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Apesar do pacote bilionário de medidas anunciado ao longo dos últimos meses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao primeiro turno das eleições, neste domingo (4), pressionado pela baixa aprovação de seu governo. Na tentativa de reeleição, o petista tem como principal adversário o senador Flávio Bolsonaro (PL), que consolidou sua candidatura na reta final da campanha.
Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (28) mostrou que 49% dos eleitores desaprovam o governo Lula, enquanto 46% aprovam. Na rodada anterior, realizada uma semana antes, a desaprovação era de 50%, e a aprovação, de 44%. Apesar da oscilação nos dois indicadores, a avaliação negativa permanece numericamente superior à positiva.
Apesar da avaliação negativa do governo, a Quaest mostra Lula na liderança da pesquisa de intenção de voto para o primeiro turno. O presidente aparece com 39%, enquanto Flávio Bolsonaro tem 34%. Quando a pesquisa simula uma disputa entre os dois no segundo turno, ambos aparecem empatados com 42%.
Dificuldade de Lula em melhorar avaliação é sinal de alerta
Na avaliação do cientista político Hilton Fernandes, pesquisador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP, a dificuldade de Lula em melhorar a avaliação de sua imagem e de seu governo chama atenção. Segundo ele, o período eleitoral historicamente funciona como um propulsor da aprovação de presidentes que buscam a reeleição.
“Em todas as eleições desde a redemocratização, a imagem e a avaliação de governo durante o período de campanha melhoram, mas isso não está acontecendo com Lula agora”, apontou.
Diante do cenário de desaprovação de Lula, a campanha de Flávio tem apostado no discurso de “voto útil” para tentar encerrar a disputa ainda no primeiro turno. Outras candidaturas de centro e centro-direita, como a do escritor Augusto Cury (Avante), a do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), a de Renan Santos (Missão) e a do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), somam, juntas, 12% das intenções de voto na pesquisa estimulada de primeiro turno da Quaest.
“Eu quero fazer um apelo aqui aos brasileiros que não me têm como primeira opção para presidente da República, que preferem votar em outro candidato. [...] Considere votar em Flávio Bolsonaro já no primeiro turno para a gente resolver essa parada logo no primeiro turno”, disse Flávio durante uma transmissão pelas redes sociais.
Pacote eleitoral bilionário não reverte avaliação de Lula
Ao longo de 2026, o governo Lula anunciou ou ampliou medidas com impacto estimado em R$ 411,2 bilhões. O conjunto inclui ações voltadas a diferentes setores da economia e grupos da população, com iniciativas de transferência de renda, habitação, crédito, redução de custos e estímulo à atividade econômica.
Entre os maiores valores estão o "Nova Indústria Brasil", com impacto de R$ 140 bilhões; o "Mover Brasil", de R$ 55,2 bilhões; o "Reforma Casa Brasil", de R$ 40 bilhões; e a desoneração do diesel, estimada em R$ 30 bilhões. A lista inclui a isenção do Imposto de Renda, com R$ 28 bilhões; a ampliação do "Minha Casa, Minha Vida", de R$ 24,8 bilhões; e o "Desenrola Brasil", de R$ 23,2 bilhões.
Na área social, o pacote reúne R$ 11,5 bilhões para o "Pé-de-Meia", R$ 5,8 bilhões para o adicional do "Bolsa Família" e R$ 5,1 bilhões para o "Gás do Povo". O governo também destinou R$ 11 bilhões ao "Programa Brasil contra o Crime Organizado" e R$ 15 bilhões ao "Plano Brasil Soberano 2.0".
A concentração de anúncios aumentou justamente nas semanas que antecederam a votação. Em setembro, faltando cerca de 15 dias para o primeiro turno, Lula reajustou o Bolsa Família, lançou o Desenrola 3.0 e proibiu as bets. O governo também avançou na promessa de oferecer as chamadas “canetas emagrecedoras” pelo SUS.
Entre as medidas adotadas durante o ano, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda era tratada pelo governo como uma das principais apostas para melhorar a popularidade. A mudança alcançou cerca de 16 milhões de brasileiros, mas não produziu o efeito esperado na avaliação do governo, levando Lula a recorrer a outras iniciativas ao longo do ano.
