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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) intensificou a articulação com aliados no Congresso e dirigentes do Partido Liberal (PL) e reorganizou sua estratégia de comunicação para reforçar sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto. As ações incluem reuniões reservadas com parlamentares, alinhamento de discurso político e manutenção da agenda pública da pré-campanha.
A reorganização ocorre em meio à tentativa do partido de conter desgastes e preservar a viabilidade eleitoral do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro após uma queda de popularidade registrada em pesquisa recente.
Segundo analistas, a queda estaria relacionada à divulgação de um áudio que mostra uma cobrança do senador ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, sobre o financiamento ao filme Dark Horse.
Na terça-feira (19) Flávio Bolsonaro participou de uma reunião reservada com deputados e senadores do Partido Liberal na sede nacional da legenda, em Brasília. O encontro reuniu as principais lideranças do PL e teve como objetivo alinhar o discurso da bancada, reduzir desconfortos internos e reforçar a estratégia política da pré-campanha para os próximos meses.
Estiveram presentes o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, o coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), os líderes Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Carlos Portinho (PL-RJ), além do vice-presidente da Câmara, Altineu Côrtes (PL-RJ), e dos senadores Eduardo Gomes (PL-TO) e Sergio Moro (PL-PR). Segundo interlocutores do partido, a reunião também serviu para demonstrar unidade política em torno da manutenção da pré-candidatura de Flávio ao Planalto.
A reunião ocorreu no mesmo dia da divulgação da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, que apontou queda de seis pontos percentuais de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo o levantamento, o senador aparece com 41,8% das intenções de voto, enquanto Lula soma 48,9%.
Dentro do PL, porém, dirigentes avaliam que a perda ocorreu principalmente em direção ao grupo de indecisos, brancos e nulos — que passou de 4,7% para 9,3% — e não necessariamente para o eleitorado petista. “O mais importante dessa pesquisa é que o descondenado não subiu. Nas próximas semanas, sem a contaminação do momento, o Flávio voltará a crescer”, afirmou o deputado Sóstenes Cavalcante.
A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg entrevistou 5.032 eleitores entre os dias 13 e 18 de maio de 2026, por meio de recrutamento digital. O levantamento tem margem de erro de um ponto percentual, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. A pesquisa foi realizada com recursos do próprio instituto e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-06939/2026.
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Após a reunião, integrantes da bancada do PL ouvidos pela Gazeta do Povo sinalizaram que o desgaste enfrentado por Flávio Bolsonaro ainda pode ser administrado ao longo da pré-campanha. A principal aposta dos coordenadores é reorganizar a comunicação do partido, reforçar a unidade interna e impedir que a crise afete a formação dos palanques estaduais.
Segundo relatos de parlamentares, parte dos deputados e senadores demonstrou desconforto com o fato de não ter tido conhecimento prévio da relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O encontro desta terça foi tratado internamente como uma tentativa de reduzir a crise de confiança dentro do partido, permitir que o senador apresentasse explicações diretamente aos aliados e alinhar uma linha única de defesa pública.
Além da reorganização política, o partido iniciou uma ofensiva digital voltada à defesa da pré-candidatura e ao confronto com o governo Lula nas redes sociais. A estratégia inclui ampliar conteúdos relacionados às investigações do Banco Master e reforçar críticas a supostas ligações entre integrantes do governo federal e o banqueiro Daniel Vorcaro.
“É mais urgente do que nunca a CPMI do Banco Master, porque vai ser a única forma de separar bandido de inocente”, afirmou Flávio em entrevista coletiva após o encontro com os parlamentares.
A reunião desta terça também serviu para tentar encerrar especulações sobre uma eventual substituição de Flávio Bolsonaro por outro nome da direita na disputa presidencial. O presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, assumiu pessoalmente a articulação para preservar a unidade partidária e evitar desgastes nas alianças regionais já negociadas pelo partido.
“Não passa de mais uma tentativa de assassinato de reputação por parte da esquerda. É isso que a esquerda faz e vai fazer com todos os candidatos e pré-candidatos do Bolsonaro. Flávio deixa bem claro que quem não deve, não teme. Ele explica a legalidade do que acontece e, mais que isso, exige a CPMI do Banco Master”, afirmou o deputado federal Marcos Pollon (PL-MS).
Pollon também defendeu a instalação da comissão parlamentar de inquérito para investigar o caso. "Quem está impedindo que ela aconteça é a esquerda", disse.
Em outra frente, a pré-campanha do PL também decidiu contestar judicialmente a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg. Em representação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a equipe do senador argumenta que o levantamento teria induzido os entrevistados a uma percepção negativa sobre o pré-candidato.
Segundo a defesa de Flávio Bolsonaro, a metodologia utilizada pelo instituto teria ultrapassado os limites técnicos de uma pesquisa eleitoral ao incluir elementos capazes de influenciar a percepção dos eleitores durante a entrevista. A campanha pediu a suspensão liminar do levantamento e solicitou investigação sobre possíveis irregularidades.
Em resposta, o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, afirmou que o áudio foi reproduzido para os pesquisados apenas após a conclusão do questionário principal e negou qualquer impacto sobre os cenários eleitorais apresentados pela pesquisa.
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Flávio reforça agenda política com empresários e aliados fora do PL
Apesar do desgaste recente, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro pretende manter nas próximas semanas a estratégia de ampliação do diálogo com empresários, representantes do mercado financeiro e lideranças políticas de outras siglas alinhadas à direita. A avaliação dentro do PL é de que a manutenção da agenda pública será fundamental para transmitir estabilidade política e evitar a paralisação do projeto presidencial do senador.
Nesta quarta-feira (20), por exemplo, Flávio terá encontros com empresários da Faria Lima em São Paulo, além de agendas voltadas à articulação de alianças regionais.
Nos estados do Paraná e de Santa Catarina, integrantes do PL atuaram nos últimos dias para evitar desgastes com o Partido Novo após críticas públicas do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema ao senador. Aliados de Valdemar Costa Neto afirmam que o presidente do partido entrou pessoalmente nas negociações para preservar alianças consideradas estratégicas.
Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello (PL) vai disputar a reeleição tendo Adriano Silva (Novo), atual prefeito de Joinville, como vice.
Na avaliação do cientista político Rodrigo Augusto Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o desgaste político sofrido por Flávio ocorre justamente no momento em que o senador começa a ser testado nacionalmente como presidenciável competitivo.
“Politicamente, o dano é imediato. Um projeto cinematográfico que até então caminhava discretamente e aguardava apenas sua estreia passou a ser alvo de intenso escrutínio público”, afirmou.
Segundo Prando, o episódio evidencia o peso político de carregar o sobrenome Bolsonaro em uma disputa presidencial. “O mesmo sobrenome que lhe garante musculatura eleitoral também amplia o alcance de crises, suspeitas e desgastes políticos. Afinal, em política, capital simbólico e vulnerabilidade frequentemente caminham lado a lado”, disse.











