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A notícia de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o FHC, foi interditado pela família porque sofre de Alzheimer... alegrou muita gente. Espero que não você. Tudo porque ele apoiou Lula e era de esquerda. Até o fato de FHC ser descendente de um dos revolucionários republicanos de 1889 foi usado para dizer que ele não presta nem nunca prestou.
Coitado. FHC que, nos anos 1990, conseguiu o impensável. O inimaginável. O que parecia impossível. O equivalente, agora, a conseguir botar uma focinheira nesse Supremo autoritário que temos aí: acabou com a hiperinflação. Não sei se as pessoas têm ideia do tamanho desse feito, de quantas vidas o Plano Real salvou e de quantas oportunidades ele criou para milhões de pessoas. Foi uma revolução econômica imperfeita, mas seguramente virtuosa.
Garfo e faca
Mas é a tal coisa: a ideologia é ingrata. De um lado, a esquerda rejeita FHC pelo que eles chamam de “mentalidade privatista” e pela submissão dele ao “neoliberalismo”. De outro, a direita rejeita FHC pelo apoio histórico dele à esquerda, por ter passado a faixa para Lula, por ter feito oposição ao Bolsonaro. Sem falar em algo que FHC tinha de sobra e que incomoda tanto a direita quanto a esquerda atuais: decoro.
Aliás, talvez esse seja, aos olhos de hoje, o maior pecado de FHC: saber usar o garfo e a faca e se expressar em várias línguas, inclusive o português, ter lido alguns livros, e se portar como uma autoridade de fato. Como presidente de um país como o Brasil. Nah. Me desdizendo desde já, o maior pecado de FHC foi ter cometido o terrível erro de não ser perfeito numa época que exige perfeição, nada menos do que a perfeição, de seus homens públicos.







