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José Mainheriche, o “Zé da Banca”, já vendia jornais e revistas havia 16 anos quando, em 2003, a família assumiu a Revistaria e Papelaria Alto da XV, em Curitiba. Naquele começo, as publicações respondiam por cerca de 80% do faturamento. Hoje, representam menos de 5%.
A loja continua aberta porque mudou junto com o mercado. Itens de papelaria ganharam espaço, assim como brinquedos, produtos de conveniência e colecionáveis. As figurinhas se tornaram uma atração à parte. Na última Copa do Mundo, álbuns e cromos aumentaram as vendas em mais de 60% durante cerca de três meses.
A história do negócio de José mostra como as mudanças no consumo atingem o comércio de rua de formas diferentes. No caso de bancas e revistarias, o mercado de publicações impressas perdeu espaço ao longo de mais de uma década, reduzindo a procura pelo produto que antes sustentava essas lojas.
Em outros setores, o problema é diferente. Consumidores continuam comprando roupas, móveis, eletrodomésticos ou eletrônicos, mas a necessidade de uma loja para chegar até esses produtos é consideravelmente menor. Quanto mais fácil for escolher e fechar a compra por outros canais, menor tende a ser a vantagem do ponto físico.
É uma mudança que se soma aos custos e às dificuldades que o comércio de rua já enfrenta. Como mostrado pela Gazeta do Povo, as lojas físicas estão sendo pressionadas por uma mudança estrutural no comportamento do consumidor. Em cinco anos, o faturamento do comércio eletrônico brasileiro cresceu 86,3%, enquanto manter uma loja física ficou mais caro e o orçamento das famílias passou a ser pressionado pelo endividamento.
Alguns segmentos, entretanto, contam com uma proteção importante: o consumidor ainda quer ter contato com o produto antes de decidir (veja, na reportagem, o infográfico com o grau de vulnerabilidade de cada segmento).
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Quanto menos a loja faz diferença, maior o risco
Livros ajudaram a abrir caminho para o comércio eletrônico ainda nos anos 1990. A Amazon começou a vender livros pela internet em 1995 e só depois avançou para outras categorias.
Naquela época, seria bem menos comum imaginar roupas, calçados ou perfumes ocupando o espaço que têm hoje nas compras online, já que são produtos em que o contato direto parecia impor uma barreira maior à venda pela internet.
É esse peso da experiência antes da compra que Maurício Morgado, professor da Fundação Getulio Vargas e coordenador do Centro de Excelência em Varejo (FGVcev), usa como uma das referências para avaliar quais segmentos do comércio de rua estão mais vulneráveis ao avanço das compras online.
Na classificação dele, livrarias e bancas de jornais e revistas estão entre os segmentos mais vulneráveis na crise do comércio de rua. Papelarias, eletrônicos e eletrodomésticos aparecem em uma faixa intermediária, enquanto móveis, vestuário e calçados têm risco menor.
“O que mais dificulta os negócios de venderem online é a necessidade de ver e experimentar o produto. A tecnologia e a confiança que se criou, particularmente com as devoluções facilitadas, as simulações e a quantidade de informação disponível, reduziram um pouco esse medo”, afirma Morgado.
Para Tiago Bezerra, sócio-líder do segmento de varejo da Forvis Mazars no Brasil, a diferença está, principalmente, em quanto a tecnologia consegue diminuir a vantagem da experiência presencial.
“Há alguns anos, segmentos como beleza, vestuário e calçados pareciam naturalmente mais protegidos, porque havia uma forte dependência da experiência física: provar uma roupa, experimentar um calçado, sentir a fragrância de um perfume ou perceber a textura de um tecido. A tecnologia, entretanto, vem reduzindo progressivamente essas barreiras e aproximando cada vez mais a experiência digital da experiência física”, diz Bezerra.

Lojas de determinados segmentos podem perder relevância
Vestuário, calçados, eletrônicos, informática e pequenos eletrodomésticos estão, também, entre os segmentos do comércio de rua que sentem mais a disputa com as vendas online, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Neles, o consumidor encontra mais facilidade para comparar preços e comprar sem passar pela loja.
Nos eletrônicos e eletrodomésticos, há outra mudança possível. A loja pode continuar importante para conhecer o produto, mas deixar de ser, necessariamente, o lugar em que a compra termina.
“As lojas físicas podem funcionar como uma espécie de showroom, com as pessoas fechando as compras online. No caso dos eletrodomésticos, existe também a possibilidade de os fabricantes venderem diretamente para o consumidor final. Depois que você conhece o produto, facilmente pode fazer a compra online”, diz Morgado.
Ele avalia que eletrodomésticos, eletrônicos e móveis podem precisar de menos lojas no futuro. Os produtos continuarão sendo comprados, mas o consumidor pode depender menos de uma rede extensa de pontos físicos.
Supermercados e farmácias estão em outra posição. Bezerra os considera os menos vulneráveis entre os setores analisados, principalmente pela frequência das compras e pela necessidade, muitas vezes, imediata. Morgado os coloca em uma faixa intermediária e ressalta que o avanço da tecnologia pode mudar essa situação.
No caso das farmácias, essa mudança já aparece sem eliminar a importância da loja. Um levantamento da Zetti Brasil com 1.600 estabelecimentos mostrou alta de 14,7% na receita das vendas online no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. O número de transações digitais cresceu 12,3%.
O dado mostra que os dois canais podem avançar ao mesmo tempo: a internet ganha espaço sem tornar desnecessária uma farmácia próxima ao consumidor.
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Ter uma loja online não resolve tudo
Levar parte das vendas para o digital não exige o mesmo esforço de todos os varejistas. Bezerra avalia que o pequeno comércio enfrenta mais dificuldade, principalmente, porque tem acesso mais limitado a crédito e financiamento.
Para Morgado, uma operação digital mais avançada traz outro desafio: fazer a loja e os canais online funcionarem de forma integrada. Se o consumidor compra pela internet e escolhe retirar no estabelecimento, por exemplo, o estoque mostrado no site precisa corresponder ao que está disponível ali.
“Simplesmente criar um e-commerce não resolve problemas de rentabilidade. A operação digital também possui custos relevantes de tecnologia, marketing, logística, entrega e devoluções. O importante não é apenas adicionar um novo canal de venda, mas fazer com que os canais trabalhem juntos de maneira rentável”, afirma Bezerra.



