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Os amigos de Daniel Vorcaro contam com o tempo.
A sessão do Supremo Tribunal Federal que expôs ao Brasil a bancada de apoio que Alexandre de Moraes tem na corte também elevou o tom das críticas e a indignação popular. Eu costumo dizer que nós, cidadãos comuns, sabemos o que acontece em Brasília da mesma forma como sabemos o que acontece no casamento dos outros: um pouco pela forma como se comportam em público, um pouco pelo que se vê pela janela, e muito pelo que se ouve falar.
Pois a sessão transmitida ao vivo foi uma discussão em praça pública – uma “DR”. Todo mundo viu um pouco da dinâmica que se estabeleceu no Supremo. Não é uma vida em família daquelas de propaganda de margarina; ao contrário: é um terror.
A reação da mídia e da opinião pública foi proporcional. Decepção, indignação, até nojo – sentimentos que apontam, de maneira diferente, para um só caminho: o “basta!” As manchetes e os editoriais indicam que se chegou ao limite. O regime estabelecido, essa torrente de poder incontido que assola o país, precisa encontrar seu fim. A temperatura da crítica subiu. A tolerância está no limite, e fala-se abertamente na necessidade de investigar e punir culpados.
Ou as novas revelações agravam o sentimento de indignação, e contribuem para a abertura da investigação, ou elas terminarão por anestesiar a vontade dos brasileiros
Eis que se pedem vistas. Os ânimos arrefecem. Novos fatos, novas manchetes vêm à tona. Há notícias que parecem acrescer à gravidade das denúncias – Alexandre de Moraes no jatinho, contratos associados a Kassio Nunes Marques, a rodinha de charuto de Paulo Gonet.
Mas ao mesmo tempo em que aumenta o volume de denúncias, as notícias também diluem os graves fatos já apontados no pedido de investigação que o ministro André Mendonça levou ao plenário através do presidente Edson Fachin.
É como se o clima de corrupção fosse tão grande que já não se pudesse divisar culpados...
Ou essas novas revelações agravam o sentimento de indignação, e contribuem para a abertura da investigação, ou elas terminarão por anestesiar a vontade dos brasileiros que ainda esperam viver em um país minimamente decente – onde a lei valha ao menos um pouco, ainda que tarde.
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Eu apostaria que as fichas da “turma do Vorcaro” estão nessa segunda opção. Contar com o tempo, aguentar um pouco mais. Se funcionou para a Lava Jato, por que não esperar por isso? Alguma nulidade será apontada, alguma parcialidade denunciada... é questão de tempo, afinal.
Os jornais vão tratar de outros assuntos, a política mudará, e com isso forma-se a tempestade perfeita para o naufrágio da justiça.
Já não se trata apenas do destino do esquema de corrupção estruturado por Daniel Vorcaro. O que acontecerá definirá se teremos ou não a esperança de viver em um Estado de Direito.
Trata-se da consagração de um método de impunibilidade infalível nesse país. Se a estratégia funcionar, estará assentado um precedente. É possível até roteirizar o próximo escândalo.
Se funcionou para a Lava Jato, por que não esperar por isso? Alguma nulidade será apontada, alguma parcialidade denunciada... é questão de tempo
Agentes econômicos de um setor bilionário, que se alimenta de grossas verbas públicas ou dependa de decisões políticas/judiciais para lucrar, vai organizar um megaesquema de corrupção. Propinas em espécie ou em favores serão distribuídas a agentes nos três poderes. A rede precisará ser grande o suficiente para que, caso seja exposta, não possa cair sem derrubar consigo as altas estruturas de poder do país.
No estouro do esquema, alguns serão presos, outros expostos. Parte dos valores havidos ilegalmente será apreendida ou devolvida. Um escândalo, com vidas inicialmente devassadas. Até que...
Até que se mude de assunto. Que o tempo passe. Que o povo esqueça. Que o ânimo esmoreça. Então, será o momento de recuperação. Os amigos entram em cena, sorrateira ou espalhafatosamente – anula-se tudo, soltam-se os detidos, devolvem-se os valores.
Ah, as nulidades e suas bênçãos! Bem-aventurados os que aguentaram a pressão enquanto seus amigos anulam os processos, porque deles é o reino da terra brasilis.
Por todas as ferramentas cívicas e por todas as liberdades civis e políticas que (ainda) temos, é a sua hora. Se você deixá-la passar, o tempo dará a oportunidade que a turma do Vorcaro está esperando
Não, não quero isso para o país. E não posso aceitar que essa será nossa realidade. Mas evitar este roteiro é tarefa de todos, agora. Da imprensa, que não pode mudar de assunto e baixar a pressão. Dos juízes que ainda existem nesse país (ainda os há em Berlim, e ainda os há em Brasília). Dos policiais federais honrados, que trabalham para a polícia e não para os bandidos. Dos parlamentares que serão eleitos logo mais em outubro. Do povo.
Mas o povo, sendo essa abstração que é, não se move por uma só vontade – que não existe. O que existe é você. Você, que está lendo essa coluna. Lamento dizer, ou me alegro em dizer, que você tem um papel a desempenhar no futuro do Brasil. Pela liberdade de expressão, pelo direito de manifestação, pelo voto. Por todas as ferramentas cívicas e por todas as liberdades civis e políticas que (ainda) temos, é a sua hora. Se você deixá-la passar, o tempo dará a oportunidade que a turma do Vorcaro está esperando.
Se você não entrar em campo, Vorcaro ganha.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Ricardo Gomes é CEO do Instituto Millenium. Foi vice-prefeito de Porto Alegre (2021-2024), onde também cumpriu mandado como vereador e foi secretário de Desenvolvimento Econômico. Foi presidente do Instituto de Estudos Empresarias (IEE) e da Rede Liberal da América Latina. É advogado e consultor. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



