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O Banco Master, você sabe, se tornou o CNPJ protagonista de mais um escândalo nacional. CDBs generosos, mas com cheiro e gosto de encrenca; rumores fortes de lobby supremo; contabilidade criativa; uma influência estranha do evangelicalismo e a eterna e enganosa promessa, na verdade uma tentação, de vida mansa, sombra & água fresca. O assunto Banco Master tem tudo isso.
Então é normal que, pelos corredores da Gazeta do Povo, eu escute:
— Paulo, por que você não escreve sobre o Banco Master?
— É, Paulo, escreve sobre o Banco Master!
— Quanto você tá recebendo pelo seu silêncio sobre o Banco Master?
— E o Banco Master, hein, Paulo? Perdeu muito dinheiro lá?
Rico, bonito, famoso
Atendendo a pedidos, pois, aqui estou eu escrevendo sobre o Banco Master. E a primeira coisa que eu tenho a dizer sobre isso é que...
Bom, já chego lá. Antes, porém, deixe-me fazer uma constatação resignada: não nasci para ser rico. Nem bonito, nem famoso nem nada, mas sobretudo rico. Simplesmente porque me falta a ambição. Gosto de dinheiro, claro, no sentido de quem gosta da segurança, ou melhor, da ilusão de segurança que o dinheiro propicia.
Mas não tenho, nunca tive, essa coisa de “ah, quero ter muito dinheiro para ostentar, para esfregar na cara daqueles que nunca acreditaram em mim”. Ou então “ah, quero ter muito dinheiro porque o dinheiro reflete meu valor na sociedade”. Não tenho. Se queria ter? Não também.
Vorcaro, o triste
Porque sempre que vejo a imagem do banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master, e de outros novos-ricos deslumbrados como ele, vejo a imagem de homens tristes. Muito mais tristes do que eu, com minha conta bancária discreta. A tomar por verdadeiras as manchetes, no caso de Vorcaro vejo ainda um homem solitário, que tentou comprar o amor de duas ou três beldades, bem como a amizade e lealdade de um ou outro ministro do STF. Não é triste demais isso tudo?
Este é o momento em que sempre aparece alguém para dizer que, se Vorcaro é triste, ao menos ele tem a opção de sofrer em algum paraíso tropical ou desestressar esquiando nos Alpes ou sei lá qual o conceito que você faz de um cenário perfeito, acessível apenas aos muito ricos. Porque sempre aparece alguém.
Equação complicada
Mas, vamos combinar?, nem essa liberdade mais o sujeito tem. Ele a perdeu, aliás, justamente por causa da ambição desmedida. Percebe quão complicada é essa equação? E repare que, se a gente acrescentar a ela a constante universal de que uma vida boa está associada mais à modéstia e à honestidade do que ao luxo e às supostas surubas em Trancoso, a equação fica ainda mais complicada.
Ou seja, Daniel Vorcaro ainda pode ser muito rico, a ponto de conseguir pagar pelos serviços advocatícios de esposa de ministro do STF. Mas isso não faz dele, e de nenhum outro picareta do tipo, seja ele do mercado financeiro, da política ou da cultura, um homem feliz. Muito menos imortal, como pretendem alguns.
E você, bota fé nisso?
Por falar em política, em ano eleitoral está todo mundo clamando por uma CPI do Banco Master. Mais do que isso, está todo mundo animado com a possibilidade de esse escândalo atingir o governo Lula e, de lambuja, o STF, e acabar com a República, destruir o Sistema, essas coisas. E agora eu vou escrever “tomara” aqui só para você ficar feliz comigo. Porque, para falar a verdade, não boto muito fé em nada disso. Nem no escândalo nem na revolução.
De qualquer forma, e atendendo a pedidos, aqui estou eu escrevendo sobre o Banco Master. E a única coisa que tenho a dizer sobre esse assunto é justamente esta.
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