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Entrada na Bolsa dá mais força a gigante chinesa e põe varejo brasileiro contra a parede

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Site da Shein: captação de bilhões pode reforçar expansão da gigante chinesa em meio ao crédito caro e à crise das empresas brasileiras (Foto: EFE/Olivier Hoslet)

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A abertura de capital da Shein, prevista para 1º de setembro, pode dar à gigante chinesa bilhões de dólares para ampliar sua presença no Brasil justamente quando o varejo nacional enfrenta uma crise marcada por juros elevados, crédito caro, consumidores endividados e dificuldades para financiar novos investimentos – o que tem levado uma série de grandes empresas à recuperação judicial.

A diferença de acesso ao capital pode ampliar uma distância que já existe. Para fontes ouvidas pela Gazeta do Povo, o resultado do IPO – quando uma empresa passa a vender ações ao mercado pela primeira vez – deve ser uma disputa ainda mais desigual por preço, variedade, tecnologia e rapidez na entrega.

A disputa ganha força em um mercado em que as plataformas chinesas já conquistaram espaço relevante. Empresas como Shein, Shopee e TikTok passaram a responder por 41,5% do e-commerce brasileiro em 2025, enquanto empresas tradicionais perderam participação de mercado. A expansão ocorre mesmo com o tíquete médio menor das plataformas asiáticas, compensado pela maior frequência de compras e por mecanismos de engajamento que mantêm o consumidor circulando pelos aplicativos.

“O IPO da Shein pode mudar consideravelmente a concorrência no varejo brasileiro, obrigando outras empresas eventualmente a se fundirem ou a se fortalecerem, uma vez que essa abertura de capital vai dar à empresa uma capacidade competitiva muito grande”, explica o professor de Economia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Odirlei Dal Moro.

O reforço no caixa da Shein, segundo o economista, pode ser utilizado em várias frentes capazes de ampliar a presença da companhia: distribuição, publicidade, produção local e atração de vendedores nacionais.

Para Dal Moro, os segmentos mais vulneráveis ao “efeito Shein” tendem a ser aqueles mais expostos ao comércio digital e aos produtos de baixo custo, como vestuário, calçados, acessórios e cosméticos.

Disputa desigual pelo consumidor

A economista Cristiane Mancini avalia que o principal problema para o varejo brasileiro é a diferença entre o custo de capital das empresas nacionais e a capacidade de investimento de uma companhia global que pode captar recursos no exterior.

“Para considerar fazer um investimento em publicidade, em engajamento, em digitalização, as empresas brasileiras não conseguem competir nesse sentido, porque a taxa de juros está extremamente alta, enquanto a Shein não passa por isso. Então é uma ameaça bastante considerável para as varejistas brasileiras”, afirma.

Como informaram várias empresas que solicitaram recuperação judicial recentemente, como Casas Bahia, Marabraz e grupo Toky, a alta taxa de juros brasileira, atualmente em 14%, foi o principal ponto para a deterioração financeira.

Competição brasileira com produção em escala e preços muito baixos

Além da crise do varejo brasileiro, as empresas nacionais enfrentam a dificuldade de competir com a escala de produção chinesa, encabeçada pela Shein. Tributos, regulação das importações e custos logísticos podem reduzir parte da vantagem competitiva das plataformas estrangeiras, mas não necessariamente impedir sua expansão.

“É muito difícil competir com uma indústria que consegue produzir em larga escala a um baixo custo unitário”, diz Dal Moro.

A Shein também já adotou estratégias para reduzir obstáculos no mercado brasileiro, com ajustes de preços, produção local, centros de distribuição e marketplace para vendedores nacionais. Um caixa maior após o IPO poderia ampliar esses investimentos e acelerar as entregas, aumentar a publicidade e reforçar a personalização das ofertas.

Para os especialistas, a saída para as empresas brasileiras tende a passar menos por uma guerra direta de preços e mais pela diferenciação: marca, qualidade, conhecimento do consumidor local, rapidez, integração entre lojas físicas e canais digitais e experiência de compra podem se tornar vantagens importantes.

Ruim para o varejo, bom para o consumidor

A pressão, contudo, pode ser benéfica para o consumidor, já que uma concorrência mais intensa pode resultar em preços menores, maior variedade e acesso a produtos antes pouco disponíveis no mercado nacional. “Pensando exclusivamente no consumidor, ele, sim, vai ter preço mais baixo, mais variedade e mais rapidez para fazer a sua compra”, afirma Dal Moro.

Cristiane, por outro lado, pondera que a facilidade de compra pode estimular gastos frequentes e ampliar o endividamento das famílias, que em julho alcançou o recorde histórico. “O consumidor brasileiro, sim, vai ser favorecido. Existe uma experiência muito melhor. No entanto, vai precisar ter muito cuidado com o maior endividamento da população”, alerta.

Para a especialista, no longo prazo o “efeito Shein” pode ir muito além de uma disputa entre uma plataforma chinesa e as grandes varejistas brasileiras. “Eu acredito que não será somente a entrada dela, o investimento, a expansão da marca no país, mas sim uma alteração completa da forma de se fazer negócio no varejo brasileiro”, finaliza.

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