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Antigamente, para escolher uma padaria, bastava saber se o pão era bom, se o preço era razoável e se o dono não tinha o hábito de vender como saindo do forno o que tinha sido feito ontem. Depois das eleições, porém, há quem só compre depois de saber em quem o padeiro votou.
A recente onda de boicotes a estabelecimentos comerciais identificados com apoiadores de Lula é mais um capítulo da nossa interminável guerra política que fragmenta cada vez mais a sociedade. De um lado, listas de empresas a evitar e produtos a consumir. Por outro lado, acusações de intolerância e autoritarismo vindas como resposta de quem, em outras ocasiões, praticou o mesmo e até com mais entusiasmo.
Mas seria um erro reduzir a uma disputa sobre quem teria o direito de boicotar quem. O boicote não foi inventado pela direita, tampouco é exclusividade da esquerda. Trata-se de instrumento antigo de pressão social, política e econômica, que pode servir a causas muito diferentes. Algumas nobres, outras nem tanto.
Tampouco parece muito útil discutir se boicotar é, em si, certo ou errado. É tarde para isso no caso brasileiro. Mas talvez ainda haja tempo para refletir sobre o que acontece com uma sociedade quando a exclusão se transforma numa forma habitual de relacionamento com os outros.
A história e a arte oferecem algumas pistas.
Quando a recusa é uma virtude
Em dezembro de 1955, Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar a um passageiro branco num ônibus de Montgomery, no Alabama. Sua prisão ajudou a desencadear um boicote ao sistema municipal de ônibus que duraria mais de um ano e se tornaria um dos episódios decisivos do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.
A força moral daquele boicote não residia na recusa em si, mas na injustiça recorrente contra os negros causada por um sistema que os tratava como cidadãos inferiores. Diante disso, é difícil imaginar alguém acusando os participantes daquele boicote de intolerância. Esse exemplo demonstra por que não é possível condenar um boicote em princípio. As circunstâncias importam mais do que parece e muitas vezes o boicote é até mesmo uma obrigação moral.
Isso também permite enxergar uma distinção crucial que nos ajuda a entender a atual campanha por boicotes no Brasil: não é a intensidade da indignação que determina a justiça de uma causa. O fato de alguém considerar uma opinião, uma escolha ou uma postura abominável não significa que esteja diante de uma injustiça comparável à segregação racial. Tampouco o sentimento de ter sido ofendido transforma automaticamente uma discordância em violação de direitos.
Quando a arte se torna inimiga
É aqui que a discussão começa a ficar mais complexa.
Em 1988, Martin Scorsese lançou A Última Tentação de Cristo, adaptação do romance de Nikos Kazantzakis. O filme provocou protestos de grupos cristãos, que consideraram ofensiva a representação de Jesus. Houve campanhas de boicote e tentativas de impedir sua exibição.
Não é difícil compreender por que uma pessoa religiosa pode considerar uma obra ofensiva à sua fé. Muito menos seria razoável obrigá-la a comprar um ingresso para assistir ao filme. Ninguém tem obrigação de consumir uma obra que pareça contrariar suas convicções mais profundas. Ainda que a obra não faça isso de fato.
Mas há uma grande distância entre se recusar a assistir a um filme, convencer outros a fazer o mesmo e tentar impedir que ele seja exibido. As duas primeiras atitudes pertencem ao exercício da liberdade de expressão; a última restringe a liberdade alheia.
E quando o boicote artístico não é pela obra, mas pelas posições políticas de quem a produziu? Em 2003, durante um show em Londres, Natalie Maines, vocalista das Dixie Chicks, criticou o presidente americano George W. Bush, às vésperas da invasão do Iraque.
A reação foi impactante, com emissoras e rádios deixando de tocar suas músicas, protestos de fãs por todo lado e uma hostilidade crescente que pouco ou nada tinha a ver com seu trabalho artístico. Há um documentário sobre isso, Shut Up & Sing, de 2006, acompanhando as consequências daquela declaração e como as integrantes da banda lidaram com a pressão. Vale a pena conferir.
É possível reconhecer a qualidade de uma canção e, ainda assim, decidir não ouvi-la por razões morais ou políticas. Mas quando a identidade ideológica do artista passa a determinar a própria qualidade que atribuímos à obra, já não estamos fazendo um julgamento artístico, apenas conferindo a ficha ideológica de quem a produziu. A consequência é óbvia: não estamos mais ouvindo músicas, mas aliados. O mesmo vale para a literatura, o cinema, o teatro etc.
