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Poxa. Vim aqui todo feliz dizer que hoje é dia de eclipse solar total. Que o fenômeno vai escurecer totalmente o céu de alguns países do Hemisfério Norte, como a Islândia. Que o brasileiro não está nem aí para esse eclipse solar nem qualquer outro fenômeno natural. Que nem sempre foi assim. Que houve um tempo em que os eclipses emocionavam, assustavam e empolgavam. E que me lembro bem, como se fosse ontem, de um eclipse solar total que marcou minha infância.
Mas aí os fatos (malditos!) contrariaram minha memória. Odeio quando isso acontece. É que fui pesquisar e eu tinha certeza absoluta de ter visto um eclipse solar total no final da década de 1980 ou comecinho da de 1990. Me lembro de subir no telhado da edícula da casa do bairro Alto. Chuto que fossem umas 16 horas. De usar filme fotográfico para ver o eclipse e de ouvir minha mãe falando dos pássaros se recolhendo e dos animais no pasto perdidos com a noite súbita. Do medo do fim do mundo.
Senso de maravilhamento
Mas a Internet, essa danadinha, me informa que o último eclipse total do sol visto de Curitiba foi no dia 3 de novembro de 1994. Uma quinta-feira. Assim não vale. Aí a data não bate com a memória, pô! Nessa época, eu já morava em apartamento. No Cabral. Estava prestes a completar 17 anos. Não faz sentido. Onde está o menino de voz ainda fina e cabelos volumosos, o menino que queria ser cientista? Cadê as roupas no varal e aquela brisa que, se fecho os olhos, ainda bate no meu rosto? Onde está minha mãe falando dos animais e do fim do mundo?
Ora, e se uma lembrança vivinha como essa é pura invenção, o que mais pode ser imaginação que confundo com realidade? Os filmes da Lassie a que assistia comendo sanduichinhos de bolacha maisena com margarina mergulhados no Nescau quente? A guerra de mamona no terreno baldio? Meu pai me ensinando a soltar pipa? O dia em que comi sabão achando que era quindim? Estou confuso. Mas e quanto ao eclipse? Você ainda se maravilha com esse tipo de coisa? Nem eu. O que será que isso diz de nós, hein? Não sei vocês, mas quero meu senso de maravilhamento de volta.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



