo Cruz é professor e palestrante, formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Em 2017, foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a nomes que se destacaram na produção/divulgação cultural, e em 2022, com o podcast Noir, foi vencedor do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes, na categoria Cultura Urbana. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



