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Quem são os jovens deputados

Os eleitos da “bancada dos influenciadores” estão prontos para o Congresso?

Deputado federal, Lucas Pavanato (PL-SP).
Efeito Nikolas: Lucas Pavanato bate recorde nas urnas em São Paulo, mas é criticado por campanha nas redes sociais. (Foto: Marcos Neves Jr./Divulgação Lucas Pavanato)

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A “bancada de influenciadores” da Câmara dos Deputados — composta por nomes da direita à esquerda, como Nikolas Ferreira (PL-MG), André Fernandes (PL-CE), Kim Kataguiri (Missão-SP), Erika Hilton (PSOL-SP) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP) — receberá um reforço multipartidário a partir de 2027. No primeiro turno deste ano, os eleitores brasileiros elegeram jovens candidatos que fizeram das redes sociais a base política para a campanha ao Congresso Nacional. 

A maioria dos novos deputados da bancada digital tem menos de 30 anos, mais de 1 milhão de seguidores e posicionamentos com potencial para engajamento nos meios digitais. Um dos mais jovens é o vereador curitibano Guilherme Kilter (Novo-PR), 24 anos, que foi o segundo candidato a deputado federal mais votado do Paraná, com quase 270 mil votos.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Kilter defendeu a renovação política e lembrou que a média de idade na Câmara de Curitiba caiu 10 anos em 2024, quando o candidato do Novo foi o terceiro mais votado na capital. No ano seguinte, ele assumiu o cargo como o vereador mais jovem da história da cidade.

“Estamos vendo o resultado de um movimento que aconteceu a partir de 2018, com a vitória do ex-presidente Jair Bolsonaro e o efeito Nikolas Ferreira, o primeiro jovem de direita no Congresso, representando a juventude também nas redes sociais”, afirmou.

Para ele, a eleição do ex-presidente Bolsonaro ainda é um paradigma na política nacional, pois “mostrou a força das redes sociais” em contraponto ao modelo tradicional da propaganda no rádio e na televisão. “O rótulo é o de menos: ser influenciador ou ser criador de conteúdo. O importante é que a gente fala o que as pessoas pensam, representa o que elas acreditam e está disposto a defender esses valores lá no Congresso”, disse o deputado eleito, integrante do “Bloquinho do 22”, que participa dos atos de campanha de Flávio Bolsonaro (PL) na reta final do segundo turno.           

Questionado sobre as críticas pela falta de experiência e pelo uso excessivo das redes sociais, o vereador respondeu que apresentou mais de 50 projetos em menos de dois anos de legislatura, com aprovação de leis de mobilidade urbana e de utilidade pública, como o “alerta tempestade” na capital paranaense. 

“A velha política não tem o que falar e acusa a gente de fazer ‘videozinho’ e ‘dancinha’, o que não é verdade. É uma forma de tentar desqualificar a nossa forma de comunicação. A velha política depende do ‘toma lá, dá cá’, das emendas e da troca de favores, e mostramos que dá para fazer diferente”, rebateu.

Na onda de Nikolas, Pavanato ultrapassa 3 milhões de votos e é alvo de críticas

No modelo de campanha de Nikolas Ferreira, likes significam votos. Com 30 anos, ele é considerado o político brasileiro mais influente das redes sociais, com cerca de 45 milhões de seguidores somados no Instagram, TikTok, X e Facebook.

Nikolas foi reeleito com 3,1 milhões de votos e também ocupou o papel de principal cabo eleitoral do vereador paulistano Lucas Pavanato (PL-SP), que recebeu um pouco mais de 3 milhões de votos em São Paulo. A dupla foi a mais votada do país nas disputas estaduais pela Câmara dos Deputados e foi responsável por “puxar” mais 20 eleitos no sistema proporcional.

Pavanato soma cerca de 10 milhões de seguidores no Instagram, TikTok e Facebook e foi um dos convidados da campanha de Flávio Bolsonaro para acompanhar o debate contra Lula (PT) na sede da Band, em São Paulo, no último domingo (18).

Antes do evento, ele fez um vídeo no formato selfie chamando o candidato derrotado ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), de “desempregado”. O ex-ministro petista reagiu, e o vídeo teve mais de 1,5 milhão de visualizações na página oficial de Pavanato no Instagram.

O novo deputado federal teve origem política no MBL e hoje é criticado pelos fundadores do movimento, entre eles o ex-candidato à Presidência Renan Santos (Missão). “Ele não conseguia sentar numa roda para conversar porque nunca teve cabeça para isso, nunca teve intelecto. Pavanato ganhou fazendo vídeos, dançando funk [...] com carro de som, óculos escuros e uma moça ao lado”, criticou Santos após o resultado do primeiro turno. 

