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Segundo turno

Lula tenta deixar “versão analógica” e escalada digital petista acende alerta na direita

Lula na tentativa de virar eleição após aumentar engajamento nas redes sociais.
Lula convoca jovens eleitos pela esquerda e aposta as fichas em grupo de aplicativo coordenado por Janones. (Foto: Ricardo Stuckert/Campanha Lula)

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A derrota no primeiro turno forçou o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a rever a postura de distanciamento das redes sociais. Depois de se manter longe do mundo digital durante o terceiro mandato e até se vangloriar por isso, o presidente da República, que diz não ter aparelho celular, começou a gravar vídeos no formato selfie.

Ele também convocou a juventude petista para “virar votos” nas redes e levou para a campanha o deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pela coordenação do grupo de WhatsApp “Exército do Lula”. Segundo o estudo “Estratégia digital no 2º turno”, feito pela empresa Datrix, a campanha petista tem tido mais sucesso na mobilização dos militantes pelos grupos do aplicativo de mensagens do que com o engajamento dos influenciadores de esquerda.

Desde o dia 10 de outubro, o levantamento aponta que a campanha de Lula passou a atacar pelo flanco do WhatsApp com a liderança de Janones, superando movimentos da direita nos meios digitais. “O que mudou foi o paradigma de como se trabalha a comunicação nas redes. A eficiência está menos no volume de conteúdo e mais no número de pessoas que estão interagindo com o presidente”, afirma o diretor-executivo da Datrix, João Paulo Castro.

Ele classifica a estratégia como “invisível” pelo fato de os grupos de mensagens serem fechados e mais difíceis de monitorar do que as redes sociais. “É invisível, mas é eficiente porque organiza a microinfluência de milhões de pessoas para levar conteúdos de forma orquestrada com várias postagens sobre o mesmo tema ao mesmo tempo”, explica.

Apesar de tardio, o movimento acendeu um sinal de alerta na direita, principalmente com o “Exército do Lula” atingindo a marca de 5 milhões de seguidores, enquanto a “Tropa do Flávio” acumula mais de 2 milhões de usuários no WhatsApp.

O senador eleito Gustavo Gayer (PL-GO), considerado um dos deputados federais de direita mais engajados nos meios digitais, enviou uma mensagem no grupo com críticas sobre o “terrorismo eleitoral” da esquerda. “A campanha de terrorismo eleitoral que o Lula e o PT estão fazendo de forma criminosa, [...] realmente está conseguindo mobilizar a esquerda de uma maneira que a gente nunca viu”, alerta.

A batalha digital foi parar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e potencializou a nova estratégia de Lula — a Corte chegou a suspender o grupo petista após o PL alegar distribuição de fake news contra Flávio Bolsonaro (PL). A disputa no TSE sobre o canal “Exército do Lula” concentrou 73% das publicações, aponta o Datrix. "A tese de que suspender o canal é censura (24,7%) teve quase três vezes o peso da acusação de desinformação (9,1%)”, informa o levantamento.

Artistas pró-Lula e presidente mais engajado não produzem efeito esperado

A entrada de artistas na campanha petista, entre eles as cantoras Anitta e Ludmilla, não produziu o efeito esperado. O diretor-executivo da Datrix, João Paulo Castro, lembra que logo após o resultado do primeiro turno, produtores de conteúdo e artistas usaram as redes para declarar voto à reeleição do presidente.

“Não é eficiente que grandes influenciadores se manifestem uma única vez e não participem da campanha. Uma declaração de voto gera manchete por dois dias; mobilizar eleitor exige presença contínua”, comenta.

A maior diferença foi sentida no tom adotado por Lula nas redes oficiais próprias. Com mais vídeos, selfies e a colaboração dos novos rostos da esquerda, o petista passou a ganhar mais seguidores por dia nas redes sociais do que Flávio.

“A nova estratégia tirou a campanha de Lula do 'vale da ressaca'. Ela se mostrou mais eficiente nas redes próprias e conseguiu equiparar o saldo. Mas isso ainda não é suficiente. O desafio de Lula não é só melhorar o tom. É convencer o próprio eleitor a sair da abstenção e ir votar, e isso ainda não aconteceu”, analisa Castro.

O diretor-executivo destaca a resiliência da campanha de Flávio Bolsonaro, construída pela direita no debate polarizado nas redes sociais. “Apesar de todos esses movimentos, a base do Flávio continua com o volume e o número de influenciadores intactos. O trabalho segue de forma perene e constante”, ressalta Castro.

Ele ainda pontua sobre o alto nível de decisão do brasileiro em contraste com o baixo percentual de eleitores considerados indecisos no segundo turno. “Se não perder o engajamento da base e mantiver a força, é um grande ativo. A estratégia é manter o que já é feito com sucesso. Percebemos a mudança estratégica da campanha do Lula, mas isso não está prejudicando o outro lado”, completa.

Lula corre atrás da direita nas redes após problemas de comunicação no governo

Consultora em marketing político e pesquisadora em comunicação política, Vanessa Marques lembra que o governo Lula teve problemas de comunicação durante este terceiro mandato dele. Assim, na avaliação dela, medidas importantes não são percebidas com eficiência pelo cidadão.

“Como um todo, o presidente teve muita dificuldade de mandar essa mensagem ao público que se informa no ambiente digital. Hoje, parte da população escolhe o candidato nas redes e também avalia o governo pelas redes”, afirma.

Desde a vitória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2018, a direita dominou as plataformas digitais e Lula abriu mão da comunicação nas redes sociais, privilegiando o velho estilo de fazer política. Para a pesquisadora, o resultado do primeiro turno obrigou o PT a correr atrás do prejuízo nas semanas restantes de campanha em busca de uma virada que, até agora, nunca aconteceu na democracia brasileira.

Para isso, Marques ressalta que, mais do que priorizar as plataformas digitais, a campanha petista terá que ajustar o tom da mensagem. “A esquerda demorou muito a entender que para falar com um público mais jovem não adiantava simplesmente voltar às redes. Ele [Lula] precisa demonstrar vitalidade para a campanha e também mostrar que tem chance de virar, porque a militância ficou em baixa depois do resultado”, analisa.

Na avaliação da pesquisadora, figuras da política tradicional como Lula têm mais dificuldades para se adequar ao ambiente digital com naturalidade, o que teria motivado o presidente da República a buscar o apoio de novos petistas eleitos no primeiro turno.

Ela cita o exemplo de Ana Elisa (PT), eleita a deputada federal mais jovem nas eleições deste ano, que passou a fazer parte da campanha de Lula como mediadora entre a velha guarda e a geração nascida nos anos 2000. “Ela aprendeu a fazer política assim. O Lula está tendo que reaprender uma outra forma de fazer política”, resume a pesquisadora.

A busca pelo quarto mandato coloca o candidato analógico em um novo cenário político baseado na campanha digital, mas Marques destaca que o capital político dele ainda impede o lançamento de uma alternativa. Assim, a única opção petista é a adaptação do presidente da República aos novos tempos — estratégia protelada nos últimos anos.

“O Lula não tem um sucessor porque quem tem voto ainda é ele. Qualquer outro candidato ventilado pela esquerda não teria chance de ganhar a eleição”, opina.

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