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Apesar do Estado

Do cheque especial aos negócios bilionários: como Flávio Augusto chegou ao topo

Flávio Augusto empresário
O empresário Flávio Augusto, fundador da escola de inglês Wise Up e do grupo educacional Wiser (Foto: Reprodução/Youtube/Brunet Cast)

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Quem olha hoje para o tamanho da escola de inglês Wise Up e do grupo educacional Wiser talvez não imagine os desvios de rota, as apostas arriscadas e os recomeços que levaram Flávio Augusto, hoje com 54 anos, a construir uma fortuna bilionária e se tornar um dos empresários brasileiros mais conhecidos.

Antes das grandes transações, havia um jovem de classe média baixa que atravessava o Rio de Janeiro de ônibus para vender cursos de inglês, usando telefones públicos para prospectar clientes.

A estabilidade profissional e financeira, naquela época, era o caminho desejado. Aos 13 anos, Flávio começou a se preparar para o Colégio Naval, caminho que poderia levá-lo à carreira militar. Entrou, permaneceu dois anos e acabou expulso. Em entrevista à Forbes Brasil, resumiu o período dizendo que era “indisciplinado, inquieto, insubordinado”. Anos mais tarde, transformaria a experiência em um mantra: a estabilidade, para ele, não existe.

De volta à escola pública, ingressou em Ciência da Computação na Universidade Federal Fluminense, mas a faculdade ficou pelo caminho. As vendas, inicialmente uma forma temporária de ganhar dinheiro, ocuparam o centro da vida profissional. No setor de idiomas, avançou até chegar à diretoria comercial aos 23 anos, mas decidiu abandonar a posição e apostar no próprio negócio.

** Esta matéria faz parte da série de reportagens Apesar do Estado, da Gazeta do Povo, que retrata a trajetória de grandes empresários brasileiros que venceram os desafios de empreender em um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo. Confira outros textos da série neste link.

Uma aposta arriscada no cheque especial

Em 1995, Flávio Augusto e a esposa recorreram a R$ 20 mil do cheque especial, com juros que chegavam a 12% ao mês, para montar a primeira escola da Wise Up. O dinheiro mal cobria reforma, aluguel e a contratação da equipe inicial. Havia ainda um detalhe: o fundador de uma escola de inglês não falava inglês. Sua especialidade estava nas vendas e na leitura de mercado, enquanto a parte acadêmica ficou a cargo de profissionais contratados.

A aposta tinha uma tese. Com a abertura da economia brasileira e a chegada de multinacionais, Flávio enxergou um público que precisava se comunicar em inglês para avançar profissionalmente e não queria esperar cinco ou sete anos. Propôs, então, um programa de 18 meses, rompendo com o padrão do setor.

O cheque especial se tornou uma das histórias mais repetidas de sua carreira, mas o próprio Flávio trata o caso com ressalva. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ainda em 2014, sobre o que diria a alguém disposto a repetir a estratégia, respondeu que não aconselharia ninguém a fazer o que fez. “Tecnicamente é desaconselhável.”

No primeiro ano, a unidade chegou a mil alunos. Oito meses depois, abriu uma filial na Avenida Paulista. Em três anos, a operação somava 24 escolas próprias e mais de mil funcionários. O modelo de franquias veio em 2000 e a rede alcançou 396 unidades antes de ser vendida.

Flávio Augusto históriaO empresário Flávio Augusto, fundador da escola de inglês Wise Up e do grupo educacional Wiser (Foto: Reprodução/Youtube/Flow Podcast)

Da aquisição de time de futebol à recompra do próprio negócio

A expansão não eliminou os tropeços. Em 2008, já com patrimônio acumulado, Flávio Augusto sofreu uma perda financeira fora da Wise Up. O empresário mantinha uma posição alavancada na Bolsa de Valores e perdeu cerca de R$ 12 milhões durante a crise financeira, de um patrimônio que então estimava em R$ 15 milhões.

