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De olho no 2º turno

Governadores decididos no 1º turno ameaçam mobilização de eleitores de Lula e Flávio

Lula e Flávio Bolsonaro disputam o eleitorado em um eventual segundo turno, marcado pelo desafio de manter a mobilização nas urnas. (Foto: Fotomontagem/Gazeta do Povo (Beto Barata/PL e Ricardo Stuckert/PR))

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A eleição para governador pode acabar antes da presidencial em até 19 estados, criando um desafio adicional para as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno. Com menos disputas estaduais em andamento, parte da estrutura política que ajuda a mobilizar eleitores no primeiro turno pode perder força justamente quando os presidenciáveis precisarem ampliar a participação nas urnas.

A preocupação das campanhas tanto do PT quanto do PL está na mobilização que pode deixar de existir quando a disputa estadual termina. Segundo Felipe Nunes, CEO da Quaest, estados que definem a eleição para governador no primeiro turno tendem a registrar uma taxa de abstenção cerca de dois pontos percentuais maior na segunda rodada.

O efeito nas candidaturas, porém, pode variar conforme a força de cada presidenciável nesses estados. “Se isso estiver acontecendo em estados onde o Flávio Bolsonaro tiver vantagem sobre o Lula, isso pode prejudicá-lo. Quando isso acontecer em estados onde o Lula tem vantagem sobre o Flávio, isso vai prejudicar o Lula”, defendeu Nunes em entrevista à TV Globo.

Um dos principais casos a serem observados é São Paulo, maior colégio eleitoral do país. A última rodada da Real Time Big Data, divulgada em 24 de agosto, mostra Tarcísio de Freitas (Republicanos) com 52% das intenções de voto para o governo, contra 35% de Fernando Haddad (PT).

Com 17 pontos de vantagem, o governador parte de um patamar que coloca a definição da disputa estadual já no primeiro turno entre os cenários possíveis. Ao mesmo tempo, o levantamento mostra Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula entre os paulistas, com 38% contra 33%.

Dentro do PL, no entanto, a avaliação é de otimismo e de que, mesmo que seja reeleito no primeiro turno, Tarcísio manterá o engajamento e o apoio a Flávio em um eventual segundo turno. Além do governador, a campanha presidencial conta com o envolvimento do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB).

“A gente está trabalhando para as pessoas, o resto é consequência. E aí, claro, a gente acaba capturando também votos de pessoas que estão pensando na presidência da República no outro candidato, mas a gente aqui vai estar junto do Flávio, vamos acompanhar bastante a trajetória dele”, disse Tarcísio durante agenda de campanha.

Risco de desmobilização alcança palanques de Lula e Flávio

Santa Catarina entra na mesma lógica de São Paulo, mas com um cenário ainda mais favorável à definição da disputa estadual no primeiro turno. A pesquisa Quaest divulgada em 24 de agosto mostra o governador Jorginho Mello (PL) com 50% das intenções de voto, contra 17% de João Rodrigues (PSD), 4% de Gelson Merísio (PSB) e 2% de Marcus Sodré (PSTU). Além da liderança no primeiro turno, Mello também aparece à frente nas duas simulações de segundo turno: marca 56% contra 24% de Rodrigues e 63% contra 16% de Merísio.

Em Roraima, a pesquisa Quaest de agosto mostrou que Arthur Henrique (PL) aparece com 60% das intenções de voto, mais que o dobro dos 27% registrados por Soldado Sampaio (Republicanos). No Maranhão, Eduardo Braide (PSD) também aparece em posição favorável para encerrar a disputa pelo governo no primeiro turno.

Pesquisa da Quaest mostra o ex-prefeito de São Luís com 44% das intenções de voto no cenário estimulado, 19 pontos percentuais à frente de Orleans Brandão (MDB), que registra 25%. O mesmo cenário se repete ainda no Amapá, onde Dr. Furlan (PSD) aparece com uma vantagem ainda mais ampla.

Pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta terça-feira (8) mostra o candidato com 62% das intenções de voto no cenário estimulado de primeiro turno, contra 31% do atual governador Clécio Luís (União). A diferença de 31 pontos percentuais coloca Furlan em posição favorável para uma eventual definição da eleição estadual já na primeira rodada.

Entre os nomes que apoiam abertamente o presidente Lula, o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), também aparece em condições de encerrar a disputa estadual no primeiro turno. Pesquisa AtlasIntel publicada em 3 de setembro mostra o petista com 62,4% das intenções de voto, contra 20,9% de Joel Rodrigues (PP), uma vantagem de 41,5 pontos percentuais.

Para o cientista político Elias Tavares, a definição da eleição para governador no primeiro turno pode retirar uma das principais forças de mobilização para a segunda rodada presidencial. “Eu costumo dizer que, numa eleição presidencial isolada no segundo turno, o presidenciável perde uma locomotiva estadual ajudando a puxar o eleitor para a urna”, explica.

Tavares ressalta, porém, que a estrutura estadual também pode ser redirecionada para a eleição presidencial. Segundo ele, o comportamento dos governadores após uma eventual vitória antecipada será uma das variáveis importantes para a mobilização no segundo turno.

“Agora, um governador eleito no primeiro turno pode perfeitamente compensar essa perda”, completa.

Outros 13 estados também podem resolver a eleição no 1º turno

O cenário de possível definição antecipada da disputa pelo governo se espalha por outras regiões do país. Em oito estados — Pernambuco, Ceará, Bahia, Pará, Alagoas, Mato Grosso, Rondônia e Sergipe —, a corrida está concentrada em dois candidatos, o que aumenta a possibilidade de uma definição já na primeira rodada.

A situação ganha importância especialmente no Nordeste, onde Bahia, Ceará e Pernambuco são redutos eleitorais do PT. Nos dois primeiros estados, os governadores petistas Jerônimo Rodrigues e Elmano de Freitas buscam a reeleição e enfrentam, respectivamente, ACM Neto (União Brasil) e Ciro Gomes (PSDB).

Em Pernambuco, a disputa também está polarizada entre Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB). Há ainda cinco estados em que o segundo turno continua no horizonte, mas a vantagem dos líderes torna plausível uma vitória antecipada: são os casos de Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul.

No Paraná, o senador Sergio Moro (PL) lidera a disputa pelo governo do Paraná com 45% das intenções de voto no 1º turno, seguido por Requião Filho (PDT), com 24%, segundo a Paraná Pesquisas. Sandro Alex (PSD) aparece em terceiro lugar, registrando 17,5%. Não há empates dentro da margem de erro de 2,8 pontos no pelotão de frente.

No Rio de Janeiro, outro estado considerado estratégico para a disputa presidencial, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) também aparece em posição favorável para encerrar a eleição estadual já na primeira rodada. Segundo levantamento da Paraná Pesquisas, Paes lidera os dois cenários testados pelo instituto.

Na primeira simulação, ele registra 43,5% das intenções de voto, contra 20,3% de Douglas Ruas (PL) e 9,8% de Anthony Garotinho (Republicanos). Sem Garotinho na disputa, Paes chega a 47,4%, enquanto Ruas marca 22,7%. Assim como no Paraná, a vantagem do ex-prefeito coloca o Rio entre os estados em que uma vitória no primeiro turno é considerada plausível, embora o levantamento ainda não permita tratar o resultado como definido.

Para o cientista político Elias Tavares, esse tipo de cenário pode reduzir a mobilização política no estado, mas não necessariamente comprometer a participação no segundo turno presidencial. “Eu acho que existe, sim, um risco de desmobilização quando a eleição para governador termina no primeiro turno, mas é importante não transformar isso numa relação automática”, explica.

Em eleição apertada, mobilização pode valer tanto quanto conquistar votos

A necessidade de manter o eleitor mobilizado ganha ainda mais peso diante do equilíbrio entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas de segundo turno. Levantamento BTG/Nexus divulgado nesta terça-feira (8) mostra o candidato do PL numericamente à frente, com 46% das intenções de voto, contra 45% do presidente.

Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. Em uma disputa com diferença tão estreita, uma eventual redução do comparecimento às urnas pode ter peso sobre o resultado, segundo especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo.

Para Elias Tavares, no entanto, o eventual aumento da abstenção não deve ser interpretado como uma perda automática de votos para um dos candidatos. “O eleitor muito lulista vai votar no Lula. O eleitor muito bolsonarista provavelmente vai votar no Flávio Bolsonaro”, diz.

Segundo ele, o problema está naquele eleitor que votou em outro candidato no primeiro turno e que não se identifica plenamente com nenhum dos dois. “Esse eleitor pode olhar para o segundo turno e pensar: ‘Essa não é mais a minha eleição’.”

A avaliação é compartilhada, em parte, por Magno Karl, cientista político do movimento Livres. Segundo ele, a desmobilização tende a atingir com maior intensidade eleitores de menor renda e escolaridade, grupos que historicamente apresentam taxas mais elevadas de abstenção.

Esse fator, na avaliação dele, pode representar um risco maior para Lula, cuja coalizão eleitoral tem maior concentração entre eleitores de renda mais baixa. “Historicamente, eleitores de menor renda e menor escolaridade têm maior abstenção, e esse é exatamente o perfil onde a coalizão do Lula está concentrada”, explica Karl.

Karl, porém, ressalta que a intensidade da disputa presidencial pode se sobrepor ao efeito provocado pelo fim antecipado das eleições estaduais. Em 2022, mesmo com estados que já haviam definido seus governadores no primeiro turno, a participação na eleição presidencial não necessariamente caiu.

“O caso mais eloquente é o Rio de Janeiro: Cláudio Castro já tinha sido reeleito no primeiro turno, com 58,67% dos votos, e mesmo assim o estado registrou dezenas de milhares de eleitores a mais na votação presidencial do segundo turno”, explica.

Metodologia das pesquisas citadas na reportagem

  • Real Time Big Data — São Paulo: 2 mil eleitores entrevistados entre 19 e 22 de agosto de 2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi realizado com recursos próprios e está registrado no TSE sob os protocolos SP-01347/2026 e BR-06537/2026.
  • Quaest — Santa Catarina: 804 eleitores entrevistados entre 20 e 23 de agosto de 2026. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi contratada pela NC Comunicações e está registrada no TSE sob o protocolo SC-00517/2026.
  • Quaest — Roraima: 804 eleitores entrevistados entre 23 e 26 de agosto de 2026. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela Rádio e TV do Amazonas Ltda. – Rede Amazônica Rádio e Televisão e está registrado no TSE sob o protocolo RR-04765/2026.
  • Quaest — Maranhão: 900 pessoas com 16 anos ou mais entrevistadas entre 20 e 23 de agosto de 2026. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi contratada pela TV Mirante e está registrada no TSE sob o protocolo MA-02558/2026.
  • Real Time Big Data — Amapá: 1.600 pessoas entrevistadas entre 3 e 7 de setembro de 2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o protocolo AP-04000/2026.
  • AtlasIntel — Piauí: 1.622 entrevistas realizadas pela internet entre 28 de agosto e 2 de setembro de 2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi contratada pelo portal Meio Norte e está registrada no TSE sob os protocolos PI-03771/2026 e BR-03636/2026.
  • Paraná Pesquisas — Paraná: 1.280 eleitores entrevistados entre 31 de agosto e 2 de setembro de 2026, por meio de entrevistas pessoais, domiciliares e presenciais. A margem de erro é de 2,8 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela própria Paraná Pesquisas e está registrado no TSE sob o protocolo PR-03399/2026.
  • Paraná Pesquisas — Rio de Janeiro: 1.600 eleitores entrevistados entre 5 e 7 de setembro de 2026. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi realizado com recursos próprios do instituto e está registrado no TSE sob o protocolo RJ-01671/2026.
  • BTG/Nexus — 2.002 pessoas entrevistadas entre 4 e 7 de setembro de 2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi pago pelo banco BTG Pactual e está registrado no TSE sob o protocolo BR-06790/2026.

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