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Estava reparando. E não é querer falar mal nem criticar os colegas que, tenho certeza, fazem o seu melhor e têm a melhor das intenções. Mas entre os colunistas desta Gazeta do Povo são raros os que oferecem um olhar diferente, ou alguma forma de alento, ao leitor. É tudo denúncia, escândalo, indignação e desgraça. E será que é só aqui? Andei dando uma olhada nos outros jornais e não. O jornalismo opinativo definitivamente abandonou a esperança. Somos puro apocalipse.
Conversei sobre isso com um amigo. “O problema é que os dias são maus, como diria São Paulo”, disse ele, citando Efésios 5,16. Hmmmm. São mesmo os dias tão maus assim? Olho em torno: na praça há uns mendigos drogados. Sei que há muita corrupção. Sabemos. Crise econômica idem. Tem violência também. Mas se você apertar os olhos para ver direito, não vai levar muito tempo para se deparar com discretas demonstrações de caridade. De generosidade. De normalidade (e isso é bem importante). De amor.
Deturpação do olhar
Você já parou pra pensar que, para cada desatino do nosso STF, desses que ganham as manchetes e rendem textos cheios de “absurdo!” e “inaceitável!”, nas instâncias inferiores há centenas de decisões justas e sensatas, sem erros de português nem ativismo? E, sim, a crise econômica é grave, inflação, endividamento e tal. Mas todos os dias milhões saem para trabalhar e voltam para casa com a sensação do dever comprido devidamente cumprido. Há a corrupção sempre escandalosa, sim. Mas há também a honestidade discretíssima. É que a violência e o desejo de vingança gritam, enquanto o amor e o perdão sussurram – e por isso tendemos a achar que eles não existem. Mas existem. Garanto que existem.
É uma deturpação do olhar. Nosso olhar que talvez esteja sendo direcionado por um Espírito do Tempo ele próprio sem alento ou esperança. “Veja o mal. Só o mal. Ele está por todos os lados. Onde está o seu Deus?”, sussurra-nos esse djãnhozinho. Confesso: eu mesmo cedo a essa tentação. Mas a dúvida também pode servir para reafirmar a fé. Assim como a contemplação pode funcionar como antídoto a essa impressão de que à nossa volta tudo está desmoronando e vai nos soterrar. Os dias são maus. Ok. Mas a beleza e a divindade também nos rodeiam. Só que tem que prestar atenção. Estreitar os olhinhos. Focar.
Boa semana a todos.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



