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Afastado há 10 meses das ruas, das redes sociais e do contato com apoiadores, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda é o maior eleitor do país. As medidas impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para isolá-lo, antes mesmo de ser condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe, não o tiraram do centro do debate nacional, onde figura desde 2018.
Desde julho de 2025, Bolsonaro está impedido de usar redes sociais – direta ou indiretamente – e teve a presença pública severamente restringida por decisões do ministro Alexandre de Moraes, do STF. O bloqueio incluiu entrevistas e contatos hipermonitorados. A influência, contudo, não cessou.
O endurecimento das medidas judiciais transformou Bolsonaro em um dos casos mais severos de limitação política já impostos a um líder brasileiro. Nem investigados da Lava Jato e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante a prisão em Curitiba, enfrentaram grau semelhante de silenciamento.
A expectativa de adversários era esvaziar gradualmente o papel articulador do ex-presidente, mas o resultado obtido foi inverso. Proibido de disputar eleições e de comunicar-se livremente, Bolsonaro seguiu pautando o noticiário, mobilizando apoiadores e servindo de condutor da oposição.
Ex-presidente tem influência mantida apesar do silêncio imposto pelo STF
Nem o bloqueio de redes próprias e de aliados interrompeu a circulação de slogans, símbolos e narrativas associadas ao ex-presidente. A sua influência passou a operar de forma descentralizada, impulsionada pela militância digital, canais paralelos e forte identificação ideológica de eleitores.
O episódio mais evidente dessa força apareceu na transformação quase instantânea do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em nome competitivo para a sucessão presidencial. Bastou sinalização explícita do pai para que setores da direita e da centro-direita migrassem logo para a pré-candidatura.
O movimento revelou não só a vitalidade do antipetismo, mas também a dificuldade persistente da direita brasileira em produzir líderes nacionais capazes de rivalizar efetivamente com Bolsonaro. Apesar do peso regional, governadores da direita não atingiram igual nível de mobilização popular.
Isso ajuda a explicar por que Lula segue tratando Bolsonaro como principal antagonista político, mesmo diante de restrições impostas ao ex-presidente. O petista reconhece no adversário o personagem mais mobilizador da oposição e até usa disso para referendar a polarização do país desde 2018.
Fenômeno político singular, Bolsonaro protagoniza episódios até no exterior
Bolsonaro rompeu padrões históricos da direita brasileira ao converter uma liderança periférica em movimento nacional de massas. Capitão reformado do Exército e deputado do baixo clero por quase três décadas, chegou à Presidência em 2018 sem a estrutura tradicional dos grandes partidos.
A vitória do azarão foi impulsionada pela internet, pelo discurso antissistema e pelo sentimento antipetista consolidado após os protestos de 2013 e os escândalos de corrupção do PT. Mais do que vencer um pleito, Bolsonaro reorganizou o campo conservador com identidade permanente.
O ex-presidente juntou militares, evangélicos, liberais na economia e conservadores nos costumes numa coalizão rara na história recente do país. Mesmo após a derrota nas urnas de 2022, inelegibilidade e investidas do STF, seguiu ditando o debate público e sendo o maior ativo eleitoral da direita.
Um traço curioso desse fenômeno são as dezenas de produtos de varejo licenciados sob a marca Bolsonaro, gerenciados pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Mesmo sem publicar desde 17 de julho, o Instagram de Jair segue líder em seguidores: 27 milhões, quase o dobro de Lula (15 milhões).
O peso do sobrenome Bolsonaro ultrapassou as fronteiras nacionais. Na última terça-feira (26), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu dois filhos do ex-presidente brasileiro, Flávio e Eduardo, no Salão Oval da Casa Branca, apesar de não ocuparem cargos oficiais. É algo mítico.