O pacote também teve impacto sobre as contas públicas. Nos dois últimos meses, a estimativa de despesas aumentou R$ 22,1 bilhões, enquanto a projeção de déficit efetivo para 2026 passou de R$ 52 bilhões para R$ 80,9 bilhões. Entre os fatores apontados estão a redução da expectativa de arrecadação e o aumento de despesas, incluindo subsídios para combustíveis e o reajuste do Bolsa Família.
Como explica João Gabriel Pio, economista da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), políticas de transferência de renda cumprem papel relevante na proteção das famílias mais vulneráveis. Ele, no entanto, avalia que o momento escolhido para o anúncio também levanta questionamentos sobre a relação entre a medida e o calendário eleitoral.
“Decisões fiscais tomadas com foco no curto prazo podem produzir consequências que permanecem muito além das eleições. Menos espaço fiscal significa maior pressão sobre a dívida e os juros e, consequentemente, menos investimento produtivo e menor geração de empregos. É preciso avaliar não apenas o efeito imediato de uma medida, mas também como ela será financiada no futuro”, explica.
Com palanques fragilizados, Lula tenta capitalizar votos no Sudeste
Diante das dificuldades eleitorais, Lula concentrou os últimos dias de campanha no Sudeste, região que reúne cerca de 40% do eleitorado brasileiro. Depois de passar pelo Norte e pelo Nordeste no início da semana, o petista programou caminhadas em Juiz de Fora e Belo Horizonte, em Minas Gerais, além de um ato no Rio de Janeiro e do encerramento da campanha em São Paulo.
Em Minas Gerais, a estratégia é tentar ampliar a vantagem numérica de Lula sobre Flávio. Por lá, pesquisa Quaest divulgada na terça-feira (29) mostra o petista com 35% das intenções de voto, contra 31% do senador. Com margem de erro de três pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados.
A escolha por Juiz de Fora também considera o palanque local. A cidade é administrada pela petista Margarida Salomão e foi a única entre as dez maiores cidades mineiras em que Lula venceu Jair Bolsonaro em 2022. Na sexta-feira (2), o presidente retornou a Belo Horizonte para outra caminhada. Ao todo, foram cinco compromissos de campanha de Lula em Minas durante o primeiro turno.
O estado, porém, apresenta dificuldades para o PT na disputa pelo governo. Segundo a mesma Quaest, Cleitinho Azevedo (Republicanos) lidera o primeiro turno com 37%, enquanto Patrus Ananias (PT) aparece com 18%. Alexandre Kalil (PDT) tem 9%, Mateus Simões (PSD), 6%, e Flávio Roscoe (PL), 5%. Apesar da candidatura própria do PL, há expectativa de que Cleitinho abra espaço para Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.
Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, a situação também exige atenção da campanha petista. A Quaest mostra Flávio com 36% das intenções de voto para presidente, contra 30% de Lula. Na disputa estadual, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparece com 44%, enquanto Fernando Haddad (PT) tem 24%.
O Rio de Janeiro apresenta cenário semelhante na disputa presidencial. Segundo a Quaest, Flávio registra 38%, contra 31% de Lula no estado. O petista também incluiu o Rio na agenda dos últimos dias de campanha, antes de encerrar os atos no sábado (3), com uma caminhada na Avenida Paulista.
“A escolha do próximo presidente está agora, portanto, nas mãos dos eleitores pendulares — aqueles sem posição ideológica que ora pendem para um candidato e ora para outro e que são muito sensíveis ao noticiário — e no perfil da abstenção no dia da eleição”, explica Beto Vasques, analista político e coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais (Labop).
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Metodologia das pesquisas citadas na reportagem
- Pesquisa Quaest nacional: realizada com 2.004 eleitores de 16 anos ou mais, entre 24 e 27 de setembro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Registro no TSE: BR-06520/2026.
- Pesquisa Quaest em Minas Gerais — disputa presidencial: realizada com 1.506 eleitores entre 25 e 28 de setembro. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Registro no TSE: BR-05155/2026 e MG-02019/2026.
- Pesquisa Quaest em São Paulo — disputa presidencial: realizada com 1.800 eleitores de 16 anos ou mais entre 25 e 28 de setembro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Registro no TSE: BR-05155/2026 e SP-01590/2026.
- Pesquisa Quaest no Rio de Janeiro — disputa presidencial: realizada com 1.302 eleitores entre 25 e 28 de setembro. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Registro no TSE: BR-03534/2026.







