
Ouça este conteúdo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e aliados torceram para que os embates no campo da direita culminassem na escolha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como candidato à Presidência. No cálculo político do entorno do petista, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro seria um adversário mais fácil de enfrentar na tentativa de conquistar o quarto mandato.
O cenário observado há pouco mais de dois meses depois do início oficial da campanha, no entanto, é de uma disputa acirrada, com pesquisas mostrando alternância de liderança entre os dois candidatos no primeiro e no segundo turnos.
Uma sucessão de acontecimentos contribuiu para o desgaste de Lula, apesar das facilidades de deter, como presidente, a “caneta decisória” e de o PT conhecer profundamente a máquina de reeleição.
A ideia inicial de transformar a eleição em uma comparação entre os governos Lula e Bolsonaro, ao lado do mote da soberania, foi sendo ajustada ao longo dos meses, à medida que a campanha foi sendo permeada por más notícias na economia, corrupção e atritos em torno do seu comando.
Com participação cada vez mais ativa e controversa da primeira-dama, Janja da Silva, a agenda incluiu a tentativa de minimizar o envolvimento de seu filho, Fábio Luiz da Silva, o Lulinha, em casos de corrupção. Além disso, foi preciso administrar a crise institucional provocada pelas revelações do Banco Master e reforçar medidas populistas econômicas, num cenário de desalento da população.
Na reta final do primeiro turno, o clima é de vale-tudo. Lula chega sob o risco real de ficar atrás de seu adversário e de partir em desvantagem para o pleito decisivo, sob pressão da possibilidade de encerrar sua trajetória política com uma derrota eleitoral.
Última semana foi marcada por Nossa Senhora e “toque”
A última semana de campanha termina sob o impacto do uso, por Lula, de uma fake news sobre Nossa Senhora Aparecida, que associou Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à retirada do título de Padroeira do Brasil da santa. O boato, baseado na associação indevida do candidato a um projeto de lei arquivado há quase duas décadas e de autoria de outro parlamentar, viralizou nas redes e acabou sendo explorado pela campanha de Lula na tentativa de atingir Flávio entre o eleitorado católico.
O episódio foi comemorado no entorno petista como uma reação ao avanço do adversário na semana anterior e abriu uma nova frente de disputa em torno de religião e costumes nessa reta final. Em resposta, porém, mais um deslize de Lula passou a ser explorado pelos adversários e incorporado à guerra política.
Durante um comício em Belém, no Pará, em 28 de setembro, o presidente falava sobre a resistência dos homens ao exame de próstata quando afirmou que “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas”. A frase infeliz, segundo a justificativa dada por Lula depois, se referia à rotina de exames preventivos femininos e à disposição das mulheres para fazer exames como esses. O trecho, porém, passou a ser associado nas redes a abuso sexual infantil.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) entrou na ofensiva, explorou a fala nas redes e levou o episódio para o palanque. Lula reagiu chamando-o de “canalha”, e Janja saiu em defesa do marido, xingando o deputado. A campanha de Lula acionou o TSE contra as publicações do deputado. A reação ganhou dimensão, com uma enxurrada de menções nas redes.
VEJA TAMBÉM:
Improvisos, deslizes e gafes permearam a campanha
Não foi a primeira vez que os improvisos de Lula criaram problemas para a campanha. Ele acumula uma sequência de gafes e lapsos ao longo do período, todos com grande repercussão nas redes. Em Belo Horizonte, em 29 de agosto, confundiu Janja com a ex-mulher, Marisa Letícia, ao dizer que havia “perdido a Janja depois de 45 anos de casado”. Menos de três semanas depois, voltou a trocar os nomes durante um comício em Guarulhos, em 18 de setembro, desta vez ao comentar um jogo do Corinthians. Foi o terceiro lapso do gênero registrado desde o início do ano.
