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Roberto Motta

Roberto Motta

Sociedade

Ainda estou aqui: o desafio de educar filhos num mundo ideologizado

(Foto: FABIO FRUSTACI /EFE/EPA)

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O escritor americano George Packer tem uma frase que diz: “a ideologia já tem a resposta antes que a pergunta seja feita”. A ideologia que conquistou hegemonia a partir da segunda guerra mundial é o pensamento de esquerda. Sua última mutação se chama progressismo, um conjunto de pautas sem lógica ou relação entre si, que propõe uma releitura marxista da civilização ocidental e sua “desconstrução”. A cesta progressista inclui ideologia de gênero, antissemitismo, imigração sem controle, ativismo judicial, censura às redes, racismo do bem, promiscuidade, “desencarceramento”, guerra à polícia e apologia de drogas. Para a maioria das pessoas essa será uma receita de pobreza moral, intelectual e material, frustração emocional, desesperança, crime e doenças.

A hegemonia esquerdista, principalmente na cultura e no sistema de ensino –principalmente nas universidades - tornou o esquerdismo invisível; boa parte do senso comum não passa de posições ideológicas criadas e refinadas em salas de aula e na mídia. Por exemplo, a expressão adolescente em conflito com a lei, usada para designar criminosos com menos de 18 anos tem, por trás dela, toda uma agenda de promoção do criminoso como um revolucionário que luta pela justiça social e que não deve ser punido.

A ideologia encharcou o tecido social e ganhou status de dogma que não admite discussão. O marxismo é uma religião. Socialismo e comunismo são seitas. Progressismo é uma forma de fundamentalismo religioso. Entenda isso: quando você discute economia, crime ou direito com esquerdistas você está atacando a fé deles. Por isso a raiva, a intolerância e o recurso fácil à violência.

Educar filhos em um mundo como esse não é tarefa simples.

Nasci em 1962, dois anos antes da eclosão do movimento militar de 1964, descrito por muitos observadores da época, e por muitos historiadores de hoje, como um contragolpe dado por elementos das forças armadas como prevenção a um golpe que estava sendo abertamente planejado pelas forças de esquerda, então aliadas ao presidente João Goulart. Resolver essa discussão não é o objetivo desse artigo. Minha recomendação aos interessados é a leitura da excelente série de livros de Élio Gaspari sobre o assunto.

Meu objetivo é contar uma história que aconteceu com um amigo; é uma história comovente de ternura e maturidade, que alimenta a esperança de dias melhores.

Tenho um amigo da mesma idade que eu. Esse amigo tem um casal de filhos. Ele faz o possível para educá-los, ensinando sobre todas as coisas que nos cercam, especialmente o que acontece no Brasil.

Meu amigo sentiu um nó fechar sua garganta. Seu coração se aliviou, depois ficou pesado de novo e eles continuaram a caminhar

Meu amigo – que é jornalista - enfrenta o mesmo dilema de todos os pais: o que devo compartilhar com meus filhos? Até que ponto posso dividir com eles, que ainda estão começando suas vidas, minhas experiências, desilusões e sentimentos – inclusive o medo que, de alguma forma, caracteriza a vida do brasileiro hoje em dia? Não existe resposta para isso. Mas meu amigo, com dúvidas e hesitações, persevera no esforço de educar e formar a consciência dos filhos.

Em uma manhã de verão meu amigo caminhava com o filho quando o rapaz disse: “Pai, fui ver aquele filme, o filme sobre o deputado”. Trata-se de um filme, popular entre os jovens, que conta a história de um deputado de esquerda desaparecido durante o regime militar.

Meu amigo já tinha conversado com o filho sobre isso. O jovem acompanhava as dificuldades, os riscos e as ameaças que o próprio pai sofria em seu ofício de jornalista, ao denunciar os absurdos criminais, políticos e jurídicos do país. Meu amigo já tinha explicado as peculiaridades da história brasileira, nosso hábito de andar para frente e depois retroceder, nossas sete constituições, nossas inúmeras mudanças de moeda, nossos golpes de estado e revoluções e os homens que instigaram, se opuseram e se beneficiaram de todos esses movimentos.

“Pai”, o rapaz continuou. “Eu gostei do filme”.

Meu amigo caminhava em silêncio.

“Em um certo ponto do filme”, continuou o filho, “fiquei com os olhos cheios d’água e quase chorei”.

Não sei o que meu amigo pensou. Sei o que eu teria pensado: que eu tinha falhado, que fui vencido pela máquina de propaganda. Teria ficado com gosto amargo na boca.

Mas então o rapaz disse: “sabe por que eu me senti assim, pai? Aquela família tinha uma vida normal, uma rotina, iam à praia como a gente vai, se entendiam e se gostavam, e um dia o pai desapareceu. E eu fiquei pensando que o mesmo poderia acontecer com nossa família agora. A qualquer momento Fulano de Tal pode mandar te prender, por qualquer motivo, ou sem motivo algum, e não veremos mais você”.

Fulano de Tal é uma conhecida autoridade do estado novo ultrademocrático judicial-policial brasileiro de direito.

Meu amigo sentiu um nó fechar sua garganta. Seu coração se aliviou, depois ficou pesado de novo e eles continuaram a caminhar.

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