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Em desespero eleitoral, Lula parte para o vale-tudo com pacote bilionário

Pacote de medidas anunciadas por Lula nos últimos dias terá impacto bilionário no Orçamento federal
Pacote de medidas anunciadas por Lula nos últimos dias terá impacto bilionário no Orçamento federal (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

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No último mês antes do primeiro turno das eleições, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição, vem anunciando uma série de medidas com impacto fiscal, aumentando a pressão sobre o Orçamento deste ano e principalmente a partir de 2027.

Em pouco mais de uma semana, o governo reajustou o Bolsa Família em 15,04%, prorrogou o subsídio ao óleo diesel por mais 30 dias, criou uma nova etapa do programa Desenrola e proibiu as apostas esportivas online (bets), eliminando uma fonte bilionária de arrecadação. Também anunciou a intenção de incorporar medicamentos injetáveis para a obesidade ao Sistema Único de Saúde (SUS).

A proximidade com o pleito de outubro leva à conclusão inevitável de uso eleitoral das ações, o que o governo nega. Segundo a equipe econômica, o reajuste do Bolsa Família, por exemplo, foi anunciado quando se percebeu haver “espaço fiscal” para fazê-lo.

O analista político Luan Sperandio, diretor de operações do Ranking dos Políticos, explica que a adoção de medidas de apelo popular que priorizam o cálculo eleitoral em detrimento de critérios técnicos impõe riscos imediatos e de longo prazo.

“De imediato, o impacto é fiscal e de comprometimento da eficiência nas políticas públicas”, diz. “São políticas sem análise de viabilidade, costumam ter custos subestimados, implementação mais cara e resultados aquém do prometido. Além disso, podem criar despesas que são permanentes e difíceis de reverter”, explica.

“No longo prazo, há também o risco institucional. Se prevalece a sensação de que vale tudo para ganhar eleição, então a cada dois anos tendemos a ver ações piores do que as anteriores, numa espécie de leilão de promessas cada vez maiores”, avalia Sperandio.

Reajuste no Bolsa Família e fim das bets geram impacto de R$ 7,3 bilhões ainda em 2026

Consideradas apenas as duas medidas de maior impacto anunciadas por Lula, a pressão sobre o Orçamento de 2026 chega a R$ 7,3 bilhões, o que deve ampliar o déficit primário e a dívida pública do país. O cálculo considera R$ 5,8 bilhões em despesa adicional com o aumento da parcela do Bolsa Família e R$ 1,5 bilhão de receitas que deixarão de ser arrecadadas com as bets.

A cifra não inclui as despesas futuras com a oferta gratuita de canetas emagrecedoras, cujo protocolo de distribuição, alcance e, portanto, impacto fiscal ainda estão em estudo.

Também está fora da conta o custo da prorrogação do subsídio ao diesel, uma vez que a medida é financiada com a receita extraordinária gerada com os efeitos do conflito no Oriente Médio, incluindo o aumento na arrecadação federal com a alta no petróleo e com o imposto de exportação sobre o setor.

Segundo declarou o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, na semana passada, o governo usa essa receita extraordinária para calibrar o volume e a extensão dos subsídios, de modo que não haja desequilíbrio nessa conta.

A subvenção no valor de R$ 2,12 por litro do combustível foi estendida até o dia 26 de outubro, dia seguinte ao segundo turno das eleições. A portaria do Ministério da Fazenda que autoriza a prorrogação entrou em vigor no domingo (27), a uma semana do primeiro turno e dia em que expirou a medida provisória (MP) que estabelecia parte do benefício.

A própria equipe econômica do governo estima que cada R$ 1 de subsídio por litro de diesel representa um custo de aproximadamente R$ 5 bilhões por mês. Considerando esse parâmetro, um benefício de R$ 2,12 por litro corresponde a cerca de R$ 10,6 bilhões em um mês.

Para 2027, impacto das medidas por Lula chega a R$ 33 bilhões

Para o ano de 2027, quando terá início o próximo mandato presidencial, a pressão adicional dos anúncios das últimas semanas chega a aproximadamente R$ 33 bilhões.