No mesmo ato de Belo Horizonte, Lula havia provocado outra polêmica ao falar dos garis. Disse que trabalhar como lixeiro era uma profissão “muito pobre”, que não dava orgulho e que era algo para quem “não pôde estudar”, contrapondo a atividade às profissões de engenheiro e médico. O trecho viralizou e foi explorado pelos adversários.
Os episódios se somaram e passaram a alimentar, dentro da própria campanha, a preocupação com o excesso de improviso do presidente.
Nesta última semana, contudo, as gafes dividiram espaço com o caso Lulinha, a partir de novos desdobramentos das investigações sobre as relações do filho do presidente com a lobista Roberta Luchsinger.
Documentos encontrados pela Polícia Federal no celular da empresária, divulgados nesta terça-feira (29), apontaram que ela teria organizado e bancado uma viagem de luxo de Fábio Luís Lula da Silva e familiares pela Europa, em janeiro de 2025, com orçamento de R$ 1,868 milhão. A defesa de Lulinha classificou o vazamento como seletivo e afirmou que dados descontextualizados estavam sendo usados para criar ilações e narrativas falsas.
Lulinha tem sido o "fantasma" desde o início
O caso já havia deslocado a eleição para o terreno da corrupção, esvaziando a estratégia de comparação entre os governos. Levantamento da Arko Advice divulgado em setembro apontou que a corrupção havia se tornado o segundo principal problema citado pelos eleitores, atrás apenas da violência.
Lula precisou administrar os impactos do caso desde os primeiros dias do período eleitoral. As investigações sobre Lulinha e Roberta Luchsinger, originadas em elementos da Operação Sem Desconto, passaram a apurar suspeitas de corrupção e tráfico de influência em negócios envolvendo o governo federal.
Ao longo da campanha, mensagens apreendidas pela PF revelaram a atuação de Roberta para abrir portas em ministérios e a proximidade de Lulinha com as articulações. A investigação também alcançou Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, que recebia demandas da lobista e, segundo a PF, teve cerca de R$ 217 mil em despesas pagas por ela.
Marcola havia deixado o Palácio do Planalto em julho justamente para trabalhar pela reeleição, mas, depois que vieram a público as transações financeiras com Roberta, deixou a equipe eleitoral. Mesmo assim, a revelação levou o caso à antessala do Planalto.
Lula sempre negou qualquer relação pessoal ou política com Roberta e, ao mesmo tempo, afirmou que as investigações deveriam prosseguir. Na sabatina do Jornal Nacional, em 27 de agosto, disse não conhecer a lobista e que ela nunca havia estado perto dele. A existência de fotografias dos dois juntos, divulgadas pela própria Roberta, transformou a resposta em um novo problema para a campanha.
O presidente passou a afirmar que Lulinha deveria responder se houvesse cometido algum crime. Em 15 de setembro, disse que o filho “não tem proteção” e que, se tiver culpa, “vai pagar”.
Mote da soberania perde força ante corrupção e economia
Lula fez reiteradas tentativas para deslocar o debate para outros terrenos além da corrupção. A reação ao tarifaço de Donald Trump abriu espaço para que o petista transformasse a soberania nacional em um dos principais motes eleitorais, apresentando o presidente como defensor dos interesses brasileiros diante dos Estados Unidos.
O discurso ganhou espaço no 7 de Setembro e voltou a aparecer na viagem de Lula a Nova York, para a Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro. Na ocasião, ele voltou a atacar Trump e a associar a eleição brasileira à defesa da soberania e da democracia. Também tentou apresentar Flávio como alguém ligado a interesses estrangeiros. Falou como candidato diante dos representantes das Nações Unidas e tentou enaltecer conquistas da política doméstica.
A dificuldade estava em manter esse roteiro quando a própria campanha era obrigada a responder diariamente a novos fatos. A análise da Arko Advice mostrou que, pela primeira vez desde 1998, um presidente candidato à reeleição não havia melhorado sua popularidade durante a campanha.