Em 2013, vendeu a Wise Up para a Abril Educação por R$ 877 milhões. A carga de trabalho, que chegava a cerca de 60 horas semanais, caiu drasticamente, mas a ideia de desacelerar duraria pouco.

Morando nos Estados Unidos, o empresário começou a acompanhar o filho nos treinos de futebol. A arquibancada, entretanto, virou observatório de mercado. Ele percebeu a quantidade de famílias envolvidas com o esporte, estudou a expansão do “soccer” e enxergou uma oportunidade onde não havia planejado investir.

Em poucos meses, Flávio adquiriu o Orlando City, clube de futebol da Flórida que posteriormente passou a disputar a Major League Soccer (MLS), a principal liga de futebol dos Estados Unidos. Em 2021, o clube foi vendido à família Wilf por uma quantia estimada pelo mercado entre US$ 400 milhões e US$ 450 milhões.

Dois anos após se desfazer da Wise Up, Flávio recomprou a companhia por cerca de R$ 390 milhões. Segundo contou à Forbes, a empresa estava menor, o EBITDA havia caído e a inadimplência chegara a 42% após uma mudança da cobrança por cartão para boleto. Nos dois primeiros meses, afirmou ter aportado US$ 16 milhões para reerguer o negócio. Foram, segundo ele, três anos de trabalho para voltar a deixar a operação saudável.

Reação à crise da pandemia gera aumento de 5 vezes no número de alunos

Outro teste veio com a pandemia. A Wise Up tinha cerca de 400 escolas quando as restrições atingiram o ensino presencial. A companhia precisou acelerar uma transformação iniciada pouco antes, com uma plataforma online lançada em 2019.

Flávio Augusto recomendou a franqueados a devolução de imóveis e a migração para o digital quando ficou claro que a crise seria longa. Das cerca de 400 escolas, cem foram desativadas e parte das demais se converteu em franquias online. A base de alunos, segundo ele, saiu de aproximadamente 80 mil no início da pandemia para 400 mil depois da mudança.

A Wise Up passou a integrar a Wiser, grupo de educação que reúne diferentes marcas. Em janeiro de 2026, segundo números apresentados pela companhia ao Brazil Journal, a Wiser tinha mais de 500 mil alunos, faturamento de R$ 610 milhões e EBITDA de R$ 220 milhões.

O preço de empreender no Brasil

Uma das convicções mais presentes no discurso de Flávio Augusto é a de que empreender no Brasil exige lidar com custos e obstáculos que vão além da concorrência. Em entrevistas a veículos de imprensa e podcasts, o empresário costuma criticar o chamado “custo Brasil”, enfatizando a burocracia, a complexidade tributária, a ineficiência do Estado e as regras trabalhistas, que considera inadequadas à dinâmica das empresas.

A experiência nos Estados Unidos acrescentou um contraste. Ao tratar do Orlando City, Flávio costuma destacar fatores como governança e segurança jurídica do país norte-americano, que associa à previsibilidade necessária para investimentos de longo prazo.

Apesar disso, o empresário já classificou o Brasil como “um mercado extraordinário”, apesar dos entraves. Para ele, o país que encarece decisões também oferece escala, consumo e espaço para novos produtos.

Aos 54, Flávio Augusto ainda busca novos negócios

À Forbes, ainda em 2019, Flávio dizia que pretendia encerrar a carreira empresarial ao completar 50 anos e dedicar-se a projetos sociais. Chegou aos 50 e continuou.

Em 2026, voltou a falar em “última jornada”. A nova aposta é uma liga de negócios criada para aproximar empresários em grupos de mentoria e relacionamento. Em maio, o projeto somava 10,3 mil clientes ativos. O dado importa menos como vitrine do negócio do que como sinal de uma inquietação que atravessa três décadas: ele continua começando coisas novas.

Hoje, aos 54 anos, trata o trabalho como diversão. O rapaz que cruzava o Rio de ônibus querendo mudar de vida conquistou há muito tempo a possibilidade de parar. Até agora, escolheu continuar construindo.

* A assessoria de Flávio Augusto enviou informações à Gazeta do Povo, mas o empresário não concedeu entrevista.

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