O deputado reeleito Kim Kataguiri afirmou que as eleições proporcionais de 2026 serão lembradas pelo debate sobre o uso de banheiros e também fez críticas à postura de Pavanato em priorizar as pautas identitárias.

“O eleitor, por alguma razão, esqueceu-se dos problemas reais e decidiu se proteger da perseguição trans hipotética. Isso, para quem debate proposta, é um baque e tanto no curto prazo”, opinou. Procurada pela Gazeta do Povo, a assessoria de Pavanato respondeu que ele não poderia conceder entrevista devido à agenda de eventos na campanha presidencial do PL.

Os novatos da direita na “bancada dos influenciadores”

Lucas Pavanato (PL-SP), 28 anos

Vereador mais votado em São Paulo em 2024, ele tem um estilo provocador e prioriza o debate de pautas identitárias contra a esquerda. Pavanato tem 6,3 milhões de seguidores no Instagram e liderou a eleição paulista à Câmara dos Deputados com mais de 3 milhões de votos.

Jeffrey Chiquini (Novo-PR), 36 anos

O deputado mais votado do Paraná, com mais de 425 mil votos, é o mais velho entre os novatos da bancada. O advogado foi alçado politicamente por meio das redes sociais após defender o ex-assessor do governo Bolsonaro Filipe Martins, que está preso em Ponta Grossa (PR). Chiquini tem 2,7 milhões de seguidores no Instragram.

Guilherme Kilter (Novo-PR), 24 anos

Vereador mais novo da Câmara de Curitiba tem 1,4 milhão de seguidores no Instagram e chega à Câmara dos Deputados após receber quase 270 mil votos.

Carmelo Neto (PL-CE), 25 anos

O deputado estadual cearense foi eleito com pouco mais de 56 mil votos. O candidato, que tem 1,1 milhão de seguidores no Instagram, foi beneficiado pela expressiva votação de outro influenciador: o “puxador de votos” André Fernandes, reeleito com o recorde de mais de 684 mil votos no estado. Carmelo ainda apoiou a esposa Bella Carmelo (PL-CE), que foi eleita à Assembleia Legislativa do Ceará com 130,8 mil votos. A vereadora de Fortaleza tem 25 anos e 907 mil seguidores no Instagram.

Lucas Polese (PL-ES), 30 anos

O deputado estadual mais jovem da história capixaba, Polese recebeu 419,7 mil votos (19,66% dos votos válidos) e se tornou o deputado federal recordista no Espírito Santo. Com 370 mil seguidores no Instagram, ele contou com o apoio de Nikolas para chegar ao Congresso e integrar a bancada de jovens influenciadores.

Julia de Castro (PL-RJ), 24 anos

Estreante nas urnas, a influenciadora teve 103,8 mil votos e se tornou a mais jovem deputada federal da história do Rio de Janeiro. Julia tem 671 mil seguidores no Instagram e também contou com o apoio de Nikolas para chegar ao Congresso Nacional sem nunca antes ocupar um cargo eletivo.   

Esquerda amplia participação na bancada jovem e digital 

Após ver a direita ocupar as plataformas digitais, a militância de esquerda reagiu nas eleições proporcionais deste ano, bem antes do presidente Lula priorizar a campanha nas redes e nos grupos de WhatsApp no segundo turno. O resultado foi a eleição de candidatos a deputado federal com milhões de seguidores dentro desse espectro político. 

Apesar de números mais modestos nas redes, Ana Júlia (PT-PR), 26 anos, foi a mulher mais votada no estado para a Câmara Federal com mais de 184 mil votos. Em entrevista à Gazeta do Povo, ela afirmou que não se considera uma “influenciadora digital” e atribuiu seus 346 mil seguidores à sua trajetória política, iniciada quando se tornou a deputada estadual mais jovem do Paraná

“O alcance nas redes é pela atuação política e pela militância. Essa é a diferença dos quadros no campo progressista: a presença digital é derivada do trabalho cotidiano e do mandato. Para nós, as redes não são um trampolim para as urnas”, comparou a petista.

A parlamentar critica a atuação pública por meio da “política do espetáculo”, que, na avaliação dela, vai contra a construção de ideias e o debate de propostas. “O foco está em quanto o candidato consegue lacrar, escandalizar e atingir em métricas. O problema é que o algoritmo prioriza determinados tipos de conteúdos, perfis políticos e aspectos ideológicos”, opinou Ana Júlia. “Um conteúdo voltado ao ódio ou à raiva ‘viraliza’ mais do que um conteúdo racional e explicativo”, completou.  

