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Contas públicas

A conta que espera o próximo presidente: dívida em alta, juros e pouco espaço para gastar

Ajuste fiscal próximo presidente
Ilustração dos principais presidenciáveis: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) (Foto: Imagem criada utilizando Dall-E/Gazeta do Povo)

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O presidente da República eleito em outubro encontrará uma economia com pouco espaço para errar: a dívida bruta do governo pode chegar a 88% do PIB em 2027, enquanto a taxa de juros, atualmente em 14%, deve permanecer em dois dígitos.

Para gestores e analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o principal desafio da próxima administração será conter essa trajetória por meio de um ajuste fiscal. Sem isso, as consequências tendem a ser graves: juros elevados, crédito mais caro e um estrangulamento ainda maior de famílias e empresas.

O diagnóstico do mercado é de que o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido marcado pela ampliação dos gastos públicos e pelo endividamento acelerado. Desde o início do atual mandato de Lula, a dívida bruta avançou 10,3 pontos percentuais.

Novos recordes devem vir já no próximo ano. O BTG Pactual prevê a dívida em 86,4% do PIB no fim de 2027; a XP Investimentos, em 88%. Se nada for feito, o patamar de 100% pode ser atingido em 2032, estima Olívia Flôres de Brás, presidente da Magno Investimentos. A Instituição Fiscal Independente (IFI), braço do Senado que acompanha as contas públicas, prevê o mesmo nível para 2031.

É sobre esse pano de fundo que a sucessão presidencial entra em campo: as pesquisas indicam disputa acirrada entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro.

Mercado cobra ajuste fiscal do próximo governo

"O primeiro teste ocorrerá antes mesmo dos cem dias de governo", diz Fábio Murad, sócio-fundador da Ipê Avaliações. Ele destaca que investidores e agentes econômicos observarão se existe estratégia capaz de sinalizar sustentabilidade fiscal.

Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, pondera que o impacto de uma eventual reeleição de Lula dependerá das decisões concretas sobre orçamento, tributação e instituições, e não do tom do discurso.

O mercado acompanhará de perto a composição da futura equipe econômica e o compromisso real com as metas fiscais. Novas receitas temporárias ou manobras contábeis que contornem o arcabouço fiscal em vez de respeitá-lo não devem acalmar os investidores, segundo fontes ouvidas pela Gazeta do Povo.

Economia perde força com o fim dos estímulos

Não é apenas no front fiscal que o próximo governo encontrará dificuldades: a economia chega desaquecida. O ano de 2026 ainda se sustenta, com expansão real estimada entre 1,9% e 2,0% na comparação com 2025. O impulso vem do pesado gasto do Estado e do crédito subsidiado — estímulo artificial, não crescimento sustentável.

Mas analistas apontam que esse impulso tem prazo de validade. Para 2027, a XP estima crescimento de 1,0% e o BTG projeta 1,1%, reflexo do esgotamento do estímulo e da piora no mercado de crédito.

O problema é que o próximo governo poderá encontrar uma economia mais fraca justamente quando terá menos espaço para recorrer a gastos públicos e crédito subsidiado para estimular a atividade.

Juros altos encarecem crédito e dívida

A ausência de um ajuste fiscal nos últimos anos já se reflete no custo do dinheiro e será esse o cenário que o vencedor de outubro vai encontrar. Com as despesas do Estado em expansão, o Banco Central (BC) precisa manter juros elevados para conter a inflação. O descontrole das contas públicas aumenta o custo para o governo se financiar no longo prazo e encarece o crédito para empresas e famílias.

O boletim Focus divulgado no último dia 10 projeta a Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026 — o que implica mais um corte de 0,25 ponto percentual. Há, porém, instituições que não veem espaço para novas quedas.

Gustavo Bertotti, chefe de renda variável da Fami Capital, dimensiona o problema da falta de preocupação com o ajuste fiscal por parte do atual governo. Ele lembra que, em janeiro, se falava em 2026 encerrar com a Selic a 12% ao ano. "Agora, estamos falando em 14%", diz.

Dívida pública fica mais cara

O descontrole fiscal também pesa sobre a rolagem da dívida, o processo pelo qual o governo emite novos títulos para pagar os que vencem.

O Tesouro IPCA+ (título que rende a inflação mais uma taxa prefixada) com vencimento em maio de 2029 ilustra o salto: a taxa paga pelo governo passou de 6,26% ao ano em janeiro de 2023, início do atual mandato de Lula, para 8%, segundo o Tesouro Nacional.

A remuneração de outro papel, o Tesouro IPCA+ 2035, saltou de 6,14% para 7,98% ao ano no mesmo intervalo. Quando começou a ser negociado, em março de 2010, a taxa ofertada era de 6,23%.

Juros altos apertam famílias e empresas

O ambiente de juros elevados também chega às famílias. O consumo, âncora do PIB brasileiro, vem perdendo força, enquanto o custo do crédito pesa cada vez mais no bolso.

As linhas às pessoas físicas seguem caras: a taxa média das operações chegou a 64% ao ano em junho, o maior nível desde março de 2017, aponta o Banco Central.

Em operações sem garantia, o quadro é ainda mais severo: no rotativo do cartão, a modalidade mais cara do mercado, a taxa atingiu 442,4% em junho, também segundo o Banco Central.

O endividamento cresce: 82% das famílias tinham alguma dívida a vencer em julho de 2026, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), representando o recorde da série histórica.

Os juros altos também contribuíram para o salto de 21,7% no número de empresas em recuperação judicial — instrumento que protege companhias em dificuldade contra a falência — na comparação entre os segundos trimestres de 2025 e 2026. Os dados são da RGF Associados, consultoria especializada em reestruturação corporativa.

A persistência do aperto monetário começa a cobrar preço sobre o emprego. O custo do capital adia planos de expansão e modernização das empresas.

A taxa de desemprego ainda está em patamares baixos — 5,4% na média do trimestre encerrado em junho de 2026, segundo o IBGE. Mas o efeito defasado do crédito caro e a desaceleração da atividade devem reverter essa tendência. Bradesco e Itaú veem a taxa em 6,1% no próximo ano, enquanto a XP projeta 6,5% até o fim de 2027.

Dólar pode ampliar a pressão sobre a economia

Os juros altos e a deterioração fiscal não corroem apenas o bolso e o emprego, mas atingem também a moeda. Até agora, o real se mantém resiliente, negociado em torno de R$ 5,20 por dólar. Sustentam a moeda o robusto superávit comercial, impulsionado pela exportação recorde de commodities como o petróleo, e o forte ingresso de investimentos diretos.

Em tese, juros altos atraem investidores estrangeiros e ajudam a valorizar o real. Mas o risco fiscal pode anular esse efeito: diante da piora das contas públicas, investidores passam a exigir uma remuneração maior para colocar dinheiro no país, pressionando o dólar para cima. As projeções para o fim de 2027 refletem essa tensão: o Focus estima o câmbio a R$ 5,28 por dólar, mas o BTG Pactual e o Itaú sinalizam R$ 5,50.

É esse cenário que estará à espera do próximo presidente: uma dívida crescente, juros elevados, crédito caro e uma economia com menos espaço para novos estímulos. Para o mercado, o ajuste fiscal será o teste decisivo para impedir que a deterioração das contas públicas continue contaminando o restante da economia.

Apesar disso, nem todos os presidenciáveis têm abordado o tema em seus planos de governo. O próprio presidente Lula não detalha nenhuma medida concreta de redução de despesas em seu programa econômico para a disputa eleitoral deste ano, embora o documento defenda, genericamente, o “controle do aumento do gasto primário”.

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