Em 10 de setembro, uma reunião da Executiva Nacional do PT determinou à campanha apostar mais diretamente nos ataques a Flávio. O diagnóstico interno era de que a campanha não estava conseguindo despertar entusiasmo nem reconhecimento pelas realizações do governo.
VEJA TAMBÉM:
Economia: bondades e vale-tudo para mudar percepção do eleitor
A percepção negativa da economia foi dificultando a vida de Lula e da campanha. Os indicadores macroeconômicos positivos em algumas áreas não se refletiram no dia a dia das famílias.
Em setembro, 49% dos entrevistados pela Quaest diziam que a economia havia piorado, ante 43% em janeiro, enquanto a parcela dos que afirmavam ter muitas dívidas subiu de 21% em julho para 28%. A preocupação com a economia também passou de 12% para 19% no período.
O problema, segundo os dirigentes da campanha, era que as medidas adotadas pelo governo ao longo do ano não estavam produzindo o efeito político esperado. Em julho, antes da última rodada de anúncios, o pacote de bondades já mobilizava mais de R$ 180 bilhões, distribuídos em 16 medidas. O levantamento incluía linhas de crédito subsidiado, aportes em fundos públicos, desonerações e programas de renegociação de dívidas.
A reação de Lula foi concentrar ainda mais a campanha em medidas de apelo direto ao bolso do eleitor. Em reunião com eleitoras, o presidente ouviu justamente reclamações sobre o custo de vida, o que ajudou a acelerar o reajuste do Bolsa Família e a discussão de novas medidas para combustíveis, endividamento e bets.
A ofensiva ganhou força quando Flávio Bolsonaro passou a explorar na propaganda o endividamento e a inflação percebida nos supermercados. Lula respondeu com uma sequência de anúncios nas duas semanas que antecederam o primeiro turno.
Em 17 de setembro, o governo anunciou reajuste de 15,04% do Bolsa Família, elevando o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 e o valor médio de R$ 675 para R$ 777. No mesmo dia, Lula defendeu que as chamadas canetas emagrecedoras fossem oferecidas gratuitamente pelo SUS.
Na sequência veio a ofensiva contra as bets. A proibição das apostas on-line retira uma fonte de arrecadação que estava prevista nas contas do governo: segundo cálculo da Folha, seriam R$ 1,5 bilhão a menos em receitas em 2026 e outros R$ 5,3 bilhões previstos para 2027 entre tributação e fiscalização.
Ao mesmo tempo, o governo lançou o Desenrola 3.0, autorizando a União a comprar carteiras de dívidas com desconto de pelo menos 90%, com até R$ 15 bilhões em recursos públicos e potencial para renegociar até R$ 150 bilhões em dívidas.
A ofensiva tem se estendido até os últimos dias da campanha. Nesta terça-feira (29), o governo anunciou novas rodadas de renegociação de dívidas para MEIs, pessoas físicas, produtores rurais e empresas, embora sem estimativa de impacto fiscal divulgada. Com as medidas de setembro, o levantamento da Folha elevou para R$ 215,6 bilhões o volume de recursos mobilizados pelas ações anunciadas pelo governo em ano eleitoral.
Nesta quarta-feira, a campanha lançou outra jogada de marketing contra Flávio. Depois que o candidato do PL confirmou a ida ao debate da Rede Globo, nesta quinta-feira (1º), o petista anunciou que não participará do evento. O presidente, contudo, dará entrevista no mesmo horário ao podcast Flow, evitando o ataque dos adversários e ganhando um palanque próprio a apenas três dias da votação de primeiro turno, no próximo domingo (4).
Metodologia da pesquisa citada:
Quaest: 2.004 entrevistados entre 30 de agosto e 1º de setembro de 2026, em todo o país, por meio de entrevistas presenciais com eleitores de 16 anos ou mais. A pesquisa foi contratada pela Globo em parceria com o jornal O Globo. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BR-07065/2026.




