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Thiago Braga

Thiago Braga

Entender a história da guerra é entender a história dos homens. Uma nova coluna todo domingo.

Papiro de 2.300 anos

A Odisseia que Homero nunca escreveu?

Fragmento de papiro com versos da Odisseia de Homero. (Foto: Domínio público/MET Museum)

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Meu público sabe o quanto amo a Odisseia! Eu respiro aquela obra que já me levou três vezes à Grécia! Poucas obras atravessaram o tempo como ela. Há quase três mil anos, gerações acompanham Odisseu (não o chame Ulisses, pelo amor de Zeus!) em sua longa tentativa de retornar para casa depois da Guerra de Troia. Mas um pequeno pedaço de papiro atualmente exposto em Nova York nos lembra de algo fascinante: a Odisseia que lemos hoje não foi necessariamente a única conhecida pelos antigos.

Neste mês, o Metropolitan Museum of Art voltou a exibir uma de suas peças mais extraordinárias: um fragmento de aproximadamente 2.300 anos contendo parte da Odisseia. Datado de cerca de 285–250 a.C., ele é considerado o mais antigo fragmento escrito conhecido da obra.

Encontrado no Egito em 1902 e pertencente ao Met desde 1909, o papiro possui apenas 19 centímetros e preserva versos do Canto XX, quando Odisseu já retornou secretamente a Ítaca e se aproxima do confronto com os pretendentes que ocuparam seu palácio.

Mas o que realmente torna o documento extraordinário é outra coisa: ele contém três versos que não aparecem na versão da Odisseia que chegou até nós

Isso não significa que tenhamos descoberto um trecho perdido capaz de mudar a história de Odisseu. A explicação está provavelmente na própria origem do poema. Antes de se transformar em um texto relativamente estável, a Odisseia pertenceu durante séculos a uma tradição oral. Poetas recitavam essas histórias, e diferentes versões podiam apresentar acréscimos, omissões e variações. O papiro do Met é uma testemunha material desse processo.

Quando aquele texto foi escrito no Egito, a Odisseia já tinha cerca de cinco séculos de existência. E não é coincidência que o fragmento tenha surgido no Egito ptolomaico. Na mesma época, Alexandria havia se tornado um dos maiores centros intelectuais do mundo antigo. Seus estudiosos reuniam diferentes exemplares dos poemas homéricos e procuravam estabelecer versões mais consistentes dessas obras.

É importante, portanto, evitar o sensacionalismo. Não encontramos uma “nova Odisseia” nem um capítulo perdido de Homero. Encontramos algo historicamente talvez mais interessante: evidência de que um dos textos mais famosos da humanidade ainda apresentava variações séculos depois de sua composição.

Hoje abrimos um livro e imaginamos estar diante de um texto que atravessou quase três mil anos praticamente imóvel. A realidade é muito mais fascinante. Entre nós e Homero existe uma enorme cadeia formada por bardos, escribas, papiros, bibliotecas, estudiosos, copistas medievais, editores e tradutores.

Odisseu levou dez anos para retornar a Ítaca. A Odisseia, ao que parece, teve uma viagem ainda mais longa.

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