A petista foi uma das jovens eleitas convocadas por Lula para intensificar a campanha digital na tentativa da virada contra Flávio Bolsonaro no segundo turno. “O presidente sempre foi uma pessoa acessível e carismática. E, muitas vezes, isso não conseguia se traduzir nas redes sociais dele, até porque ele é um homem de 80 anos. Nossa tentativa foi conseguir adequar o que é o Lula e a história política dele para chegar aos eleitores”, explicou.

Os principais nomes de jovens "influenciadores" eleitos pela esquerda

Ana Elisa (PT-MG), 21 anos

A deputada federal mais jovem do país é considerada o principal nome da esquerda na nova “bancada dos influenciadores” no Congresso Nacional. A mineira disputou a eleição pela primeira vez e foi a segunda mais votada no estado com um pouco mais de 524 mil votos, atrás apenas de Nikolas Ferreira. A estreante na política chega à Câmara Federal com 5,3 milhões de seguidores no Instagram.   

Guilherme Cortez (PSOL-SP), 29 anos

O deputado estadual paulista Guilherme Cortez é filiado ao PSOL desde os 16 anos e entrou na política por meio do movimento estudantil. Ele se diz “bissexual e militante do movimento LGBTI+”. Formado em Direito, o jovem tem 1,6 milhão de seguidores no Instagram e recebeu 275.450 votos na disputa pela Câmara Federal no maior colégio eleitoral do país.  

Pedro Rousseff (PT-MG), 26 anos

O vereador de Belo Horizonte é sobrinho da ex-presidente petista Dilma Rousseff. Ele foi eleito na capital mineira em 2024 e na eleição deste ano conseguiu uma cadeira na Câmara dos Deputados após receber 118.567 votos. Rousseff, que tem 1,3 milhão de seguidores no Instagram, afirma que entrou na política após “o injusto processo de impeachment” contra a tia dele.      

Jones Manoel (PSOL-PE), 36 anos

O deputado eleito afirma que é comunista e disputou a segunda eleição em sua curta trajetória política. Há quatro anos, ele concorreu pela primeira vez ao governo de Pernambuco pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Neste ano, foi o segundo mais votado para a Câmara Federal em Pernambuco, com 249 mil votos, atrás apenas do deputado federal reeleito Pedro Campos (PSB-PE). No perfil do Instagram com 2,5 milhões de seguidores, Manoel se intitula “historiador, escritor, comunicador popular e comunista”.

Ex-deputada defende discussão sobre impulsionamento nas redes durante eleições

A ex-deputada federal e vereadora paulistana Janaina Paschoal (PP-SP) ressaltou que muitos dos jovens eleitos com base nas redes sociais já exercem mandatos, o que deve colaborar com a adaptação ao Congresso Nacional e amadurecimento político. “Existe uma esperança de que eles compreendam que é necessário ter uma vivência real na Casa Legislativa e não só uma atuação voltada para o mundo das redes. São jovens, quero crer que eles aprenderão”, disse a vereadora paulistana.

Apesar disso, Paschoal tem demonstrado preocupação com o novo perfil parlamentar e defendeu a discussão sobre o papel da Meta nas eleições e sobre a influência dos impulsionamentos dos candidatos nas redes sociais no período de campanha.

“Quanto mais sem lógica, quanto mais apelativa, quanto mais grotesca, quanto mais sem fundamento, mais a postagem alcança as pessoas. E com isso nós temos maiores chances de eleger pessoas sem conteúdo — em uma expressão pejorativa, o ‘pastel de vento’”, comentou a vereadora, que recebeu 46,7 mil votos e não conseguiu retornar à Câmara Federal. 

“A lógica do impulsionamento prestigia a falta de conteúdo. Estou preocupada como cidadã. A gente torce para que esses jovens, que se alavancaram pelas redes, ganhem maturidade, que compreendam que não são humoristas, que são autoridades”, acrescentou.

Para a consultora em marketing político e pesquisadora em comunicação política Vanessa Marques, mais do que o número de seguidores ou a fama, a identificação com o candidato fortalece o sentimento de pertencimento e de representação política, além de estimular a participação do eleitor

Na avaliação da pesquisadora, o principal desafio para os novatos é entender que o trabalho parlamentar no Congresso é muito diferente da atuação política nas redes sociais. Além disso, Marques argumenta que o número de seguidores e até a quantidade de votos nas urnas não têm peso no debate dentro da Câmara dos Deputados. 

“O enfrentamento está em outra dimensão. Vamos esperar para ver se eles terão a capacidade técnica e política de lidar com os desafios do Congresso. Os 513 parlamentares têm o mesmo poder de voto. Se tiver 1 milhão de votos ou 100 votos nas urnas, o peso é o mesmo”, comparou.

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