Cada medida tem um tipo de natureza orçamentária diverso. O reajuste do Bolsa Família cria uma nova despesa permanente, enquanto a extinção das apostas online gera perda de uma importante fonte de receita.

O que as medidas têm em comum é o fato de serem anunciadas por Lula em meio a uma campanha eleitoral em que disputa a reeleição e a redução que provocam no espaço disponível para o governo administrar o Orçamento.

O governo afirma que a meta fiscal de 2026 será cumprida. Segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento, o aumento no Bolsa Família será acomodado por meio de remanejamento de outras despesas, após a revisão para baixo de R$ 11,5 bilhões na projeção dos gastos previdenciários.

Já para compensar a frustração de arrecadação com as bets, a equipe econômica pode ter de ampliar o congelamento de recursos, caso não encontre novas fontes de receitas.

Desenrola 3.0 custará pelo menos R$ 5 bilhões em 2027

No caso do Desenrola, a União deve adquirir créditos com forte deságio junto a bancos, assumindo carteiras de até R$ 150 bilhões em dívidas, mas poderá recuperar parte dos recursos. A MP 1.393, que cria o programa, estabelece um limite máximo de R$ 15 bilhões para despesas decorrentes da aquisição das dívidas ou de eventual integralização de cotas em fundos.

“A operação se assemelharia a uma compra de ativo por parte da União, operação de caráter financeiro, e não primário”, explica nota da corretora Warren Rena, assinada por Felipe Salto, Josué Pellegrini e Daniel Ferraz. “De qualquer modo, há impacto sobre a dívida pública, a exemplo de outras políticas de crédito subsidiado.”

Para 2027, serão destinados R$ 5 bilhões em recursos orçamentários, segundo Bruno Moretti. O restante poderá ser utilizado posteriormente, até 30 de junho de 2028, dependendo da execução do programa.

“Uma incógnita é a possível resistência das pessoas jurídicas ao deságio mínimo possível de 90%”, acrescentam os analistas da Warren.

Fim das bets pode levar a socorro bilionário a clubes de futebol

O efeito do fim das bets sobre o Orçamento fica mais evidente quando se analisa a arrecadação já obtida com o setor. Segundo dados da Receita Federal, as atividades de jogos e apostas haviam proporcionado cerca de R$ 9,9 bilhões em arrecadação federal entre janeiro e agosto de 2026.

A própria equipe econômica reconhece que será necessário alterar o projeto de Orçamento de 2027 para compensar a perda de arrecadação estimada em R$ 5,3 bilhões com a proibição das plataformas.

A extinção do setor cria ainda uma segunda frente de pressão fiscal. Diante do impacto do fim das bets sobre o patrocínio de clubes de futebol, o governo avalia criar uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões para as agremiações, a fim de permitir a troca de dívidas mais caras por financiamentos de prazo mais longo.

O desenho ainda não foi formalizado e, portanto, não pode ser contabilizado como despesa imediata. Dependendo das condições de financiamento, porém, pode haver custo fiscal adicional relacionado a subsídios de juros, garantias ou eventuais perdas.

Medidas de Lula são questionadas na Justiça

Para além do problema fiscal, há controvérsias jurídicas em relação a algumas das medidas recentes da gestão Lula. O reajuste do Bolsa Família às vésperas da eleição é questionado pelo candidato à presidência Renan Santos (Missão), que acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para suspendê-lo.

A ação foi distribuída ao ministro André Mendonça, mas até o momento não houve decisão de mérito nem suspensão do aumento. Paralelamente, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), reconheceu a validade do decreto a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU).

A MP que extingue as bets, por sua vez, é alvo de ação da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que argumentam que a proibição do setor foi publicada sem justificativa aceitável que demonstre real urgência, além de insegurança jurídica pela interrupção abrupta.

Um pedido de suspensão da MP foi apresentado nesta segunda-feira (28) ao gabinete do ministro Luiz Fux, do STF. Caso não seja possível suspender a MP, as entidades pedem que seja estabelecido um período de transição de seis meses para o encerramento das operações.

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