
Ouça este conteúdo
Entro no Uber e o motorista puxa assunto. Viu aquela família que foi encontrada morta no Água Verde? Digo que sim. Vi por alto. Que coisa, né? No elevador, o vizinho sempre calado me pergunta: viu aquela família...? Vi. O caixa do mercado. O frentista. O porteiro. A tia da limpeza. O dono da banquinha que era de jornais e hoje é de guloseimas. Em Curitiba, os nativos têm deixado de lado o silêncio e a sisudez que lhes são característicos para falarem da família Furuyama e no que teria motivado a tragédia.
Claudia, Marcos e Rafael foram encontrados mortos na terça (25). Os vizinhos acharam estranho o cachorro que não parava de latir. O apartamento estava trancado por dentro. Os detalhes são escassos. Por enquanto, a polícia investiga a hipótese de duplo homicídio seguido por suicídio, mas parece que os corpos só tinham ferimentos por arma branca. Por faca. É difícil alguém se matar com faca, penso. Ou não é? Não se descarta a possibilidade do envolvimento de uma quarta pessoa.
Dificuldades financeiras
Mas o que intriga mesmo quem acompanha a história são as possíveis motivações para tudo isso. Fala-se, muito en passant, em dificuldades financeiras. E aí o pessoal do primeiro parágrafo adora especular. Teria o morticínio sido causado por vício em apostas? Em drogas? Em ostentação?Fala-se também em honra, porque a família era oriental e para um oriental um rebaixamento no padrão de vida seria uma humilhação impensável. Será? Um delegado também disse que a possibilidade é de um conflito entre os três. Testemunhas, porém, contestam essa versão.
Os Furuyama aparentemente eram a epítome da família feliz. Marcos era engenheiro; Claudia, médica pediatra; e o filho Rafael estudava engenharia mecatrônica. Nesses casos é impossível não se lembrar da frase inicial de Anna Kariênina, de Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. E é por isso que em Curitiba só se fala na família Furuyama. Diante de uma tragédia dessas, todo mundo parece que precisa de uma explicação para seguir com suas vidas. O que, afinal, levou a esse desfecho trágico e violento? Que tipo de infelicidade é essa? Que dores insondáveis latejam em cada um dos apartamentos desta cidade? E por aí vai.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