O gosto sob vigilância
Uma das características mais reveladoras da nossa época é a crescente dificuldade de separar a obra artística de seu autor. Naturalmente, a vida e ideias de um artista podem ser relevantes para a compreensão de sua obra. Em determinadas circunstâncias, também podem influenciar legitimamente nossa decisão de consumi-la ou financiá-la. Mas há uma diferença entre levar isso em consideração e transformá-lo em critério supremo de julgamento.
A arte nos oferece a possibilidade de conhecer experiências que não são nossas, compreender pessoas que não se parecem conosco e enxergar o mundo por perspectivas que talvez jamais adotássemos espontaneamente. Um romance ou filme não exige que concordemos com seus personagens e pode nos conduzir à compreensão de escolhas que continuaríamos a condenar na vida real. É justamente essa capacidade de ultrapassar os limites da nossa experiência imediata que torna a arte tão importante para a formação humana.
Quando exigimos que todas as obras confirmem nossas convicções, abrimos mão de uma parte essencial dessa experiência. Transformamos a cultura numa espécie de condomínio ideológico, onde só entram aqueles que já pensam como nós. Nesse ambiente, o gosto deixa de ser uma descoberta pessoal e passa a funcionar como uma declaração de fidelidade a um grupo.
Em outras palavras, uma cultura mais pobre, sobretudo por nos acostumar a tratar a diferença como ameaça, não uma oportunidade de conhecimento. Já não nos perguntamos se tal obra merece nossa atenção, mas se podemos nos aproximar sem comprometer nossa reputação diante dos companheiros de trincheira.
A coragem de conviver
Em Invictus, Clint Eastwood retrata Nelson Mandela nos primeiros anos de sua presidência, quando a África do Sul acabara de encerrar o apartheid mas permanecia profundamente dividida.
O rúgbi, especialmente a seleção nacional, era identificado por muitos negros sul-africanos com a minoria branca e com a segregação racial. Seria compreensível que Mandela desejasse afastar aquele símbolo da vida nacional, mas fez o oposto, apostando que poderia servir como oportunidade de aproximação.
A Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, jogada no país, tornou-se, assim, uma ocasião para que pessoas separadas por décadas de ódio e hostilidade reconhecessem que tinham alguma coisa em comum. É evidente que isso não resolveu a divisão social, mas o gesto de Mandela recordou algo fundamental para a vida em sociedade: derrotar politicamente o adversário não pode significar sua destruição.
É necessário encontrar uma maneira de continuar convivendo e isso exige uma disposição que pode ser ainda mais difícil do que a coragem de boicotar, que é reconhecer valor em algo que pertence ao universo do outro. Mandela mostrou que a sociedade não pode existir apenas como a soma dos grupos empenhados em destruir os símbolos uns dos outros. A convivência exige algo que o boicote, por mais legítimo que seja, não consegue oferecer por sua própria natureza: a descoberta de um bem compartilhado.
O que ainda podemos compartilhar?
Voltemos à nossa padaria.
Não há nada de errado em decidir onde gastar o próprio dinheiro. Nossas escolhas de consumo não estão isoladas de nossas convicções e seria absurdo exigir que estivessem. Também não há motivo para considerar ilegítima toda campanha pública que procure convencer consumidores a deixar de financiar determinada empresa ou atividade.
Mas deveríamos ser capazes de distinguir entre combater uma prática injusta e simplesmente desejar que uma pessoa sofra prejuízos porque pensa de maneira diferente, ainda que defenda suas ideias de forma estúpida.
Rosa Parks nos recorda que há situações em que a justiça exige a recusa. Os boicotes artísticos nos mostram como essa recusa pode se transformar numa tentativa de punir a divergência. E Mandela nos ensina que a superação de um conflito também depende da capacidade de acolher aquilo que, até ontem, parecia pertencer exclusivamente ao inimigo.
A pergunta que fica, portanto, não é sobre o boicote, mas sobre o que ainda somos capazes de compartilhar com aqueles de quem discordamos. Podemos escolher de quem comprar o pão. O difícil é construir e manter uma sociedade quando já não aceitamos sequer nos sentar à mesma mesa.




