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A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, amplia o desgaste eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ao atingir um dos principais cargos de confiança do governo, a briga pelo controle de investigações colocou de vez o petista na crise do STF.
A retirada judicial de Rodrigues de cena é o mais novo capítulo da guerra entre Mendonça e seu colega de Corte Alexandre de Moraes, movida pelas revelações do caso Master. Lula tentou parecer distante o quanto pôde, mas a intensidade da crise impediu que ele se mantivesse preservado das hostilidades, que atingem com mais força a sua campanha pela reeleição.
Enquanto Mendonça aponta a gravidade das 52 mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro a Moraes, tornadas públicas, e dos relatórios paralelos da PF que sugeriam investigar o relator por irregularidades, Moraes havia acionado a Corte contra o primeiro, expondo uma profunda rachadura interna no tribunal. Associado a Moraes e tenso com investigações que diz apoiar, mas que tenta conter, Lula se vê mais desgastado.
Batalha de bastidores em torno de investigações ganhou novos contornos
Ao longo do período de tensões entre os grupos antagônicos no STF não faltaram movimentações para conter a atuação da PF e para buscar formas de desacreditar Mendonça. O ministro também afastou nesta terça-feia (8) Leandro Almada, diretor de Inteligência da corporação, sob o argumento de impedir interferências nas apurações e cessar monitoramentos ilegais.
Para a direita, liderada pelo principal rival de Lula nas urnas, o senador Flávio Bolsonaro (PL), a medida reforça a denúncia de abusos da “PF de Lula”, que estaria atuando com motivações políticas, blindando aliados e perseguindo rivais do presidente. O Palácio do Planalto e o comando da PF rejeitam veementemente a acusação.
A gravidade eleitoral aumenta porque Mendonça conduz as investigações do Master e de fraudes no INSS, com ramificações que alcançam Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O filho do presidente é investigado em três inquéritos sob a suspeita de tráfico de influência e se tornou o ponto mais vulnerável da campanha governista, que já impôs perda de terreno eleitoral. O novo contexto pode intensificar novas ações e fechar o cerco a Lulinha.
Os afastamentos de Rodrigues e Almada abrem espaço para maior controle do relator sobre o rumo das investigações. Mendonça já havia mandado que atos e dados das apurações fossem enviados diretamente ao seu gabinete e restringido mudanças na equipe policial. A queda de braço crescente com a cúpula da PF trouxe reações públicas de desconforto de ambos os lados.
Caso Master transformou o desgaste da PF em problema político para Lula
Andrei Rodrigues já chegava enfraquecido ao confronto. Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro indicaram que o empresário buscava acionar Moraes para chegar ao diretor da PF e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. O material levou ao nível máximo as tensões políticas em plena campanha eleitoral.
O quadro piorou quando Vorcaro declarou em depoimento ter sofrido pressões para não mencionar Andrei Rodrigues em uma eventual delação premiada. Investigadores da PF e integrantes da PGR contestaram a versão e a classificaram como manobra defensiva. Ainda assim, a acusação acrescentou forte pressão sobre o diretor-geral.
Em agosto, os 27 superintendentes regionais chegaram a divulgar nota em defesa da direção da PF após os primeiros embates com Mendonça. Agora, o ministro sustenta que relatórios de inteligência monitoraram ilegalmente suas atividades e as do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, inclusive explorando a ligação religiosa entre ambos.
Nova manifestação foi divulgada nesta terça. Onze diretores colocaram cargos à disposição em apoio ao diretor-geral afastado e ao diretor de Inteligência, enquanto delegados e superintendentes das 27 unidades regionais da PF articulam possível saída coletiva em protesto contra a decisão.
A decisão também produz uma ironia institucional. Em 2020, Alexandre de Moraes impediu o então presidente Jair Bolsonaro (PL) de nomear Alexandre Ramagem para dirigir a PF, apontando desvio de finalidade. Agora, outro ministro interfere monocraticamente no comando escolhido por Lula, sob o argumento de que há fundamentos documentados e riscos reais à instrução processual.
As manifestações do 7 de Setembro e dos líderes da direita em geral também deram respaldo a Mendonça.
Mendonça usa poderes do STF e coloca em debate o uso político da PF
Mendonça, assim, recorre ao mesmo poder cautelar exercido repetidamente por ministros do STF em decisões individuais de grande impacto. A diferença política é que o magistrado indicado por Bolsonaro agora desafia diretamente o Planalto e Moraes, justamente os personagens que encabeçavam uma linha de contenção institucional nos últimos anos.
A iniciativa de afastar o diretor-geral da PF partiu de pedidos do partido Novo, que chegou a requerer a prisão preventiva de Andrei Rodrigues — medida rejeitada por Mendonça. A sigla explora eleitoralmente instrumentos jurídicos semelhantes aos usados no passado por legendas de esquerda contra autoridades de governos adversários.
O sinal mais preocupante para o Palácio do Planalto veio da Segunda Turma do STF. Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam o relator, formando maioria célere pela manutenção dos afastamentos. O ministro Gilmar Mendes pediu vista, interrompendo o julgamento virtual, mas a liminar permanece integralmente válida e expõe o tamanho da fratura interna na Corte.
Lula entrou, portanto, definitivamente no epicentro da crise. A AGU anunciou recursos, alegando que cabe privativamente ao chefe do Executivo escolher o comando da corporação. Ao defender enfaticamente Rodrigues, porém, o governo assume o custo político da disputa e realimenta a incômoda pergunta eleitoral: a PF atua estritamente como instituição de Estado ou como instrumento da atual Administração Federal?

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




